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Diogo Costa Leal: da lealdade à poesia em prol da elevação

Dos blogs à radio até às tertúlias livres, qualquer plataforma é digna para espalhar a poesia como uma boa nova que nos pode mudar por dentro. É isto que Diogo Costa Leal, licenciado em jornalismo e vocacionado em poesia, conta ao JUP.

Consideras que nasceste poeta e que te tornaste jornalista?

Nós nascemos pessoas, com uma certa ingenuidade e já nascemos criativos com certos aspetos predispostos. Depois, o contexto e a parte biológica, tudo isso nos influencia.

Considero que sou apaixonado pela palavra livre, daí considerar-me mais poeta do que jornalista. O jornalismo foi uma escolha profissional, académica, no sentido em que antes de entrar para a Universidade, como sempre tive esta atração pela palavra – porque mais do que uma ferramenta ela é um sentido – queria uma profissão que me permitisse usá-la para ganhar dinheiro. Escolhi então o jornalismo nesse seguimento: gosto de contar histórias, de reportagens e sou um consumidor da comunicação social.

Eu lembro-me de uma conversa que tive há uns anos atrás com o Manuel Jorge Marmelo sobre este assunto, ele escreve e está ligado à comunicação social, e usou uma expressão muito curiosa no sentido em que o jornalismo foi um ginásio para a escrita dele. Isto porque o jornalismo implica uma dose de objetividade e de regras que conferem músculo à escrita.

Contudo, onde me sinto eu próprio, onde a liberdade e o amor são mais levitados, libertos e autênticos, é na poesia, sem dúvida.

O que é que achas que a poesia ensina ao jornalismo?

Há um romancista que dizia que através da ficção ele conseguia contar a verdade sem necessitar de provas, ou seja, contava a sua verdade sem precisar de fontes.

Manel António Pina escrevia crónicas incríveis e a poesia deu ao seu jornalismo esse ar fresco, essa ingenuidade positiva, essa criança que todos trazemos e que às vezes temos medo de colocar cá para fora e acho que a poesia traz isso não só ao jornalismo, mas a tudo. A ética poética dá isso a tudo, a paixão, o espanto pelas coisas.

Um dos meus poetas preferidos, o Rilke, num dos seus textos dizia para nós não responsabilizarmos o real por não nos trazer criatividade, mas para nos responsabilizarmos a nós mesmos por não termos suficiente espanto para vermos as coisas fantásticas no real. E acho que é isso que a poesia traz ao jornalismo e à vida.

 Como surgiu a primeira oportunidade de trabalhar em rádio?

Eu nasci cá no Porto, mas vivi grande parte da minha vida no Algarve. Em 2011, estava a trabalhar e a estudar e já estava ligado à  poesia. Eu dava-me muito bem com poetas e dizedores de Faro e, na altura, a cidade tinha uma cena artística muito ativa especialmente na poesia e no teatro. Falei com um poeta porque queria criar um programa de rádio sobre poesia. Decidimos então criar esse programa e chamamos-lhe Eclético Azul. A ideia do programa era divulgar a poesia, ler poemas e entrevistar não só poetas, mas dizedores, teóricos e tudo o que tivesse a ver com poesia.

Foi muito interessante; era um programa em direto e recebíamos chamadas de pessoas para ler poemas, íamos para rua fazer vox pops e perguntávamos às pessoas o que era a poesia, o amor.  Houve dois programas sobre o surrealismo em que entrevistámos várias pessoas e ilustrámos as edições com música eletrónica.

Foi um programa que durou um ano e, entretanto, entrou outra pessoa para o projeto do Eclético Azul, que foi uma das minhas grandes referências a nível artístico e pessoal, o Joaquim Morgado. A partir daí começámos a fazer os dois o programa. O Joaquim foi uma grande influência para mim, porque as referências não são só as obras mas também as pessoas.

Foi uma experiência muito boa porque aí agucei o gosto de dizer poesia em voz alta. Não foi aí que começou, mas o facto de estar com o microfone, de saber que estou a chegar às pessoas e de fazer o que gosto, ainda aproximou mais a parte técnica (porque houve formações nesse sentido) à parte da paixão.

Qual a importância para ti de deslocar a palavra escrita para a partilha oral?

