Crónica Cultura

Animação para adultos: mudam-se os tempos, mudam-se os bonecos

O ilimitado universo dos desenhos animados para adultos pode ser descrito numa palavra apenas : liberdade. Nesse espaço despretensioso, tudo pode ser abordado sob o escudo de uma cortina de ferro já que a animação pode tudo o que o homem não deve. O leque de possibilidades é extenso, mas por aqui ficam algumas das séries mais fascinantes com sabor a infância. Por Márcia Branco

Desde que Seth MacFarlane pisou o meu mundo que sempre fui fã de bonecada para os ” mais grandes”. Enquanto uma declarada fã de comédia, o que me compeliu, desde logo, foi a junção do humor sem barreiras e a total liberdade que o desenho comporta na construção da realidade – esta, sempre oscilante e imprevisível.

Peter Griffin, a personagem central de Family Guy, pode decidir entrar num foguetão, ir até à lua e, um segundo depois, estar no bar com os amigos a beber cerveja enquanto um número musical acontece – e tal é tão exequível quanto produzir uma cena com pouca ação. Quem tem um lápis, faz acontecer. É como ter uma varinha de condão sobre o papel que faz desabrochar emoções, lugares, possibilidades. Desejar é o que basta.

Por isso, o primeiro ponto que lanço como vantagem em relação às séries que trabalham com o estritamente real – onde o papel serve apenas para apresentar o argumento – é a infinidade de cenários que a animação possibilita, sem ter que recorrer a grandes meios.

Traça-se, logo existe.

Para além disto, os argumentistas são menos hesitantes na escrita e na auto-censura já que escrevem para personagens sem concretização no nosso aborrecido mundo dos factos. Assim, na séria original da Netflix, “Big Mouth”, os pré-adolesentes podem falar sobre a auto-descoberta do corpo de forma visceral e gráfica, sem que um escândalo se instale. Afinal, os desenhos não apresentam uma idade mínima para se expor no streaming.

Ainda dentro deste tema, é inegável que Homer Simpson pode fazer uma piada sobre uma qualquer figura pública que essa opinião não será associada a ninguém. Há uma margem para fazer humor com o que se queira, sem correr o risco de sofrer um boicote.

O desenho pode tudo porque não magoa ninguém, é apenas uma personagem criada, exclusivamente, para divertir e responde por si mesma.

Por outro lado, se Brad Pitt quebrar a “quarta parede” durante um filme e fizer uma piada sobre refugiados o ambiente pode ser outro, ainda que quem emita a opinião ou faça a graçola seja também apenas a sua personagem. Isso advém da dificuldade que o público tem, por vezes, em separar a narrativa e o seu estilo das convicções pessoais do artista. Quem vê caras não vê opiniões.

Desta forma, há liberdade para criar e há liberdade para dizer. Os argumentistas têm poderes mais amplos no que toca a expressar ideias e estão mais protegidos da chuva de indignações. Eis algumas das séries mais cativantes dentro da animação dos crescidos.

A série animada cujo estilo mais se afasta de todas as outras é “Bojack Horseman”. O tom melodramático, pesaroso e de uma dimensão bem real é perfeitamente equilibrado com o sentido de humor das personagens perante o descalabro da vida. Aliás, a ironia está presente desde o primeiro momento – já que esta história trata a vida de um homem que fora outrora uma famosa estrela numa sitcom a quem o sucesso cegou e impediu de conquistar mais.

Os problemas familiares, os desaires amororos e a droga como escape são temas com que nos identificamos (porque há neles humanidade a escorrer pela tela!) mas, na verdade, a personagem é um cavalo com jeitos de homem – e é aí que descemos ao mundo da animação livre. Entre personagens humanas e animais personificados decorrem 6 temporadas, e vivemos num limbo entre a escrita profunda que espelha genialmente as encruzilhadas da existência e a sensibilidade para contornar o desassossego que recorre a um brilhante sentido de humor.

“Big Mouth” surpreendeu pela irreverência, crueza e originalidade.

O tema central é o da adolescência e os seus malandros meandros . Como se de um génio da lâmpada se tratasse, cada uma das personagens, ao entrar na fase das grandes mudanças, é acompanhada por um “Monstro das Hormonas” que grutescamente os incentivam a exprimentar e a testar os novos talentos do corpo.

A forma como o assunto é tratado é de louvar e de suspirar de alívio já que, na verdade, há pouca informação detalhada e sem filtros púdicos sobre a fase mais difícil do desenvolvimento humano. O que é novo assusta – e ainda mais se a novidade advier de nós próprios. Por isso, sem uma lição clara e despida de preconceitos, cresceremos com a angústia de não entendermos do que somos feitos. Mas, inovando na sua abordagem ao tema, nesta série há números musicais divertidos e brilhantemente executados, pais que são a hiperbolização da loucura e incompreensão, vaginas falantes e o fantasma do cantor Duke Ellington que dá conselhos ao pequeno Nick entre melodias e gargalhadas tresloucadas.

“Big Mouth” não é só uma obra de arte, é uma obra necessária, pedagógica que pode transformar o medo numa saudável aceitação.

Por fim: “Archer”. Uma animação para adultos em forma de sitcom que nos dá a conhecer ISIS, uma agência de espionagem e defesa nacional que conta com funcionários tão disfuncionais que parece que estamos a assistir a um crossover com o ” The Office”.

Archer, a personagem principal, é um homem bem parecido, mimado, egocêntrico que nunca perde uma oportunidade para mandar um piada inconveniente, ou para fugir para uma ilha com mulheres nativas, ou tentar seduzir a colega Alana, que entre um revirar de olhos e uma mão na anca o afasta dessa possibilidade.

É uma série que emana uma escrita estimulante e muitíssimo inteligente e que conta já com 11 entusiasmantes temporadas, sem nunca nos fazer pedir que seja a última. Archer ganha o coração de quem vê pelas personagens, pelas piadas apuradas, pela superação da história a cada episódio. Mas, principalmente, pelo incómodo que se sente por conseguir detetar nele todos os defeitos e continuar a adorar o belo espião e menino da mamã que tem no olhar o vazio de quem não cria vínculos a não ser com ele próprio.

Talvez queiramos ser salvos por um anti-herói, desta vez.

Artigo da autoria de Márcia Branco