Cultura

Um casamento a três: Ricardo Reis, José Saramago e João Botelho

"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de João Botelho, eterniza no cinema as palavras fechadas numa das obras de maior visibilidade de José Saramago. Numa inteligente opção pelo preto e branco: não falta cor, dor, nem sabor.

A última adaptação ao cinema de João Botelho – O Ano da Morte de Ricardo Reis – estreou no primeiro dia de outubro nas salas nacionais e matou a sede aos cinéfilos que ansiavam o seu regresso desde o último filme, em 2017.

O cineasta, com a sua ávida experiência na compreensão da literatura portuguesa, arriscou contar esta história que já está há muito presente na memória dos leitores de Saramago, escritor falecido em 2010.

Fica assim, eternizado em grande tela, a união de facto entre três nomes sonantes no panorama artístico: Ricardo Reis, a criação; José Saramago, o criador; e João Botelho, o admirador de tudo isto.

É certo que esta intenção de contar histórias já contadas cria uma proximidade entre os entusiásticos destas figuras.

Com o devido distanciamento a ser respeitado, os olhos estavam todos juntos e colados ao ecrã do Cinema Trindade, no Porto, que pintou a preto e branco as experiências do heterónimo do poeta Fernando Pessoa, no seu regresso a Portugal.

Ricardo Reis, médico, depois de 17 anos a viver Brasil, regressa ao seu país de origem e, sozinho, tenta uma nova vida pelas tórridas chuvas numa Lisboa antiga. Estamos em 1936, numa Europa politicamente ao rubro, e com uma personagem amorosamente ao rubro também. Entre Lídia e Marcenda, num hotel requintado, o heterónimo sente-se sereno e, como é dito: vendo a vida à distância a que está.

João Botelho impressionou, como é corrente, nos planos fotográficos detalhadamente pensados, nos diálogos bem selecionados e, particularmente, nos silêncios.

Artigo da autoria de Raquel Batista