Crítica Cultura

Erling Kagge: a Filosofia no Silêncio da Caminhada

O primeiro livro de Erling Kagge que li foi o "Silêncio na Era do Ruído". Desde então, sempre que encontro o nome dele nas estantes das livrarias, sinto despertar em mim o meu lado mais aventureiro e embarco numa leitura onde caminho pelo gelo dos três polos, acompanhada por quem lá chegou sozinho. Artigo de Margarida Pereira

Erling Kagge, nascido em 1963, natural de Oslo, Noruega, é uma pessoa difícil de encaixar numa só gaveta. Há quem o considere um aventureiro filósofo, outros um filósofo aventureiro. Pelo que retirei da leitura dos seus livros até agora, diria que precisamos de muita mobília para o descrever. Exerceu Direito até começar a estudar Filosofia, fundou em 1996 uma das maiores editoras norueguesas da atualidade, é colecionador de arte e pai de três filhas. Como se tal não bastasse, tornou-se a primeira pessoa a chegar a pé aos três polos: Polo Norte, Polo Sul e o pico do Monte Evereste.

O objetivo de completar o “Desafio dos Três Polos” começou em 1990, quando alcançou o Polo Norte, acompanhado por outros exploradores. Em 1993 alcançou aquele que considera ser o seu maior feito e aquele a que dá mais ênfase nos seus livros: chegou sozinho ao Polo Sul, após cerca de 50 dias de total solidão, sem equipamentos especiais ou rádios, durante os quais não estabeleceu qualquer tipo de contacto com o mundo civilizado. No ano seguinte, ao chegar ao Pico do Evereste, torna-se a primeira pessoa a completar o inimaginável desafio.

Foram estas experiências que levaram o autor a escrever três ensaios que relatam algo que, para quem está no conforto da sua casa, deixa de ser (por mais impressionante que pareça) uma utopia.

Ainda que seja difícil imaginar o que será embarcar numa viagem destas, ao ler Kagge sentimo-nos como se estivéssemos verdadeiramente a acompanhá-lo.

Erling Kagge: desafio dos três polos

Nos seus livros, Erling Kagge mostra-nos como atingir (ou pelo menos tentar) a harmonia, a felicidade e o bem-estar, por intermédio do que aprendeu nas suas expedições. Em “O Silêncio na Era do Ruído”, possivelmente o meu preferido, Kagge debruça-se numa meditação sobre o poder do silêncio. Apercebi-me que abordar este tema, nas sociedades contemporâneas, onde cada vez mais o ruído se impõe e os momentos em que o silêncio impera são escassos, é muito mais importante do que achamos. Faz-nos refletir sobre a nossa própria existência e sobre a vida frenética que nos dias de hoje nos é imposta.

O silêncio a que o autor se refere não é a mera ausência de comunicação ou ruído, é o silêncio interior, de que não desfrutamos nem reconhecemos como relevante – um verdadeiro luxo em vias de extinção.

Em “A Arte de Caminhar”, Kagge convida-nos a levantarmo-nos do sofá e a pormos o sedentarismo de lado. Faz-nos caminhar na nossa consciência, despertar para a importância da natureza e para a necessidade de procurar equilíbrio entre corpo e espírito. É defendida a ideia de que por mais que façamos o mesmo percurso repetidas vezes, a caminhada será sempre diferente e trará sempre coisas novas. Para quem, em 2021, está confinado em casa e limitado a breves “passeios higiénicos”, esta realidade ganha outra dimensão e tal como o autor diz:

“Há muitas coisas na nossa vida que têm um ritmo demasiado acelerado. Caminhar é uma tarefa lenta. É uma das coisas mais radicais que podemos fazer.”

Para concluir a trilogia, o seu mais recente livro, “Filosofia para Exploradores Polares” é, como o próprio diz, “uma espécie de recapitulação” de tudo o que aprendeu até agora. Um momento para parar e fazer um balanço do que está para trás. E assim junta 16 dicas que nos mostram como atingir os nossos objetivos, e quem sabe se, no final do livro, não estaremos já prontos para escalar o Evereste. Termina com as duas lições que considera serem as que têm mais valor: ser amável e deixar o lugar do nosso acampamento como o encontrámos (ou ainda melhor).

Antes de embarcar na leitura da obra de Erling Kagge, não via com grandes olhos livros de “autodescoberta” e “autodesenvolvimento”, se é que podemos intitular a sua obra de tal modo. De qualquer maneira, a verdade é que, sem nunca o fazer de um modo moralista ou condescendente, o autor consegue tornar os seus livros, não só refletivos, mas também uma fonte de aprendizagem.

Erling Kagge honra a velha tradição de simplesmente vaguear pelo mundo e ao mesmo tempo meditar sobre a vida. Quem já descobriu a obra deste escritor certamente ficará com uma nova perceção da existência humana, de avaliar situações extremas e o que elas nos podem ensinar sobre uma vida com sentido. Quem ainda não teve a oportunidade, está na hora de o fazer!

Artigo da autoria de Margarida Pereira