Crítica Cultura

Crítica: As 20 Canções do Festival da Canção 2021

Em 2021, o Festival da Canção regressa para uma edição atípica, com vinte canções em competição. O JUP esteve à escuta dos temas a concurso reveladas na última quarta-feira e fez críticas individuais para cada uma.

De olhos postos no Festival Eurovisão da Canção 2021, em Roterdão, 20 artistas apresentam as suas canções no evento de música portuguesa mais memorável da História. Depois da vitória de Elisa com o tema “Medo de Sentir” em 2020 e do primeiro ano sem Eurovisão, foram reveladas esta quarta-feira as canções a concurso para o Festival da Canção 2021. Depois de um ano caracteristicamente mais lento, também as propostas do FdC são, notoriamente, mais calmas.

20 canções cheias de coração, de portugalidade e de mundos inteiros, sem um claro vencedor à partida. Comecem as apostas!

 

NEEV – Dancing in the Stars

“Dancing in the Stars” apresenta-nos uma fórmula que, embora peque pela falta de risco, é um pitéu com todas as cores eurovisivas. Uma balada com um crescendo épico e uma letra simples, mas não simplista. Que pisca o olho a “Arcade” que venceu o Festival da Eurovisão em 2019, mas que não se agarra aos seus moldes.

Com potencial mais que suficiente para ultrapassar a tradição do povo Português de escolher canções lusófonas para representar o país no certame Europeu, é com a bridge instrumental, antes do último refrão, que a proposta de NEEV desengana qualquer cético.

Por entre a tensão das cordas e a força pulsante da percussão, “Dancing in the Stars” mostra que não é “só mais uma balada”. É, sim, uma séria candidata à vitória. Porque nenhuma tradição é mais forte do que a música e o amor.

 

Karetus & Romeu Bairos – Saudade

“Saudade” é a canção mais necessária do Festival. Um eletro-fado com uns toques de música oriental, a proposta da colaboração de Karetus e Romeu Bairos aborda o tema do isolamento, do confinamento e da distância, de uma forma muito menos óbvia do que se podia esperar.

Uma canção que une universos musicais bem longínquos, “Saudade” é uma aventura para terrenos pouco explorados, diminuída apenas pela ausência de um “clímax pop” que tanto apela aos fãs eurovisivos. Ainda assim, é sempre bom ver, num concurso destes, artistas a saltarem para bem fora de pé.

 

Nadine – Cheguei Aqui

É usual no Festival da Canção, todos os anos haver pelo menos uma proposta pautada pela nostalgia e que nos leva a um Passado qualquer onde tenhamos sido felizes. Este ano é “Cheguei Aqui”. Uma aposta segura que, provavelmente, será bem recebida para todos os que consideram que “dantes é que o Festival era bom”.

Assim, de saudosismo em riste, a canção interpretada por Nadine, por mais que seja fácil de gostar, não impressiona particularmente. Está tudo onde é esperado que esteja – e isto, ainda que mate a fome, não satisfaz totalmente o paladar.

 

Carolina Deslandes – Por Um Triz

“Por Um Triz”, da autoria de Carolina Deslandes é uma surpresa e não o é, ao mesmo tempo. Se por um lado vemos uma artista que se despe da sua pele natural e se aventura além das suas forças habituais, a produção e instrumentação “à la disney clássica” soa reciclada.

Uma letra inteligente (não fosse esta a maior força de Deslandes) numa música que abraça, mas não aperta, resulta numa combinação morna que será, sem dúvida, polarizante.

Não é inovadora, nem é previsível. É uma balada que, apelando aos fãs de Carolina Deslandes (e são muitos) dificilmente se distinguirá particularmente no universo de canções a concurso este ano. É esperar para ver.

 

Da Chick – I Got Music

A proposta que mais prometia roubar uns pezinhos de dança do ano é, no final de contas, muito pouco dançável. Um caso em que estão presentes todos os ingredientes para “I Got Music” ser um disco bop como nunca tivemos um, mas que, no final, é insosso e mediano.

Na discoteca, seria, provavelmente, a canção em que se pára de dançar para ir buscar uma bebida. E com todo o potencial que se transparece na música, é uma pena.

 

Fábia Maia – Dia Lindo

“Dia Lindo” apresenta-se como uma balada ao piano sem grandes malabarismos. Com umas cordas muito ténues a acrescentar alguma cor à música, a canção de Fábia Maia é competente, mas com tendência a ficar perdida no meio do número considerável de baladas a concurso.

Há, ao longo de toda a canção, a sensação de que há um clímax que aí vem, mas que acaba por não chegar. E assim, “Dia Lindo” fica aquém, pela promessa que fica por cumprir e por acabar por ser uma balada inferior a outras na competição.

