Crónica Cultura

Crónica: Contra-a-Cultura

Se se fizesse uma série sobre a relação entre o nosso Governo e a Cultura durante a pandemia da covid-19, seria um drama daqueles que dura tempo demais, mas para o qual não conseguimos deixar de olhar, de tão mau que é.

Depois de sermos fechados em casa por um vírus microscópico que nos derrotou tal como David a Golias e depois de arrumarmos a casa, a garagem e consertarmos aquela torneira a pingar, ficamos sem nada para fazer. Reféns do conforto do lar, decidimos, como de costume, agarrar-nos à ovelha negra preferida dos orçamentos de estado portugueses – a cultura.

Seguiram-se três meses recheados de filmes, de música e de livros. Ia-se também tornando óbvio que a Cultura seria, em tempos de guerra travada, precisamente, não se fazendo nada, a melhor arma para matar o tempo morto, o tédio e a depressão.

Por obra cósmica, escrevia-se a receita perfeita para que se abrissem os olhos aos governantes, conhecidos por empurrar a cultura para o final da fila das prioridades. Ainda para mais com a impossibilidade de haver espetáculos e festivais, seria expectável finalmente se previsse para a  Cultura uma percentagem razoável do Orçamento do Estado, certo? Errado. Este número revelar-se-ia digno de um sketch humorístico de mau gosto – 0,21%.

Confesso que, enquanto português que considera que a cultura do seu país é riquíssima e  subvalorizada, fiquei desapontado, mas longe de ficar surpreendido.

Lembremo-nos de que, durante o primeiro confinamento, o valor máximo de apoio a trabalhadores independentes por redução de atividade rondava os 220€. Perante a impossibilidade de exercer funções, os profissionais das artes receberam apoios de cerca de um terço do ordenado mínimo.

Mas vá, é imperativo tirar o chapéu ao Governo e saudar-lhe a coerência: se a cultura sempre ficou para trás, não há problema em ficar mais um ano. Até porque sim, durante a pandemia, viram-se uns filmes e ouviram-se uns álbuns. Mas daqui a uns meses já toda a gente se esqueceu disso.

E o trabalho dos profissionais da cultura nem é bem um trabalho a sério. Não é propriamente como se fosse preciso investir neles como se fossem gestores do Novo Banco ou alguma coisa do género.

Se pensarmos bem, 0,21% até é demais. Como se nota na recente onda de cancelamentos, provavelmente até é nos concertos ou nos teatros que o vírus se transmite mais rápido. Por irónico que seja, é como se a covid-19 gostasse mais de ver os nossos espetáculos do que a nossa Ministra da Cultura.

Por mim, pegávamos nestes 0,21% e dávamo-lo ao PCP. O coronavírus não gosta assim tanto dos comícios deles e assim, numa próxima pandemia, em vez de consumir cultura ficamos todos no sofá ao pé da lareira, a ver discursos do Álvaro Cunhal em HD ou a ouvir um DJ set do Jerónimo de Sousa.

Agora tenho de acabar esta crónica porque tenho ali uns discos para ouvir. Estrangeiros claro, porque lá fora eles consideram que 0,21% é um valor ridículo para algo de que usufruímos todos os dias, mesmo sem repararmos. Que parvos.