Crítica Cultura

Circo de Natal: com risco e um riso riscado

O Circo de Natal chegou na semana passada ao Coliseu do Porto pela 79ª vez. Além de já ser uma tradição que anuncia a época natalícia, é também um local com algumas das melhores artes circenses com as quais podemos ser presenteados. Ativa até ao dia 3 de janeiro, esta é uma arena que deslumbra com as suas intrigas e alegrias enfeitiçadas.

Qual é a coisa qual é ela que arrisca, e por isso petisca; é atemporal mas também natalícia; e tanto liberta risos como contorce barrigas de receio? Apesar de haver incontáveis outras curiosas hipóteses, por aqui ficamos só e unicamente com o Circo de Natal do Coliseu do Porto como resposta. Um circo que circula desde 1941 e que mantém a tradição até hoje, inclusivamente neste ano onde grande parte dos costumes ficaram guardados na gaveta de topo da cómoda.

Seria redutor categorizá-lo como um evento infantil, assim como injusto conceder-lhe uma mera anuição de agrado: é um circo com números estarrecedores que alinham o risco à fruição, todos minuciosamente trabalhados e aperfeiçoados. A edição deste ano contém ainda uma nova presença em palco a acompanhar sonoramente os vinte artistas, nomeadamente a Orquestra Circo Coliseu Porto Ageas.

É sob a direção do maestro Cesário Costa e com obras de Filipe Raposo que o espetáculo adquire a sua banda sonora. Porém, não é a orquestra quem define o ritmo dos artistas: com as suas mentes impreterivelmente às claras e muitos ensaios cumpridos, os artistas confiam sábia e fielmente nos seus corpos, assumindo o risco como parte da vida circense à qual se entregaram.

Nem as altas expectativas da plateia nem as esporádicas falhas na execução fragilizam a destreza e concentração dos artistas, sempre firmes e superiores aos suspenses sentidos.

O alinhamento do circo alarga-se aos mais variados números, desde ilusionismo, a parkour, a acrobacias aéreas, sendo que todos são interligados por meio das traquinices de Rui Paixão (o primeiro português a integrar o Cirque du Soleil como criador original) enquanto clown.

Imagem: José Coelho / LUSA

Aparentemente imortais, os cinco rapazes do Team Braga Parkour lançam-se em mortais e viravoltas de barras em blocos, do ar ao chão. Força e agilidade juntam-se numa coreografia tensa que deixa o público a agarrar o coração para que este não caia. A tensão mantém-se suspensa quando Rita Oliveira se entrelaça em tecidos no ar, assim como Douglas Melo se equilibra na corda bamba. Apelando à mitologia grega, este número associa guerreiro e princesa em acrobacias balançadas de cabeça para baixo e controladas pé ante pé.

A dança de Diana Niepce com o seu par é dos poucos números da noite que se desenrola maioritariamente no chão. Íntima e intensa, a coreografia cimenta uma anatomia humana desfigurada, onde os corpos deixam o seu peso esmoronar e passam a preencher cada vazio em particular, ao invés de estarem apenas a ocupar espaço.

Imagem: Lara Jacinto / Press Point

Seja pelo grande risco que atravessam, ou por serem dos mais vertiginosos, os trapezistas encantam verdadeiramente. As suas atuações envolvem um grau de exuberância admirável e é de louvar a confiança que é depositada, entre saltos, num só (e forte) braço: se no coletivo Laboratório alguém aparenta escorregar, é garantido que haverá um braço ou calcanhar a suportar o seu movimento. Também nesta categoria, foi com uma atuação individual que o portuense Daniel Seabra se estreou nesta arena pela primeira vez. Após uma performance de intensa concentração, o alívio que percorreu o rosto do portuense, quando este saiu do foco das luzes, foi um claro sinal do seu sucesso.

Contudo, não foi tanto a sensação de sucesso que foi vislumbrada, mas sim um aceso sorriso de pura satisfação e adoração pelo encantamento circense.

Imagem: Filipa Brito / Portal de Notícias do Porto

Quando uma mulher se esvai no ar e se transforma, de seguida, no homem que aparentemente não saíra do sítio, poucas palavras há para acompanhar as caras boquiabertas.  Tal qual o filme The Prestige, de Nolan, os números de ilusionismo de Andrély e Flavia Molina demonstram o quão tudo é frágil e relativo aos nossos olhos. Ainda que possamos ver para querer, “um querer para ver” já aqui não é aplicável. Desarmados contra a magia, só nos resta bater palmas.

Imagem: Filipa Brito / Portal de Notícias do Porto

Malabarista dotado, Danny Luftman é quem comanda os objetos que saem das suas mãos. E há um em específico com o qual alcançou (e ainda detém) a posição de recordista mundial do Guiness: o bumerangue.

No ar o número é cinco, no chão é zero – Danny é capaz de lançar cinco bumerangues de seguida e apanhá-los antes que toquem no solo.

Apesar de o seu voo aventureiro se dirigir ao público, cada bumerangue acabava sempre por retomar à mão que o lançara.

Imagem: Filipa Brito / Portal de Notícias do Porto

Circo não é circo sem palhaçadas nem saxofones amolecidos, e é para tal que existe a família Luftman, a qual já conta com mais de sete gerações na vida de circo. É nestes momentos de supostas risadas que se sente mais a falta da desenvoltura e gargalhadas das crianças (este ano menos presentes devido à redução da lotação causada pela covid-19).

No entanto, são os risos que se ouvem que deixam um importante e esperançoso sinal:  o mundo nunca deixa de ter encantos prontos a serem desembolsados.