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Lamento de uma América em Ruínas: O sistema dá nozes a quem tem dentes

Do livro "best seller" surge o filme para conferir cores mais concretas às ruínas que tantas casas furjam através das fachadas imaculadas.
Lamento de uma América em Ruínas é uma canção blues que nunca foi inventada mas que é, certamente, uma guitarra a gritar a dor de uma estória que não poupou os seus intervenientes.
A disparidade é o som cujo eco se perpetua de geração em geração. A que custo pode ser travada?
O refrão ou o eco têm um só pedido desesperado: ser olhado como igual perante quem é diferente.

J.D. Vance é uma rapaz nascido e criada em Ohio, no seio de uma família humilde e, também, complexa na sua estrutura.

A sua mãe, Bev, tem um problema com consumo de drogas o que a leva a ter acentuadas alterações humor, a negligenciar os filhos (J.D. e Lindsay), a ter contínuos relacionamentos amorosos fugazes e vazios, a mudar de casa com os filhos de forma pouco saudável e a perder, eventualmente, o seu emprego como enfermeira.

A sua personalidade volátil e, por vezes, agressiva, é observada pelos seus pais, avós de J.D, que se mantêm, durante toda vida, presentes e ativos no cuidado e na vigilância dos seus netos.

É de destacar, em especial, a avó, a quem J.D. chamava de Mawmaw, por ser o símbolo de uma matriarca disposta a fazer de tudo para que os netos não se afundem numa existência decadente, inútil e estagnada, como a maior parte das pessoas que os rodeavam.

A certa altura, quando percebe que o neto estava a escorregar na casca de banana que a própria mãe deitou ao chão, decide pegar nele para que fosse viver com ela. A partir desse momento, não faz menos do que motivar J.D. a ser um aluno de mérito, uma pessoa de trabalho, a ajudar na casa,  a estimular-se com cultura e a lutar por uma posição fora daquele mundo.

Como os recursos financeiros não eram muitos e esta não tinha ninguém para a ajudar no contributo para as despesas, Mawmaw alimentava-se de pouco para que nada faltasse ao neto. Quando este recebia uma boa nota, a avó sentava-se, longe dele e, com um sorriso lacrimejante, acenava com a cabeça como quem pensa “Ele está quase lá!”.

Uma vez, J.D. perguntou porque se importava ela tanto com ele, ao que a avó respondeu “Eu não viverei para sempre. Quando eu não estiver quem vai ajudar esta família?”. A sua missão era guiar a geração mais nova para um trilho diferente daquele onde todos tinham, até então, caído. Uma missão que a inspirou a continuar a viver!

Vemos depois J.D. adulto que, após uma passagem pelos fuzileiros, tira a licenciatura em Direito em Ohio e especializa-se em Yale, onde espera conseguir um estágio de verão. Enquanto estuda, mantém três empregos mas, ainda assim, não fosse a bolsa que lhe foi concedida, seria impossível pagar as exigentes propinas. O sacrifício, a resiliência e o foco caracterizam-no.

Contudo, para conseguir o precioso e determinante estágio, tem que estar presente em jantares formais e glamorosos onde se sente perdido e deslocado. Entre conversas constrangedoras e dificuldades em perceber que talheres usar primeiro, J.D. recebe uma chamada de Lindsay.

A sua mãe tivera uma overdose de heroína e ela pede que ele volte para ajudar na emergência familiar.

Nessa viagem de volta ao submundo da desilusão e do negrume, J.D. tem a dupla tarefa anímica de motivar a mãe a ser melhor, enquanto afaga a família em dor e de o fazer num período de tempo tal, que lhe seja possível chegar à entrevista, na manhã do dia seguinte, que iria decidir o seu percurso por aí em diante.

Entre memórias, traumas, sacrifícios e frustrações, o amor é o que canta mais alto e J.D. faz tudo o que pode para salvar a mãe da devassidão cíclica que a prende ao buraco da infelicidade. Num relance, visualiza a sua vida como estudante, até à data, e invoca uma bela imagem com Usha, sua namorada, que tem sido um apoio angelical desde então.

O contraste entre a ansiedade que era a sua prévia vida em Ohio e a luminosa partilha que era agora a sua realidade, fizeram-no perceber que não estava ao seu alcance poder salvar a mãe. Ele teria que fazer por merecer uma vida diferente e, tal como lhe ensinara a avó, tal só dependeria dele.

Esta é uma história verídica. Mas não será apenas uma.

A forma como uma criança cresce, exposta ao infortúnio, ao horror de ver uma mãe em decadência que tanto acorda com um sorriso como pode explodir numa vontade inexplicável de querer matar os filhos, é uma sina que molda os corações para sempre.

Nem toda a gente a quem toca esta realidade tem a sorte de ter uma pessoa que destoa da tempestade, que as puxe do remoinho hediondo e que as mantenha à superfície num equilíbrio entre o amor e a lucidez. Nesses casos, reproduzir o padrão é a única lengalenga que se tem como certa e segura.

De volta a esta estória, inúmeras vezes se refere que Bec tinha sido a segunda melhor aluna em quatrocentos, nos seus tempos de escola, e que se alguém lhe tivesse dando uma oportunidade, se tivessem olhado para ela como um potencial benefício para a sociedade ao invés de uma menina de um meio reles e de genes impuros, talvez esta não tivesse iniciado a consumir o que a frustração lhe ditava como remédio.

A falta de recursos, de nome pomposo, de história familiar importante, foram os dados que jogados sobre a mesa, fizeram da segunda  geração Vance (aliada a traumas na infância associados a violência) perdedora, sem direito a retaliação ou a desforra.

Quando J.D. entende o desafio que existe perante si, a única coisa que lhe resta é lutar por tudo aquilo que já devia pertencer à sua família mas que lhes foi negado como quem cospe para o que é indigno.

O sucesso exigiu reabrir feridas do passado, esquecer, por momentos, o que não pertencia ao presente e defender-se das lanças que surgiam de todas as direções. A sua experiência como fuzileiro poderia ter ajudado mas, esta batalha, era ainda mais sádica e sanguinária.

J.D. não partiu do mesmo solo de onde saudavam todos os outros respeitosamente. Foi preciso ter fibra no corpo e, isso, é algo que não se ensina. Estava nos seus genes!

As nossas raízes farão parte de quem somos para todo o sempre. E, por vezes, o ensejo de fuga é tão intrínseco ao sonho, que revestirmo-nos com pele de sobrevivente é o que basta para partirmos velozes, sem olhar para trás, em direção ao choque contra o preconceito.

Fernando Pessoa diria, como disse: “Um dos aspetos da desigualdade é a singularidade – isto é, não o ser este homem mais, neste ou naquele característico, que outros homens, mas o ser tão – somente diferente deles.”