Cultura

The Velvet Underground: o toque de Midas do Rock

The Velvet Underground são, provavelmente, o grupo mais influente na história do rock moderno. Foram inovadores nos anos 60, e continuam a sê-lo agora.

Dois génios, um musical e o outro lírico e musical, juntaram-se e arredaram um bom guitarrista, uma baterista que tocava de forma pouco ortodoxa e um manager que iniciara um movimento artístico, criando melodias experimentais que originaram a maior parte do rock e da música psicadélica que ouvimos e que se faz ainda hoje. Inspiraram artistas como The Jesus and Mary Chain, Nirvana, Joy Division, David Bowie, entre muitos outros.

Lou Reed nasce em Nova Iorque no ano de 1942 e forma-se em Inglês em Syracuse, NY, em 1964. Escreve poesia e short stories, mas começa a interessar-se por escrever músicas de rock, tendo, no final do curso, já escritas as letras do “Heroin” e “I’m Waiting For The Man” – músicas futuras dos The Velvet Underground. Já formado e com vontade de interagir com o mundo da música, Reed consegue um trabalho como escritor na Pickwick International Records.

John Cale, prodígio musical galês nascido no mesmo ano que Lou Reed, participa ativamente na música desde muito novo, chegando a integrar a Youth Welsh Orchestra. Mais tarde, quando estudava ensino de música na Goldsmits College, Universidade de Londres, ganha uma bolsa para estudar durante oito semanas na Berkshire Music Center em Massachusetts, que decide aceitar. Surpreendentemente, consegue um passaporte de tempo indefinido, o que lhe permite permanecer no país e arranjar emprego numa livraria em Manhattan, onde passa a viver.

Entretanto, através de um concurso de piano promovido por John Cage, Cale conhece LaMonte Young e junta-se ao seu grupo de música avant garde, Theater Of Eternal Music, onde contacta com Tony Conrad e Angus MacLise. Frustrado com o avant garde e interessado no rock moderno, conhece Lou Reed em 1965 através da Pickwick, onde, juntamente com Tony Conrad, participa em concertos promocionais sob o nome The Primitives, que se formaram por sugestão da editora depois de Reed ter escrito The Ostrich.

O projeto The Primitives não resulta, mas, convencidos de que teriam algo para dar, juntam-se a Sterling Morrison –  guitarrista e antigo colega de Lou Reed,  – e a Angus MacLise – baterista da banda de LaMonte Young – formando os The Warlocks. Um pouco mais tarde, Conrad encontra um livro de Michael Leigh, intitulado The Velvet Underground, que explora temáticas sexuais como o sadomasoquismo. Por ser diferente e por se identificarem com o termo “underground” relativamente à cultura (e não pela conotação sexual), adotam esse título como novo nome para o grupo.

No final de 1965, o jornalista Al Aronowitz, nos entremeios manager da banda, agenda-lhes um concerto como banda secundária na Summit High School, em Nova Jersey. Na última hora, MacLise desiste do grupo e é substituído por Maureen Tucker – baterista que tocava em pé, irmã de um colega de Morrison – ainda assim, o concerto corre mal. Posteriormente, Aronowitz consegue que sejam banda residente no Café Bizarre, por duas semanas. É nesse café que, por interesse de uma cineasta em filmar a banda, conhecem Andy Warhol, conceituado artista do movimento Pop Art.

O artista apadrinha os The Velvet Underground, tornando-se manager e produtor. Passam, assim, a utilizar o The Factory de Andy Warhol, frequentado por personalidades como Bob Dylan, Mick Jagger, ou Salvador Dalí e Truman Capote, entre outros. Nessa altura, é sugerido que Nico (Christa Päffgen) – modelo e cantora Alemã nascida a 1943 – integre os Velvet mas, embora não tenham recusado a ideia a Warhol, a mesma é aceite com pouco entusiasmo pela banda, fazendo questão de demarcar a distância: o primeiro álbum chamar-se-ia The Velvet Underground & Nico.

O álbum The Velvet Underground & Nico (1967)

A banana, desenhada por Andy Warhol para a capa do primeiro álbum, é quase o símbolo dos The Velvet Underground. Foi um álbum que influenciou muita gente ligada ao mundo da música e, apesar do pouco sucesso que fez, conta a lenda que toda a gente que o ouviu formou uma banda:

“Our jaws hit the floor. They were the Mary Chain before the Mary Chain. That was the point at which we were kicked off our sofa.” – Jim, The Jesus and Mary Chain, (The Guardian).

