Crítica Cultura

For Four Walls + Rainforest + Sounddance: a união numa sessão à trois

O Teatro Rivoli, no Porto, foi o anfitrião de "For Four Walls + Rainforest + Sounddance”, um espetáculo da companhia CCN - Ballet de Lorraine, na sexta e sábado passados. A audiência portuense sabia claramente para o que se ia meter, pois o preenchido auditório já antevia o seu sucesso.

“For Four Walls + Rainforest + Sounddance” é um espetáculo representado pelo Ballet de Lorraine, a companhia francesa, e incorpora três peças de Merce Cunningham – a primeira é uma adaptação da sua peça de 1944 feita pelo diretor atual companhia, Petter Jacobsson, e Thomas Caley, mas as duas outras, “Rainforest” (1968) e “Sounddance” (1973), são peças integrais do coreógrafo.

Merce Cunningham (1919-2009) foi um artista americano de renome, que explorou, nos seus 70 anos de carreira, a sua criatividade em conjunto com um desejo de expansão das possibilidades artísticas. Além de ter sido um dos coreógrafos mais influentes do século passado, Cunningham era uma personalidade com dotes multifacetados, pelo que nos deixou um vasto legado na arte contemporânea e na música, assim como nas artes visuais e performativas.

Imagem: Teatro Municipal do Porto

“For Four Walls” é uma peça onde a sensação de espaço desaparece e dá lugar a uma imensidão ilusória, onde o enclausuramento proporcionado pelos espelhos existentes em palco amplia tudo e todos: um tronco passava a quatro, dois pés espetados passavam a oito.

Inicialmente circunscritos em linhas retas, os movimentos dos bailarinos sofreram uma expansão gradual ao longo da peça, tanto em amplitude corporal como espacial. Em estilo de um cânone, uns imitavam outros e aqueloutros juntavam-se com novas melodias dançantes. Ao som de John Cage, nomeadamente de uma peça para piano obscura (vindo de John Cage, este tom de mistério não surpreende) a ser tocada em palco, todos pareciam confluir numa rede confusa, mas obviamente planeada, de impulsos de tensão e distensão que cruzavam o clássico e o contemporâneo. Com pezinhos de lã e músculos ferozes como se de chumbo, homens e mulheres rodopiavam e pululavam livremente por entre o espaço. E, no entanto, todos sabiam onde estavam e para onde se deslocavam: ainda que indiscutivelmente bem ensaiado, é de louvar que não tenha havido nem um choque por lapso, durante todo o espetáculo.

Em “Rainforest”, a segunda peça, Cunningham teve a colaboração de Andy Warhol, o que pode ser corroborado pela presença dos robustos balões em formato de almofada que flutuavam em palco neste novo cenário – as silver clouds do artista. Nesta peça, assim como na última, David Tudor foi o responsável pela sonorização, com uma música eletrónica a dar para um conjunto de tinidos maquinizados. O flair da peça parecia apontar para um surrealismo “kubrickiano”, através, por exemplo, da deslocação morosa dos balões em jeito de slow motion, da dança robotizada dos seis bailarinos e dos sons lúdicos que musicalizavam o ambiente de “floresta”.

Imagem: Teatro Municipal do Porto

Numa combinação de fluxos animalescos e interligação entre os seis bailarinos, “Rainforest” dá corpo a uma peça com olhos de futurista que, simultaneamente, distorce a passagem do tempo. Em “Rainforest”, cada um tem a sua parte definida, até mesmo as almofadas flutuantes. Porque estas, ao invés de serem meros objetos a serem enxotados pelos dançarinos que se viam empanados na sua deslocação, acabavam por constituir verdadeiros elementos de interesse e curiosidade.

A última peça, “Sounddance”, parece ser fruto de um avanço na mudança engatada – a música é mais alta e mais sonoramente presente; o cenário mais virtuoso; as interações mais vivas. Com um pano de fundo doirado que ou expelia ou sugava os dançarinos, estes mexiam-se e interligavam-se dando aso a uma belíssima, e complexa, atuação de grupo.

A música de David Tudor, nesta peça, assumiu um caráter irritantemente prazeroso, já que enquanto um ouvido se contorcia, o outro embrenhava-se.

E aliado à música, a estipulação do timing assumiu uma relevância derradeira na peça: aquele segundo, aquele braço, aquele passo, aquela saída.

Imagem: Teatro Municipal do Porto

Com mais de 20 bailarinos no conjunto das três peças, há que valorizar o trabalho da companhia enquanto equipa, até mais do que a elegância e naturalidade de cada movimento individual, visto que alcançar este nível de consciência e confiança grupais é decerto tarefa árdua.

Se a regra geral para um bom espetáculo é estarrecer e levantar sorrisos no público, então “For Four Walls + Rainforest + Sounddance” cumpriu-a inegavelmente.