Crítica Cultura

Lady Gaga: Movimento Bring Back The Fame

Este domingo a América foi palco da maior noite da música, e, embora Lady Gaga só tenha recebido um Grammy, não nos esquecemos do seu impacto na cultura popular americana. Por Roberto Saraiva

Quem é que não se lembra do célebre vestido de carne? Quem é que não se lembra daquela vez que ela e a Beyoncé mataram todos os clientes daquele restaurante? Quem é que nunca sonhou em incendiar o seu parceiro sexual ante do ato? Quem? A reposta é óbvia: ninguém. Mas todas estas situações integram as produções artísticas que penetraram a memória coletiva da civilização, e todas elas têm a mesma criadora: Stefani Joanne Angelina Germanotta. Também conhecida por Lady Gaga. E não obstante o facto de a cantora ser extremamente reconhecida, há que inquirir sobre o verdadeiro significado da sua vasta e complexa obra.

The Fame (2008) e The Fame Monster (2009): nascimento e crescimento

Em 2008, o mundo viu nascer um estrela mundial. Foi com “Just Dance”, com Colby O’Donis, que Lady Gaga se estreou na música pop, e também nesse ano o mundo conheceu outro hino musical  da artista: “Poker Face”. Contudo, foi em 2009, com o seu Fame Monter, que  artista mostrou ser mais do que um produto da indústria musical, mas sim um verdadeiro ícone da Pop Art.

O vídeo de “Bad Romance” é a obra prima de Lady Gaga. O enredo gira em torno de uma escrava sexual, raptada pela máfia russa, e vendida num leilão, só para depois matar o seu dono e recuperar a sua liberdade. Para além deste tema do envolvimento em relações tóxicas ser recorrente na obra da cantora, o vídeo mostra-nos a ascensão artística de Stefani.

Quando entra no mundo da música, Stefani perde-se e torna-se num mero produto musical – mais uma das muitas cantoras pop com músicas como “Just Dance” e “Poker Face” que servem para viciar e atrair o público. Mas com “Bad Romance” Lady Gaga despiu-se e revelou a sua face mais controversa e lendária.

Ela incendeia o seu raptor, ela incendeia o público que a segue e mostra-lhes o seu verdadeiro ser. E enquanto é raptada, perde a essência e é obrigada a abdicar de parte do seu ser para se tornar uma estrela. Mas a sua natureza artística não permite que seja controlada.

Born This Way (2011): a lenda afirma-se

Com o Fame Monster a superar a marca das 20 milhões de cópias vendidas e a ser altamente galardoado, Lady Gaga mostra-nos, mais  uma vez, que não está no mundo da música para nos brindar com temas altamente viciantes, mas inócuos em termos de significado intelectual. “Born This Way” aborda temáticas como a aceitação LGBT, o amor próprio, a ascensão para a fama, a longa e árdua caminhada para a consolidação como artista no mundo pop.

ArtPop (2013) e Cheek to Cheek (2014): a queda

Embora a capa nos faça lembrar um soirée artístico na Florença do Quattrocento, o ArtPop revelou-se uma composição do gótico flamejante, com uma produção musical excessiva e demasiados adornos. O produto final trespassa a marca do exuberante, e torna-se asfixiante. Por seu turno, Cheek to Cheek é um ótimo álbum caso queira fazer adormecer o seu gato.

Joanne (2016) e Superbowl (2017): renascimento da lenda

“Take my hand, stay Joanne” – e nós ficámos nós, no embalo deste álbum. Lady Gaga inaugura um novo estilo, mistura o country com o pop e dá-nos composições belas. Mostra-nos a sua versatilidade, mas também a sua fragilidade e maturidade e o álbum é uma autêntica carta de amor à sua tia falecida, Joanne.  Para além disso, a sua atuação no intervalo do Super Bowl comprovou o seu estatuto como verdadeira força da deste universo pop.

A Star Is Born (2018) e Chromatica (2020): um mundo novo

Em 2018, na sua estreia cinematográfica, a cantora impressiona o mundo e arrecada uma nomeação para o Óscar de Melhor Atriz, mas é a banda sonora do filme que vive dentro nós. Especialmente, o seu “Shallow”.

Lady Gaga volta ao dance-pop, seu local de origem, mas fá-lo com um toque nostálgico que nos faz lembrar do pop da década de 90. O álbum é em si uma composição concisa e trabalhada, mas esperava-se mais. Mais coragem, uma abordagem mais séria de temas como o abuso sexual, e um maior número de hits memoráveis. Todavia, foi um bom regresso às raízes.

Em suma, com mais de 1oo milhões de discos vendidos, 12 grammys e muitas outras honras e conquistas, Lady Gaga, em 10 anos, consolidou a sua posição no panorama musical americano, mas também na cultura pop mundial. O seu legado será comparável ao de figuras incontornáveis da pop como Beyoncé, Madonna, ou até mesmo (o rei) Michael Jackson.

Artigo da autoria de Roberto Saraiva