Cultura

1ª Semi-final do Festival da Canção 2021: uma noite sem grandes surpresas

No último sábado teve lugar, na RTP, a primeira semi-final da 55ª edição do Festival da Canção. Numa noite que pautou sobretudo por propostas apresentadas a lume brando e uma emissão mais longa do que necessário, ficaram apurados os primeiros cinco finalistas do Festival.
Artigo por: Fernando Antunes da Costa

A expectativa e a incerteza envolviam a primeira semifinal desta edição particularmente atípica do Festival da Canção. Depois do anúncio prévio de que esta, perante a situação de pandemia da covid-19, aconteceria sem público presente em estúdio, suscitaram-se dúvidas sobre os moldes nos quais a emissão se desenrolaria. Felizmente, a ausência de espectadores não impactou negativamente o espetáculo cuja apresentação ficou nas mãos de Jorge Gabriel, Sónia Araújo e Inês Lopes Gonçalves que assegurou a boa-disposição de uma Green Room estranhamente vazia. Houve ainda um esforço em simular os aplausos e as reações do público de forma a disfarçar a plateia despida de gente.

Estavam então garantidas as condições necessárias para uma noite que prometia entrega, espetáculo e, sobretudo, muita música.

A tarefa de abrir o desfile de canções a concurso coube aos, já conhecidos, The Black Mamba com Love is On My Side”. Com a competência técnica e musical do costume, a voz de Tatanka carregou “aos ombros” uma canção que cumpriu o seu papel sem grandes truques. Foram os Black Mamba a fazer o que os Black Mamba fazem, sem surpresas nem desilusões. O concurso estava aberto e aguardava-se ansiosamente o que viria a seguir.

A segunda performance da noite, Na Mais Profunda Saudade” na voz de Valéria foi, indubitavelmente, um dos grandes momentos da noite. Com um instrumental intenso e hipnótico, uma entrega surpreendente e uma voz irrepreensível, ficava provado que os grandes fados não são coisa do passado. A fasquia subira e afirmava-se com segurança que viria a ser uma das favoritas da noite.

Seguiu-se “Claro como água” de Stereossauro e interpretada por Mema., uma atuação que sofreu por um staging confuso e uma performance vocal morna. Um caso evidente de uma ideia boa que perdeu o foco na altura da execução.

O segundo fado da noite, “Cheguei Aqui” na voz de Nadine, apresentou-se de uma forma segura e competente. Um deleite para o fã clássico do Festival da Canção, sofreu apenas por ser apresentado depois de “Na Profunda Saudade”, o que despertou óbvias comparações nas quais “Cheguei Aqui” ficou em ligeira desvantagem. Não obstante, a atuação de Nadine foi bem conseguida e a canção foi defendida da melhor forma.

A meio do concurso chegava ao palco Miguel Marôco, um dos selecionados para as vagas de submissão livre de canções. “Girassol”, um tema indie ganhou pontos pela diferença entre as restantes atuações, mas o nervosismo de Marôco e a linearidade da canção fez com que se perdesse intensidade e se comprometesse um possível apuramento para a final.

Depois de uma rápida passagem pela Green Room, entrava-se na segunda metade do concurso e havia ainda cinco atuações por assistir.

Fábia Maia apresentou “Dia Lindo” que captou a atenção dos espectadores pela atmosfera distinta que criou. Em palco, pouco aconteceu e a performance vocal de Fábia teve momentos baixos que impediram a atuação de atingir a fasquia que havia sido estabelecida. Seguiu-se  IRMA com o tema da sua autoria “Livros”, que proporcionou um momento de entrega notável sem percalços vocais ou técnicos.

Já na reta final do concurso, Karetus & Romeu Bairos, uns dos favoritos à vitória do Festival por parte da comunidade eurovisiva internacional, não desiludiram. “Saudade” foi defendida irrepreensivelmente com um staging que cheirou a Eurovisão, sem ser exagerado ou distrativo. A preocupação principal foi a canção, e nisso não houve qualquer problema.

A penúltima canção a concurso, “Contramão” de Filipe Melo e interpretada por Sara Afonso foi, musicalmente, dos momentos altos da noite, mas, por outro lado, teve aquele que foi o staging mais monótono do concurso. A atuação passou apenas por Sara Afonso a cantar a sua canção. E absolutamente mais nada.

A fechar o desfile de canções surgiu IAN e a sua proposta “Mundo”. Se em palco a canção prometia conquistar, a performance vocal com algumas falhas impediu o momento de ser particularmente memorável, apesar das opções de guarda-roupa e cabeleireiro irreverentes.

Fechadas as atuações a concurso, abriram-se as linhas telefónicas e fez-se uma revista ao ano de 2020, da vitória de Elisa ao cancelamento do Festival da Eurovisão. E foi, precisamente, Elisa que protagonizou outro dos grandes momentos da noite com o seu novo tema “A Ilha”. A simpatia de Elisa e a forma como entregou a solarenga canção iluminou a noite como um raio de sol pelo qual não se espera. Fica a dúvida do que teria sido se a RTP tivesse concedido este ano a possibilidade a Elisa de defender uma canção em Roterdão.

Fotografia: Pedro Pina / RTP

Antes da divulgação dos resultados houve ainda espaço para uma atuação da veterana e vencedora do FdC por duas vezes, Dora. A cantora interpretou “Não Sejas Mau Para Mim”, um dos temas portugueses na Eurovisão mais conhecidos, que celebra em 2021 35 anos. Numa aparente tentativa de “fazer tempo” antes do anúncio dos vencedores, houveram ainda várias passagens pelos “recaps” das canções a concurso e conversas com o júri. De qualquer forma, lá chegou o momento pelo qual todos esperavam: o anúncio dos apurados à final do FdC 2021.

Se por um lado as passagens à final por Valéria, Karetus & Romeu Bairos e The Black Mamba eram mais do que esperados e o apuramento de Sara Afonso sempre pareceu possível pela qualidade musical da canção, a surpresa da noite foi a presença de “Dia Lindo” entre os qualificados para a Final.

No próximo Sábado, dia 27 de Fevereiro, conhecer-se-ão os restantes finalistas e ficará completo o elenco de dez canções, das quais se selecionará o tema, na final no dia 6 de Março, que representará Portugal em Roterdão no Festival Eurovisão da Canção 2021.