Se não fossem as tertúlias de poesia eu talvez não tivesse tido o deslumbramento e a atração incomensurável que tive pela poesia.

Eu lembro-me que tinha 17 anos e caí de paraquedas num bar em Faro. Era um lugar super acolhedor e o dono do espaço era também poeta. O bar tinha chá com álcool, pipocas picantes e xadrez, e como sabiam que eu gostava de jogar, levaram-me lá. Quando cheguei, deparei-me com uma tertúlia de poesia.

Foi através daí, ao ouvir poemas que tinha estado a ler internamente para mim, a ganhar uma nova vida, que se sucedeu um deslumbramento muito positivo.

É tão bom uma cidade como o Porto ter uma tradição vanguardista, temos tantas noites semanais de poesia. Conheço muitas pessoas que deste modo, através da parte oral, se aproximaram ainda mais da palavra, da poesia.

A poesia começou deste modo, à volta da lareira, se pensarmos em Homero, por exemplo. Se dissermos um poema em voz alta é como se ele saísse do papel e foi isso que me aproximou, talvez, derradeiramente da poesia. Claro que o interesse criativo pela palavra, pela escrita, é anterior, mas são depois certas experiências que nos cativam muito mais.

Gostava que a educação e a política em Portugal incentivassem mais a parte artística, criativa, porque o primeiro impacto com a poesia não pode ser dado às crianças como uma coisa tão pesada. Devíamos dar arte às crianças, desde a primária, como se tratasse de uma brincadeira. A criança, quando está com um brinquedo, está focada só naquilo e nós, na transmissão da parte educativa, deveríamos encarar a arte  também assim.

“Um poeta para con-versar” foi um projeto que serviu para dar um toque humano a criadores do divino?

Este foi um projeto com sessões presenciais onde se convidava um poeta ou uma poeta para falar da sua vida e obra, e ler poemas da sua autoria. As pessoas podiam participar com perguntas, comentários, por isso, também tinha esse lado de tertúlia. Houve sessões que também tiveram momentos musicais. Depois, todas as conversas eram transcritas e colocadas no site.

É uma maneira de eternizar a pessoa e, fundamentalmente, a sua obra, e de juntar o jornalismo à poesia.

Eu gosto muito de conversas vagarosas, de aprender com os outros, e criei esse projeto para conhecer mais as pessoas, divulgar o que elas fazem, sentir esse lado humano e partilhá-lo em conjunto. No entanto, os projetos que são de divulgação apenas de poemas, têm um valor também muito grande. Estes projetos de entrevistas advêm por nós sermos um dos países com mais poetas per capita e, por isso, nunca é demais sairmos do nosso “eu”, divulgarmos o que o “eu” e os outros fazem,  e crescer com isso.

O Manel Cruz dizia numa entrevista que “a originalidade, mais do que novidade, tem a ver com a verdade” e eu concordo muito com isso. E essa verdade é construída com todas as nossas influências experienciais.

Como se trabalha um verso de modo a que aquilo que nos invade por dentro seja passível de verter em palavras?

Há várias maneiras de escrever, cada pessoa tem também as suas manhas. Eu acho que há poemas muito instintivos, por exemplo, nos improvisos que costumo fazer em alguns projetos performativos e também nas tertúlias livres, os poemas vêm no momento. Mas o improviso também tem de ter trabalho, é necessário ter jogo de cintura para isso e é um processo de aprendizagem contínuo.

O processo criativo tem a parte instintiva que vem contigo ou é um transbordar de coisas que não consegues explicar e, depois, há poemas que são mais laboratoriais: vem-te um verso que será o último verso do poema, apontas e depois vais construindo num dia uma parte, depois noutro dia outra, depois apagas. Vais escrevendo e limando.

No fundo, é uma junção das duas coisas, há textos mais trabalhados e há textos mais instintivos, de rajada.

Considero-me uma pessoa agnóstica, tenho a minha espiritualidade mas também sou bastante térreo. Acredito na psicografia no sentido em que tu escreves uma coisa e depois vais reler e pode-te ensinar coisas que não te ensinou antes e ficas espantado. Mas não acredito na inspiração divina, não coloco esse pedestal no artista, o artista é um ser humano e todos somos poetas em potência e em expansão, mesmo quando não se escreve.

