Crítica Cultura

Lupin: a utopia do “ladrão para o bem”

Não é novidade que há uma afeição peculiar às personagens que cometem golpes habilidosos e nunca são apanhadas pelas autoridades. Arsène Lupin é a personificação literária francesa desta perícia. Preservando a familiaridade com o famoso "ladrão de casaca", a Netflix lançou, no início do ano, a série Lupin, impregnando elementos deste universo trivial enquanto constrói a sua própria história.

Criada por George Kay, Lupin prende o público, pois a sua narrativa tem um grande fio condutor, apostando em reviravoltas impactantes. A série passa-se na França. Na adolescência, Assane Diop (Omar Sy) viu o seu pai ser preso pelo roubo de um colar valioso — vítima de um esquema sujo comandado pela corrupta e poderosa família Pellegrini. Agora, 25 anos depois, planeia o grande roubo da jóia como forma de vingança pela morte do pai.

O livro de Arsène Lupin, oferecido pelo seu pai, mais que um abrigo, traduz-se numa inspiração para Diop planear a sua vingança. É em volta da obra de Leblanc que se desenrola a ação da história. No entanto, a produção francesa livra-se do monóculo e da cartola representativos da personagem do romance policial e faz uma releitura primorosa da obra literária, adaptando-a à França do século XXI. Com muita precisão, o roteiro entrelaça a ficção do universo de Lupin com a de uma personagem que se inspira no romance em busca de justiça, compondo uma narrativa atual e sofisticada.

À medida que avançamos nos episódios a história torna-se mais complexa. Nos primeiros episódios há uma incidência nos estratagemas arrojados, ao passo que nos seguintes aprofunda-se a vida pessoal de Assane, recorrendo a vários flashbacks. No último episódio da primeira parte, o passado do protagonista alcança o presente. Esta fusão orgânica dos diferentes espaços temporais permite-nos entender as razões e motivações que levaram Diop a tornar-se um golpista.

A comunhão entre a incessante perseguição policial e a dramaticidade dos esquemas do golpista é sedutora no seu conjunto.

No entanto, para Lupin ser este resgate notável do legado do famoso “ladrão de casaca” é de salientar a performance intocável de Omar Sy. Para além de dar vida a um mestre do disfarce moderno com elegância e simpatia, o ator francês é carismático e adiciona uma quantia avultada de malícia à personagem. O sorriso afável, a linguagem corporal galante e o discurso astuto e estimulante vão construindo a personalidade de Diop facilmente empática e irreverente.

A série conquista pela serenidade no olhar de Assane na hora de se disfarçar e mudar de identidade. Seja pela lábia, raciocínio rápido ou a capacidade discursiva, a verdade é que o protagonista consegue enganar os outros com grande naturalidade. Aliás, demora algum tempo até descobrir qual é a verdadeira identidade de Diop. Todo este mistério natural do personagem, torna as reviravoltas da narrativa mais envolventes e impactantes.

Fotografia: Netflix

É, igualmente, apreciável como a jornada do protagonista se casa, de forma pormenorizada, com debates sociais no contexto da França de hoje. Através de Assane, a série debruça-se, de forma irónica e inteligente, no preconceito racial, apropriando-se do mesmo para escapar a determinadas situações.

Lupin foi uma deleitosa surpresa deste início de ano. Original, sólida, ágil, e cativante, a série provou ser uma homenagem contemporânea interessante, capaz de prender a atenção do público. Assane Diop emergiu das prestigiosas águas já exploradas de Arsène, mas a sua onda de peripécias está longe de terminar — a segunda parte da série está a caminho.