 

Sara Afonso – Contramão

“Contramão” leva, em primeiro lugar, o prémio de título mais adequado. Interpretada por Sara Afonso, a canção pauta por um otimismo subtil que torna a canção veranil. É um raio de sol num conjunto de canções particularmente cinzento, e que eleva a composição de Filipe Melo a um patamar superior.

Não há truques, nem facilitismos. Só uma boa canção que, sem exaltações, nos deixa com um sorriso na cara. Engraçado quando uma canção chamada “Contramão” vai numa das direções mais interessantes do concurso.

 

Valéria – Na Mais Profunda Saudade

É a canção que prova com toda a confiança e orgulho, que nem sempre a inovação é o único caminho certo. “Na Mais Profunda Saudade” é o fado “mais fado” a concurso, e a canção mais portuguesa e mais tradicional.

No entanto é na entrega irrepreensível, no instrumental emocionante e na intensidade global da canção que estão as forças supremas do tema da autoria de Helder Moutinho.

Uma canção que não tenta ser mais do que o que é, mas que é a melhor a cumprir aquilo a que se compromete.

 

IAN – Mundo

“Mundo” é a canção mais Eurovisiva das vinte. Parece ter sido feita já a pensar no concurso internacional, e não tanto no Festival da Canção. Com uma extensa paleta de cores e letra em português e inglês, preenche a checklist de todos os ingredientes para ser um sucesso.

No entanto, é deste aparente esforço em ser puramente eurovisivo que resulta uma proposta que agrada mais os sentidos do que o coração.

Não obstante, é uma aposta que se destaca pela diferença e pelo risco (o público português e o internacional tendem a discordar bastante) e que tem potencial para vingar lá fora, caso ultrapasse a exigência e o tradicional ceticismo lusitano.

 

IRMA – Livros

IRMA dá-nos um tema que flui irrepreensivelmente e nos leva pela mão. Sem grande risco e exagero, “Livros” faz dos seus limites os seus pontos mais positivos. Reconfortante, terno e apaziguador. Não voa muito alto, mas sabemos como às vezes é bom ver o chão por perto.

Uma proposta que flutua, mas nunca pousa. Numa primavera de três minutos, IRMA oferece um tema pequenino, mas não diminuto; frágil, mas não fraco. E é sempre bom ver algo tão natural a soar tão bem.

 

Joana Alegre – Joana do Mar

“Joana do Mar” é um grito de afirmação de uma artista em ascensão. Inegavelmente pessoal e a transbordar de vontade, a proposta de Joana Alegre acaba por ir pouco além da intenção e da promessa. A letra oscila entre os jogos de palavras oportunos e alguns versos menos bem conseguidos.

Um caso raro em que a canção se vai elevando ao longo do verso, mas que cai no refrão. Está tudo lá, mas, no final de contas, um tema que promete ser um tsunami resume-se a uma mera ondulação.

 

Graciela – A Vida Sem Acontecer

Os anos 80 prometem nunca passar de moda e a “A Vida Sem Acontecer” comprova-o mais uma vez. Mas a nostalgia não se sobrepõe ao presente e o tema interpretado por Graciela traz a década da new wave e da synth-pop para a atualidade, sempre de olhos postos no “amanhã”.

Como uma celebração do passado enquanto chão para um futuro risonho, “A Vida Sem Acontecer” acontece com a fluidez festiva dos fogos-de-artifício. E nós não temos alternativa a não ser fluir com ela.

Não será provavelmente uma candidata à vitória, mas será das que nos descola do sofá para dar um passinho de dança e esquecer, por três minutos, 2020.

 

Miguel Marôco – Girassol

Miguel Marôco apresenta, neste FdC 2021, uma proposta leve e fresca, com, infelizmente, poucas chances de vingar. Além da roupagem indie que a distingue dos seus pares, há pouco na canção que a torne memorável para além dos seus três minutos de duração.

A estrutura demasiado linear e a letra com uma métrica pouco inspirada tornam uma canção com potencial para se erguer entre as demais em apenas “mais uma”. E é desapontante que um “Girassol” nos seja apresentado assim já meio murcho.

EU.CLIDES – Volte-face

“Volte-Face” é uma composição ímpar num conjunto de canções tendencialmente homogéneo. Num registo que vai beber a raízes africanas,  a canção envolve-nos numa atmosfera cativante por soar estranha e distinta.

Há espaço para respirar, para observar e para apreender. No final da canção, sobram poucas certezas sobre o que aconteceu, e isso impulsiona-nos a voltar a ouvir. E é aqui que a canção se distingue e, simultaneamente, fica a perder.

