Crítica Cultura

21ª Festa de Cinema Francês – Agente Haxe: a comédia de uma mulher triste

Em Agente Haxe, Jean Paul Salomé transforma habilmente uma tradutora da polícia numa traficante de droga. Nesta tarefa é auxiliado por uma elevada dose de comédia e a divinal Isabelle Huppert.

Agente Haxe, de Jean-Paul Salomé conta-nos a história de Patience Portefaux (Isabelle Huppert), uma mulher francesa, tradutora de árabe que descodifica conversas entre traficantes de droga para a polícia. Patience é viúva, tem duas filhas, vive sobrecarregada pelo trabalho, e vê-se sem dinheiro para pagar o lar da sua mãe. Contudo, tudo muda quando ela interceta uma conversa entre o filho da enfermeira da sua mãe e decide ajudá-lo a escapar à polícia. A partir daí o enredo desenrola-se com Patience a alternar entre o papel de herói, como ajudante da polícia, e o de vilã, como uma criminosa imparável.

O filme é uma comédia que nos mostra que a língua francesa tem um lugar prestigiado numa indústria predominantemente anglófona.

O ritmo do filme é ditado pela sua edição de som acutilante, habilmente fabricada, que leva à emersão do espetador no mundo das personagens. Através de estímulos sonoros leva-o também a aperceber-se dos períodos de menor ou maior tensão da longa-metragem. Todavia, não é só a qualidade de produção e a hábil realização de Salomé que imortalizam este filme, também o desempenho de Isabelle Huppert contribui para esse efeito.

Enquanto Patience deambula por Paris, às vezes como traficante de droga, outras como ajudante da polícia; Huppert confere-lhe sempre uma densidade dramática que uma personagem deste grau de complexidade requere. Patience, por vezes, comporta-se como uma mera caricatura, um desenho já conhecido de uma mulher triste com a vida que pretende libertar-se da sua condição deprimente. Contudo, Huppert dá vida ao desenho e liberta-o da sua bidimensionalidade, dá-lhe o desleixo de uma mulher comum, que, presa no labirinto monótono da sua vida, e de Paris, nunca perde as suas falhas e a sua essência humana.

Em suma, Agente Haxe, que inaugurou o 21ª Festival de Cinema Francês,  entrou no Rivoli como Paris entra na nossa alma: eletrizante, arrebatador, cómico, mas nunca deixando de ser elegante e sumptuoso, com o brilho e o carisma da cidade que leva ao peito.