A Luísa Sobral disse numa entrevista “A inspiração há de vir quando eu estiver a trabalhar” e eu gosto muito desta expressão, ou seja, se estás à espera da inspiração para fazeres alguma coisa, então vais demorar muito mais tempo a fazê-la.

Temos que ir atrás das coisas e ser proativos, muito mais do que reativos.

Como é que foste moldando poeticamente ao longo da vida?

Eu saí do Porto em 2017 e regressei há quatro meses, foi das decisões mais importantes da minha vida porque percebo que o Porto é a minha casa não só criativamente, mas sobretudo relacional e energeticamente.

Ter esta conversa e não falar de certas pessoas que são fundamentais para mim, não seria a mesma coisa.

Como já falei, o Joaquim Morgado foi um mestre para mim na poesia em Faro. Ele já não está cá em Portugal, mas continuámos a ter contacto. Ele vivia perto de mim e fazíamos tertúlias com outros amigos. Ele tocava piano, pintava, dizia, escrevia. Tínhamos conversas até de manhã e ensinou-me mesmo muito.

Depois houve outra pessoa importante, o Luís Beirão, que é, para mim, um dos melhores dizedores de poesia deste país: a forma sentida, visceral como diz os poemas, como sente os poemas, a forma liberta como encara a poesia, o lado emocional e inteligente que ele tem, aquilo que me ensinou e transmitiu. Foi um outro mestre da arte de dizer poesia e de pensar poesia cá no Porto.

O Vítor Hugo Moreira é um amigo meu há mais de dez anos, nós vivemos juntos com mais um amigo nosso e ele foi uma influência gritante para mim. Nós chamávamos à casa une maison blue porque tinha um quadro surrealista da senhoria, que era artista também, e que tinha embutido essa frase.

Era uma autêntica residência artística, fazíamos exercícios de escrita, cadáveres esquisitos, cadáveres ressuscitados, dávamos palavras uns aos outros para escrever poemas, tínhamos conversas filosóficas até às tantas da noite, fazíamos jantaradas, por vezes até tínhamos a porta aberta e amigos de amigos entravam.

A nossa escrita a partir daí não foi a mesma porque bebemos todos uns dos outros.

O que é a Poesia à Nora?

O Vítor e eu frequentámos durante vários anos e até trabalhámos no Olimpo Bar, que foi uma grande escola de poesia. Desenvolvemos lá projetos como o Poemó’copo desde 2014 (engloba leitura, improvisação e música).

Quando o Vítor saiu do Olimpo, foi para a Casa Bô, ele queria começar umas noites de poesia livre e falou comigo. Eu na altura não aceitei porque devido ao contexto profissional e pessoal, não podia ter esse compromisso semanal. A vida dá muitas voltas e há pouco tempo, quando o Vítor estava a fazer sessões de poesia ao ar livre, em virtude da pandemia, voltámos a falar sobre essa ideia.

Chamámos ao projeto das tertúlias livres A Poesia à Nora, “nora” do nome de família, do nome da loucura benigna das coisas, no sentido de liberdade e “nora” do objeto que tira água dos poços profundos das coisas.

Acontece todas as quintas-feiras na Cachaçaria Macaúva, no Porto, na Rua Miguel Bombarda, nº 552, às nove e um quarto. A ideia é ser uma tertúlia livre de poemas lidos e improvisados. Além disso, colocámos também rubricas, algumas fixas e outras que surgirão em surpresa, uma delas é o “telepoema” onde convidámos as pessoas a escolher um contacto telefónico para o qual nós ligámos e lemos um poema; um outro é o “cadáver ressuscitado”, inspirado no “cadáver esquisito”, em que no final da sessão as pessoas abrem todas um livro e constrói-se um poema coletivo a partir da leitura aleatória desse livro, ou pode-se até improvisar o verso. Temos, também, sorteado livros para incentivar à leitura da poesia.

Ativo, digitalmente, no instagram, facebook e no seu blog, Diogo Costa Leal vai sempre preferir o contacto humano. No entanto, enquanto tal não é possível, agarra-se às palavras como se se agarrasse a pessoas.