Cultura

Susana Gaspar: “A pandemia só mostrou os buracos sociais da cultura”

De Lisboa para Londres, dos palcos nacionais para a Royal Opera House, Susana Gaspar disputa a vida de um cantor lírico durante a pandemia com a precaridade da cultura portuguesa. Sendo as artes, em Portugal, colocadas, permanentemente, em segundo plano, Susana relata a notória diferença sentida durante os anos em que esteve em Inglaterra, quer a nível de formação e oportunidades, mas, sobretudo, a nível da cidadania cultural.

A carreira de cantora lírica não foi logo uma certeza na vida de Susana Gaspar. Sempre soube que seguiria música, mas nunca pensou que o instrumento pelo qual se apaixonaria seria a sua própria voz. A artista de renome estudou no Conservatório Nacional de Música. Embora os professores fossem excelentes, sentiu que era além-fronteiras que poderia adicionar conhecimento ao nível que ambicionava. Viu em Londres, na Guildhall School of Music and Drama, a possibilidade de pôr as suas aprendizagens em prática. Em 2011, a soprano portuguesa integrou no programa Jette Parker para jovens artistas na Royal Opera House, em Londres. Representou Portugal na competição para os cantores líricos profissionais e em início de carreira, BBC Cardiff Singer of the World 2013.

A percentagem do Orçamento do Estado previsto para a Cultura em 2021 é de 0,21%. Seguem-se manifestações de trabalhadores do setor pelo devido reconhecimento da cultura. Para além das questões financeiras, quais são os limites à criação artística?

Bom, a cultura em Portugal nunca foi um setor verdadeiramente apoiado se formos a comparar com outros países da Europa. Apesar de haver algum apoio, não é suficiente e não chega a todos os artistas, corpos artísticos e áreas da arte. Os artistas contam com poucos apoios, não só a nível económico, mas também devido ao facto de não haver um empenho e interesse da parte de quem governa em saber o que é que existe, que artistas e corpos artísticos é que têm e o que é que se poderia fazer. O pensamento de haver um ministério da cultura que realmente sabe o que é a cultura de um país. Para além disso, também se deveria começar a investir no ensino.

O ensino da música foi sempre muito negligenciado, cada vez está mais, e eu acho que era daí que se deveria começar.

Estudos  afirmam que Portugal apresenta os índices mais baixos de participação e acesso em quatro campos — leitura, concertos, teatro e artes performativas. Acha que é necessário investir na cidadania cultural?

Acho que se deveria apoiar desde cedo na formação dos artistas. Um apoio como deve ser, não só monetário, mas assente na criação de infraestruturas e possibilidades para que se comece, desde cedo, a formação de um artista. Também se deve apostar na educação do público. Proporcionar eventos, seja concertos, exposições, ballet, música, todo o tipo de artes performativas. Se em crianças não temos acesso a essas áreas, não é em adultos que vamos pensar que elas existem. Se queremos educar um povo, alertar e sensibilizar para as artes, para ir a concertos, para a leitura, para ver uma peça de teatro, seja o que for, tem de se começar desde cedo e inundar as crianças com isso, para que suscite nelas o interesse, seja para um dia serem artistas ou público.

Considera que o público possa ser um limite à criação?

A questão aqui é: nós vamos sempre criar com 5 pessoas no público, com 100 pessoas, com mil, dois mil. Quem lá está é importante, o que é que isso implica quando há pouco público? Como há pouca procura, não há razão para quem poderia investir, de investir. Se não há procura os investidores não veem os profits desse business. E aí começam os problemas: há pouca procura, não se investe nisso, não há muito poder de escolha, o público também não se interessa, então aquilo… é uma bola de neve. Portanto, não é tanto o facto de o teatro ter apenas 300 pessoas que a minha performance vai sofrer com isso, porque eu vou dar tanto aquelas 300 pessoas como daria a 700.

Imagem: Renascença

Todos temos noção do quão a pandemia abalou a economia do país e consequentemente todos os trabalhadores. Como se adapta um cantor lírico numa altura de pandemia? Quais são as maiores dificuldades?

Bom, 9 de fevereiro de 2020, foi o dia em que fiz o último concerto, antes de tudo fechar. Todas as outras produções e concertos que eu tinha foram canceladas. E, para além do fator económico, para nós, psicologicamente, tem sido bastante duro, porque muitos ansiavam fazer pela primeira vez um teatro, ou tínhamos grandes projetos ou algo que já estávamos à espera há muito tempo. Depois, cantores líricos são quase como se fossem desportistas de alta competição: temos de cantar e praticar todos os dias, mas também não é só o praticar. Podemos praticar em casa, no entanto, temos de pôr em prática, por isso é que os espetáculos são bastante importantes. Neste momento praticamos sem uma finalidade específica. Acho que a incerteza é a parte mais dura desta pandemia. Se nos dissessem, por exemplo, “durante dois anos têm de estar assim”, o ser humano conseguia visualizar muito bem o tempo. Agora, o facto de não sabermos até quando é muito complicado seja a nível psicológico e económico. Também há algum receio de como é que vai ser quando voltarmos ao ativo.

A música vive muito da interação. Tendo em conta as medidas de distanciamento social, de que forma poderão os espetáculos reinventar-se?

É complicado. Requer muita flexibilidade, muita criatividade e acima de tudo muito força de vontade de o fazer, de não ficar parado. Para entidades mais pequenas as medidas tomadas pelo Governo são a “morte”. Por exemplo, uma coisa é o Centro Cultural de Belém que tem um grande auditório, poder ter metade da sala. Outra coisa é um espaço que já é pequeno poder ter metade da sala. E, portanto, muitas vezes, se temos tantos entraves como a limitação de 50% da sala, realmente as organizações veem-se de pés e mãos atadas. Maior parte das vezes nem vale a pena abrir a porta, porque não é possível aguentar o espetáculo, pagar às pessoas… Agora, há muita coisa que ainda se pode reinventar.

