Crítica Cultura

JUP Baú: Saturno, um crime sem absolvição

Há cultura que não morre nem se esquece, mas raras são essas obras que perduram no tempo e na memória da humanidade. “Saturno a devorar o seu filho”, de Goya, é, dentro desse leque, uma verdadeira exceção. O Deus tresloucado que devora o seu filho deixou uma grande marca cultural mundial, e tem mais parecenças com o Homem do que seria de esperar.

Ao longe: uma imagem triste, um corpo desmembrado, desfigurado, preenchido por um aglomerado de chamas criadas com o auxílio de uma pincelada agressiva. De perto: o olhar desconcertante, a íris escura como a noite, o cabelo cinzento sem forma, que balança ao sabor do vento e acompanha a velocidade trágica dos pensamentos loucos do monstro.

O monstro, porque deixou de ser Deus, deixou de ser pai, deixou de ser homem.

Foram longos os anos em que esta imagem morou sozinha no meu telemóvel, presa no ecrã. Até, muito recentemente, ter tido a possibilidade de conhecê-la ao vivo no Museu do Prado, em Madrid. Estonteante e bela, não me deslumbrou, nem chocou, mas deu-me aquilo que sempre procurei nela: Cronos, ou Saturno, Deus do Tempo, que devora o seu próprio filho, após saber que um dos seus filhos o irá derrotar.

“Saturno a devorar o seu filho”, de Goya

Contudo, Cronos não é só um Deus, ou uma mera figura na vasta obra de Goya. Cronos é homem. Ou melhor: Cronos é o Homem e, na sua crueldade, na sua mesquinhez, na sua prepotência, prepara-se para pôr termo a uma obra que ele próprio concebeu. Como consequência: deixa de o ser, os seus músculos definham-se, os olhos parecem explodir. Todo o seu ser parece estar prestes a extinguir-se, porque ele não repara que, ao matar o seu filho, está a matar parte de si.

Não seria de todo desoportuno citar Saramago, quando, na Jangada de Pedra, escreve: “se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque nasceste, desse crime ninguém te absolverá.”

Parece ser o destino trágico da humanidade a deixar-se guiar pela sua ganância e loucura – e acabar por ser a culpada pelo seu próprio fim.

Assim como Saturno (ou Cronos) não evitou a sua demência nem o ataque do seu filho (Júpiter) que o viria a matar, podemos nós evitar o nosso fim? Quem somos nós, enquanto seres destruidores da nossa própria espécie, para julgá-lo? Por outro lado, podemos nós, como ser conscientes, absolvê-lo?

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O JUP Baú é uma rúbrica que contraria a atualidade jornalística e lembra a arte e os artistas que temos de relembrar para não esquecer.