Com uma conceção musical completamente inovadora e letras com temáticas fora do comum, como são os casos de “Venus In Furs”, que aborda o sadomasoquismo, “There She Goes Again”, sobre a prostituição, “Heroin” e “I’m Waiting For The Man” com as drogas como tema principal, o misterioso lado negro de “The Black Angel’s Death Song” e ainda “All Tomorrow’s Parties” de cariz social. Também inclui temáticas mais leves, como o amor, por exemplo, em “I’ll Be Your Mirror”. “European Son”, a última faixa, é dedicada ao poeta e professor de Reed, Delmore Schwartz.

O mundo musical a que este álbum nos introduz parece antecipar ao rock novas correntes: o gótico, o psicadélico e o electro-punk, entre outras.

Mais tarde, por incompatibilidade de projetos, Nico sai da banda e prossegue com a carreira a solo que já tinha iniciado com o álbum Chelsea Girl (1967). John Cale não cortou relações com ela e, inclusivamente, torna-se um elemento chave na composição e produção musical durante o resto da carreira de Nico.

No final de 1967, por entender que Warhol não conseguiria projetar a banda mais longe por falta de experiência no mundo do rock, Reed decide que estava na altura de o grupo se separar do artista.

O álbum White Light/White Heat (1968)

Novamente e de uma forma espantosa, os Velvet apresentam-se inventivos. Foi o primeiro álbum sem o apoio de Andy Warhol e o último com John Cale na banda, destacando-se as músicas “White Light White Heat”, “Sister Ray” e “Here She Comes Now”.

Depois deste álbum, Reed e Cale entram em discussões sobre o rumo musical a tomar, culminando na despedida de Cale, que prossegue com uma carreira a solo que tem início com o Vintage Violence (1970). O lugar é preenchido por Doug Yule, baixista americano de 21 anos.

O álbum The Velvet Underground (1968)

Embora Cale já não integre o grupo, as ideias mantêm-se as mesmas e, por isso, as músicas delineiam-se por meio do mesmo cunho criativo. Com a solidão de “After Hours”, a leveza de “Pale Blue Eyes” e a frescura de “Some Kinda Love”, o álbum The Velvet Underground (1968) é bastante marcante.

A banda continua com problemas internos: Lou Reed encontra-se numa pior fase, Yule começa a forçar algum protagonismo e Maureen está afastada devido à gravidez.

O álbum Loaded (1970)

Ainda que inovador, neste álbum, que é tomado pelas ideias de Lou Reed, é notável a falta que John Cale faz na experimentação musical. Em Loaded (1979), destacam-se “Oh! Sweet Nuthin’” e a famosa “Sweet Jane”, detentora de uma infinidade de covers por outras bandas.

No final da gravação de Loaded (1979), Lou sai da banda, que vem a desmoronar-se. Há um último álbum totalmente creditado a Doug Yule, Squeeze (1973), que não é sequer considerado pelos fãs.

Lou Reed transformou-se num famosíssimo músico de Rock com a sua carreira a solo. Entre álbuns como Transformer (1972), Berlin (1973), Metal Machine (1975), The Blue Mask (1982) e New York (1989) e músicas como “Perfect Day”, “Walk On The Wild Side” e “Vicious, Reed” foi, de todos os membros, o mais bem sucedido no pós-Velvet.

O álbum perdido

Mais de uma década após o término do grupo, são ainda lançados dois álbuns com músicas por acabar, gravadas no período 1967 a 1969 – VU (1985) e Another View (1986). As faixas aqui presentes integrariam um quarto álbum, que chegou a ter número de catálogo, mas que não foi lançado.

Surgem músicas com um caráter muito experimental, é o caso de “Hey Mr. Rain” e “One Of These Days”, e outras talvez não tão inovadoras, porém bastante apelativas, de que são exemplo “Lisa Says” e “Foggy Notion”.

Com a morte de Andy Warhol em 1987, Cale e Reed lançam um álbum brilhante denominado Songs For Drella (1990), dedicado inteiramente ao artista da Pop Art e à sua relação com ele.

Em 1993, os membros da formação inicial dos The Velvet Underground juntam-se para atuar, a convite, no Olympia, em Paris, com posterior álbum de concerto LIVE MCMXCIII (1993).

De todos os elementos que integraram a banda, apenas John Cale, Maureen Tucker e Doug Yule se encontram vivos.

Esta é a história de um dos projetos mais inovadores de sempre, que desconstruiu o Rock e alterou o rumo da música em geral. São um marco da cultura do século XX; poder-se-á até dizer que há uma era pré e outra pós-Velvet, ainda não findada. O pós é esmiuçado por variadas bandas que fazem os fãs dos The Velvet Underground sorrir para dentro – “onde é que eu já ouvi isto…”.

Entre os vários tributos e covers que fizeram aos/dos The Velvet Underground, destacam-se:

Quando acontecerá um novo projeto tão disruptivo como os The Velvet Underground e o seu rock experimental? O mundo da música aguarda ansiosamente.