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Afonso Paiva: a voz camaleónica da geração Z

Afonso Paiva, natural de Coimbra, convoca o humor como veículo próprio para as suas imitações. Este é, sem dúvida, um novo rosto a memorizar - já que a voz nunca é a mesma.

As imitações conduziram-te até ao humor?

Desde criança que gostava muito de fazer vozes, imitar desenhos animados e coisas que ia vendo na televisão. No secundário, eu já imitava duas ou três vozes e fiz uns vídeos (de apoio a uma lista para a Associação de Estudantes). Os vídeos foram muito bem recebidos no Facebook e a nível local, então comecei a olhar para as imitações como uma coisa mais a sério.

Durante a faculdade fui imitando alguns professores o que reforçou a ideia de que devia apostar nisto, mas só no fim do curso é que comecei a juntar as peças. Agora, sou um imitador, mas acho sou mais do que isso.

Sou humorista e tento não me prender só às imitações – apesar de ser aquilo que me dá alguma diferenciação e me permitiu ganhar espaço. 

Quanto tempo levas a preparar e executar um vídeo? 

Eu sou uma pessoa extremamente perfecionista e faz-me confusão ver coisas tortas, letras mal escolhidas e tamanhos não centrados. Não sou uma boa referência porque eu demoro muito tempo, não por ser uma pessoa lenta a trabalhar, mas por ter grau de exigência maior, as coisas não saem tão rápido como eu gostaria. Entre escrever, executar e editar, diria que demoro cerca de três ou quatro dias para fazer um vídeo de um minuto – se estiver sempre a trabalhar nisso. Gostava de melhorar esse ponto porque me absorve muito e me torna um pouco ridículo.

 A escrita dos teus próprios textos foi uma valência descoberta recentemente?

Sempre gostei de disciplinas ligadas às letras. Mas, como desenhava bem, segui o mundo das artes. Só depois de três anos em Design é que pensei: “eu não sei se sou assim tão artista quanto isso”, porque percebi que a minha arte estava por cima do humor.

A génese era o humor e a arte era só uma maneira de eu mostrar as minhas coisas cómicas.

Depois, no mestrado, fui para comunicação já com esse foco de recuperar as ferramentas da escrita que durante o curso estiveram mais apagadas. Sempre tive uma relação de amizade com a escrita e, no humor, tenho essa combinação da escrita e da entrega no palco – mas eu comecei com a escrita e sinto que sou melhor nesta vertente.

Fotografia: @cenasdoafonso

Que ferramentas importantes é que o curso de Design te deu?

Por ter feito Design geral, mais focado na comunicação, desenvolvi muitas competências a nível digital. Aprendi a editar vídeo, som e imagem, a tirar fotos e a ter a ter uma noção estética das coisas. Um dia, houve um professor que me disse: “todos os teus desenhos são cómicos”, então comecei a perceber o meu caminho.

Indiretamente, o curso deu-me espaço de explorar o humor e apercebi-me que mais do que um artista era humorista.

Como é o processo de aprender a imitar uma voz? 

Há uma parte que eu não sei explicar e outra que sei. Há uma fase, no início, em que eu percebo que há potencial para imitar essa voz. Depois, entro numa fase um pouco doentia em que aquela pessoa e aquela voz fazem parte da minha vida. Pego nos fones e ouço gravações durante o dia todo, em todas as tarefas em que posso fazê-lo.

Depois disso, entro uma fase que demora um tempo indeterminado. A técnica que eu tenho passa por ouvir a voz até conseguir imitá-la naquele registo, e só depois de conseguir imitar aquelas palavras é que vou evoluindo para o resto. Há uma parte do processo que é inerente, mas há outra que é muito treino e persistência. É tentativa-erro.

Fotografia: @cenasdoafonso

O que é que o humor representa no teu desenvolvimento pessoal?

O humor olha para as coisas e não pensa “como é?” mas sim “como é que isto podia ser?” – e eu também sempre pensei assim. Em miúdo era muito imaginativo, e se me dessem uma folha de papel e um lápis, eu entretinha-me sozinho. Mas, embora não fosse um miúdo introvertido,  sentia que, às vezes, não me estavam a compreender. Então, o humor surgiu como facilitador social e como espelho do que eu sou cá dentro.