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Balada para Sophie: A tristeza cala e a música fala

Filipe Melo, músico, realizador de cinema e autor de banda desenhada. Juan Cavia, diretor artístico e ilustrador desde 2004. Uma vez mais, deram as mãos para orquestrar uma estória que eleva uma melodia, cobrando-nos a imaginação. Quando a fumaça assenta, tudo o que vemos é um menino amedrontado, um sonho apagado e um piano que levita quando os olhos da alma se abrem para ver destilar a dor. "Balada para Sophie" é um tesouro que reluz a vários olhares, aos quais juntei o meu. Por Márcia Branco

Sempre fui fã de Novelas Gráficas. A força do texto aliado às imagens captam-me todos os sentidos que se reúnem para viver um filme que só eu vejo naquele preciso instante.

Nunca uma obra me deu tanto poder enquanto leitora, a premissa é afastar a capa e logo depois, um mundo de cores sugar-me-á para a vertiginosa viagem de uma estória que é moldada, também, ao ritmo do meu olhar. As emoções das personagens cunham-se de uma autenticidade crua que só estas duas artes em abraço conseguem parir. Mas, em “Balada para Sophie” há uma terceira arte que se junta para nos alimentar o desassossego: a música!

E se acham que o papel não vibra criando doces canções de embalar é porque a banda sonora da vossa alma precisa de ser regada. Eu ouvi, desde a primeira página, o que se veio a revelar numa obra prima que culmina num abrupto crescendo que suaviza, logo depois, na nostalgia das cordas.

Devo dizer-vos, sem correr o risco de pecar por uma declaração excessiva, que há muito tempo que a arte não me abalava desta forma.

Filipe e Juan conceberam o perfeito equilíbrio entre o absoluto deleite e o esmagador conflito em que nos colocam à medida que a ação avança. Viver uma estória ou uma canção pode inebriar-nos de tal modo que só pedimos mais uma página, mais um acorde. E, quando no final o desespero nos invoca a partir da garganta seca, deparamo-nos com o milagre da arte: as últimas páginas da obra incorporam uma partitura da canção da estória que nos passou, exclusivamente, pelos olhos e ouvidos.

Trata-se de uma partitura manuscrita que surge para nos reconfortar dizendo que esta melodia repercutirá, para sempre, em nós. Não poderia pedir mais nada, quando chego a este ponto rendo-me assoberbada e apenas posso agarrar-me ao livro, pegar no telemóvel e procurar no YouTube uma versão de Filipe Melo a tocar “Ballade pour Sophie“. Foi mesmo assim que imaginei a banda sonora deste pedaço de vida que em mim irrompeu.

Sobre o que a estória trata serei incapaz de vos retirar o prazer de a cutucarem por vós mesmos. Apenas direi que há vidas que se cruzam numa altura em que o passado é mote para se apaziguar o presente que nem sempre é tocado a Dó maior.

Uma visita de uma jornalista à majestosa mansão de um maestro conceituado mas esquecido é o que é preciso para que tudo o resto ganhe um novo sentido: um passarinho bicolor, “Le poète du piano”, uma bailarina perdida, um senhor de nome Napoleão que contava todos os segundos que passavam, um piano que levitava. Mais do que um piano, todos aqueles que eram tocados por quem deles fez um prolongamento da balada da própria vida.

“Balada para Sophie” comporta em si o segredo do encantamento. Como sou má a guarda-los, ei-lo vertido numa humilde composição pessoal que perderá sempre em relação à canção que sou incapaz de reproduzir.

Mas nada temam, se a lerem também a ouvem.

Artigo da autoria de Márcia Branco