Crítica Cultura

JUP Baú: O Velho e o Mar

Uma verdadeira obra infantil não é apenas um livro que se deva ler na infância, mas sim que se começa a ler na infância e que se redescobre enquanto adulto para se deslumbrar com a sua beleza. "O Velho e o Mar" é um excelente exemplo de como um livro infantil pode ser transversal a todas as fases da vida de um ser.

Li “O Velho do Mar”, de Ernest Hemingway, há cerca de uma década, no âmbito de um concurso escolar. Deparei-me com um conto surpreendente, onde na narrativa aparentemente simples se encontravam episódios que até hoje bem me lembro (como o famoso braço de ferro que perdura durante mais de uma semana), mas também momentos descritos com tamanha delicadeza por parte do autor que parecem telas impressionistas transformadas em frases (como, por exemplo, a narração dos movimentos do mar ou da emboscada dos peixes que se preparam para devorar a presa do velho).

O livro relata a aventura de um velho, Santiago, um pescador cubano que se encontra sem pescar há vários meses e vê o seu sustento ameaçado. Decidido a contrariar a maldição que caiu sobre ele, Santiago enfrenta o mar e tenta encontrar uma presa da qual se possa orgulhar. Lança-se num pequeno barco e enfrenta o pior que a natureza lhe pode dar. Contudo, nesta epopeia criada por Hemingway, galardoado com o prémio Nobel em 1954, a natureza assume diferentes vertentes que o Velho não poderia prever.

A primeira encontra-se presente no título: o mar, e os seus movimentos agressivos. A segunda, a natureza animal, é o adversário de Santiago: um marlim gigante que demora dias a ser capturado. A última vertente da natureza, a mais implacável, e o inimigo com que o protagonista não contava, é o tempo. O tempo que corre sem ele pescar um só peixe, o tempo que demora a capturar o marlim, o tempo que corrói o seu próprio corpo e o torna fraco. O tempo, o tempo.

Talvez seja essa a verdadeira beleza do livro que eu não percebi enquanto pequeno: Santiago luta contra a sua própria condição de velho.

Ele não tenta meramente conquistar o marlim, e o mar, por orgulho ou para obter o respeito dos seus pares, ele fá-lo para se libertar da própria jaula em que a velhice o deixou. O tempo deixa-o decrépito, sem capacidade para se sustentar, às portas da miséria e da fome, refém da caridade dos outros, como a do seu aprendiz, Manolin. Só ele poderá salvar-se. Porém, sozinho no mar, enquanto as ondas crescem e o sol queima a sua pele, Cronos tece das suas e o pescador vai-se definhando.

Por fim, a humanidade revela-se incapaz de derrotar o mundo natural. Santiago volta à terra com um mero esqueleto do marlim, entretanto devorado por tubarões, e, enquanto os outros pescadores se espantam com o peixe de cinco metros, o protagonista volta à sua cama. Manolin traz-lhe comida e dá-lhe o afeto de que precisa. O narrador não nos diz, mas desconfio que o gesto de Manolim não será suficiente para sarar as feridas sofridas pelo cubano durante a aventura.

Contudo, não tenho mais nada a fazer do que despedir-me de Santiago na sua morte inglória, como se de um Coronel Aureliano Buendía se tratasse (vencido pelo cansaço, morto enquanto se aliviava à frente a uma árvore). Estes dois sempre me acompanharão, não só enquanto personagens complexas e memoráveis, mas como seres presos na sua própria decrepitude.