[A pandemia] é um teste à flexibilidade, à criatividade e à elasticidade dos corpos artísticos, e que tem vindo a acontecer.

Em 2011, foi selecionada para integrar o programa Jette Parker na Royal Opera House, em Londres. Os dois anos no programa foram um marco importante para a sua formação e carreira profissional. De que modo ajudou a desenvolver e a refinar as suas habilidades?

Sem dúvida! Primeiro foi o atingir e realizar de um sonho, porque é a Royal Opera House, não é um teatro qualquer. Foram dois anos muito enriquecedores seja a nível humano, seja a nível artístico/profissional. Isto porque tive dos melhores “coaches” do mundo em termos de línguas, musicais, etc… Também trabalhei no palco principal com os melhores maestros, os melhores encenadores, nas melhores encenações, ao lado de grandes cantores que estão no topo de carreira. Nós tínhamos vários concertos ao longo do ano. Aprendi com todos eles, é um absorver tipo esponja. No grupo de jovens artistas éramos 5 cantores e há um ano em que entra um encenador. No meu ano foi o Pedro Ribeiro. Esta foi a primeira vez que dois portugueses entraram na Royal Opera House. Tive a sorte de conhecer e trabalhar com o Pedro que para além de ser um amigo para a vida, é um profissional excecional. Só posso estar agradecida por tudo! Foram dois anos fabulosos.

Imagem: BBC

Acredita que lá fora há grande distinção quanto à formação e oferta de oportunidades nesta área? Considera que Portugal era pequeno para as suas ambições?

Eu não posso falar relativamente a outros países. Posso falar da questão do Reino Unido porque foi onde eu estive. E fui mesmo por essa razão! Eu fiz o Conservatório Nacional de Música e depois de ter concluído não senti que em Portugal existisse algo que me pudesse adicionar conhecimento ao nível que eu queria e ambicionava. Tive a oportunidade de ir para Londres estudar na Guildhall School of Music and Drama e sim, posso ver as diferenças. É aquilo que eu falava há pouco em relação ao se investir na educação. Nem tudo são rosas e nem tudo é mau aqui em Portugal. Eu fui extremamente bem preparada, os professores do Conservatório Nacional são excelentes, mas depois chega um momento em que aqui não se investe mais. Muitas das coisas que nós temos é por empenho e pelo amor dos professores e dos artistas, não vem do apoio governamental. Em Londres, há toda uma cultura e educação para as artes desde pequenos. Portanto, grande parte da população tem acesso. Todas as escolas têm música, artes plásticas, etc… Eu fui para Londres porque achei que deveria fazer formação num sítio que me oferecesse competências que eu não podia ter aqui. Lá há muito a possibilidade de prática, que é o que nós precisamos. Existem muitos concertos a acontecer, muitas audições, portanto temos sempre sítios onde aplicar o nosso conhecimento e é aí que nós crescemos e damos os saltos que temos de dar.

Em Portugal muitos artistas apenas ganham visibilidade depois de fazerem parte de certos concursos nacionais e internacionais. Considera que estes atualmente possam ser uma condição para que um cantor consiga desenvolver a sua carreira?

Detesto competições, já basta a vida do dia-a-dia que mesmo que não se queira é uma competição. A verdade é que elas são necessárias, cada um de nós poderá utilizá-las com um objetivo diferente: seja de exposição, de ser ouvido, ou simplesmente porque queremos ganhar. As competições são importantes porque nos dão estaleca, põem-nos à prova em situações de stress, dão-nos visibilidade e fazem parte da nossa aprendizagem. Neste momento, penso que se dá demasiado valor à competição. Nem sempre as pessoas que ganham competições são os artistas mais completos, podem simplesmente ter uma técnica de competição. Podem ser excelentes em competição, mas depois vão para o palco e não são, se calhar, os melhores.

Querem-se descobrir novos talentos em competições, como o Got Talent, o The Voice ou outros tais, e não deveria ser assim.

O que ambiciona ainda poder fazer, como cantora lírica, na sua carreira profissional?

Neste momento, cantar! Ter sítios para cantar, que haja concertos, que haja ópera. Que se possa voltar, mesmo que seja de maneira diferente. Que não se tenha de modificar tudo, que não destruam o que é a ópera e o canto lírico. Claro que há muitas coisas mais concretas que eu gostava de vir a cantar ou de fazer, mas neste momento esses desejos estão todos em stand-by pelo que eu gostava mesmo era de poder partilhar a arte, fazer arte e comunicar com o público.  É o meu desejo mais forte neste momento!

Que conselhos pode dar a jovens artistas que estão a dar os primeiros passos neste mundo da arte?

Estejam sempre bem preparados, é muito importante! Nós nunca sabemos qual é o dia que nos chamam de um momento para o outro. Preparar o seu trabalho com honestidade. Não desanimar e acima de tudo acreditarem neles próprios. Há sempre muitas portas a fechar, mas depois existem outras maiores que se abrem logo a seguir. Também terem um pouquinho de obstinação.

Qual é o futuro das artes performativas em Portugal?

Vão ser tempos muito difíceis. É dramático! Estamos todos no mesmo barco, não são só as artes que estão a sofrer com isto. A pandemia só veio mostrar os buracos sociais da cultura e a situação precária em que os artistas se encontram. Se estivéssemos a falar de que houve sempre muito apoio à cultura e agora baixasse um pouco, não era tão dramático. O futuro é um grande ponto de interrogação.