Porque se, por um lado, nos leva a ouvir em várias doses e se vai entranhando, por outro lado, canções menos imediatas tendem a ficar pelo caminho no FdC. Porque uma grande parte do público apenas ouve as canções no dia em que são apresentadas ao vivo. E neste sentido, infelizmente, é bem provável que muita gente não regresse a este “Volte-face”.

 

Pedro Gonçalves – Não Vou Ficar

Pedro Gonçalves não é estreante no FdC, tendo participado anteriormente em 2017, edição vencida por Salvador Sobral. Em 2021, à semelhança da sua participação anterior, o cantor traz a proposta mais pop da competição.

O resultado é uma canção que oferece precisamente o que é esperado. Um instrumental com uns contornos eletrónicos mas orgânicos e uma linha de saxofone realmente notável.

Curiosamente, sem uma letra propriamente profunda ou uma performance vocal memorável, com visitas sucessivas, “Não Vou Ficar”, ironicamente, vai ficando cada vez mais no nosso ouvido. E ao final de contas, é uma guloseima pop muito bem produzida, e muito fácil de ser apreciada por qualquer tipo de público. Menos arriscado do que algumas propostas, mas bem distinto da maioria, pode muito bem ser um dos principais temas candidatos a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção deste ano.

 

mema. – Claro Como Água

“Claro Como Água” põe uma interrupção no longo desfile de baladas deste ano e carregada pela instrumentação eletrónica de Stereossauro e salienta-se como uma proposta original e moderna.

Mais semelhante ao que costumamos ver na Eurovisão do que a maioria das outras canções a concurso, com um staging que lhe fizesse justiça, a canção interpretada por mema. apresenta várias características que lhe dão possibilidades de singrar.

Sabe sempre bem uma lufada de futuro, num FdC tendenciosamente preso a sons do passado.

 

Tainá – Jasmim

Já se ouvem as críticas ao facto de termos uma canção em português do Brasil. Ponhamo-las em silêncio por uns segundos e aproveitemos a proposta primaveril de Tainá. Um triunfo lírico que vence pela simplicidade e pela doçura.

Com uma calma que desacelera mas nunca estagna, Jasmim embala-nos, mas não para nos fazer dormir. Um embalo para que aproveitemos o cheiro das flores que não existem e sentir o sol que não nos chega a casa.

São três minutos de uma fuga em que não se corre tanto quanto se caminha. Um lume brando que não cai na maldição na monotonia. Pouco menos de três minutos e o sorriso de Tainá é, de repente, o nosso. E isso concede a esta canção (ainda que não vencerá) uma magia que falta a tantas outras concorrentes.

 

The Black Mamba – Love is On My Side

“Love is On My Side” vale, sobretudo, pela voz distinta de Tatanka. O seu timbre inconfundível concede à proposta da sua banda, The Black Mamba, uma identidade respeitável. Além disto, ao contrário do que se esperaria, a canção acaba por ser, tristemente, apenas mais uma balada.

Contra as elevadas expectativas, a canção dos The Black Mamba acaba por não ser particularmente memorável, o que a torna desapontante, por vir de uma das bandas mais interessantes do panorama musical português.

 

Ariana – Mundo Melhor

A canção interpretada por Ariana traz uma mensagem de união e positivismo, que é sempre bem-vinda nos dias que correm. O instrumental dançável e a entrega vocal sublinham a canção como uma das mais prováveis candidatas à final do FdC.

A canção da autoria de Virgul sofre apenas pelo facto de estar bastante nos moldes de várias canções que pudemos ouvir no Festival de 2019.

No entanto, a ligeira falta de originalidade perde relevância, pela pertinência da mensagem que se transmite. E esta acaba por ser uma daquelas canções que, por ser tão necessária, ganha uma nova força.

 

Ana Tereza – Com Um Abraço

“Com Um Abraço”, canção da autoria de Viviane e interpretada por Ana Tereza, é uma das canções menos prováveis de chegar à final do FdC. Porque, se o conceito da canção em si é irrepreensível, na execução, tudo fica aquém. Os vocais são aceitáveis, mas não impressionantes. A letra é pertinente, mas algo óbvia. O instrumental é competente, mas só isso.

E a canção, não sendo má, peca por também não ser nada de extraordinário. Uma das canções mais medianas das 20 a concurso. E isso, não sendo mau, numa competição desta magnitude, não é de todo suficiente para vencer.

O Festival da Canção 2021 será transmitido na RTP1. As semifinais estão agendadas para dias 20 e 27 de Fevereiro, e a final terá lugar no dia 6 de Março. Pela primeira vez, o concurso não contará com plateia.