Cultura

Curtas de Vila do Conde: irmãos Rapazote e a dialética família-individualismo

A 28º edição do festival internacional Curtas Vila do Conde decorre de 3 a 11 de outubro, e o JUP teve oportunidade de conversar com alguns dos realizadores da secção "Take One!" - ou seja, autores que ainda são alunos de cinema.

Os gémeos Rapazote, de 23 anos, naturais de Viseu, terminaram o curso de Cinema, na Escola Superior de Teatro e Cinema, com “Corte” – e não apenas realizaram, como escreveram e protagonizaram. A criação é única curta-metragem totalmente lusitana alguma vez nomeada pela Cinéfondation, secção do Festival de Cannes, e Afonso e Bernardo iniciam assim o trilhar de um percurso que já reluz a dourado.

“Nós queríamos criar uma história relativamente universal, por isso é que se passa no século XVIII e não no mundo moderno.” – afirmam os irmãos. Nesta história sobre o papel da família estar a ser apagado em detrimento do individualismo, os gémeos sublinham a “ligação ao que é realmente importante”.

Para além de realizadores, foram também argumentistas. Qual foi o mote para contar esta história?

Sempre quisemos fazer cinema e o mote foi termos de fazer um filme para o curso. Havia duas ideias centrais que nós queríamos trabalhar: o momento dramático quando um príncipe herdeiro morre, e os próximos na linhagem são um par de gémeos, e a separação imposta entre estas duas pessoas – que sempre viveram juntas e fizeram tudo como um só. Isto porque, a partir desse momento, a sociedade vai impõe uma distinção entre eles: um deles passará a ser o príncipe herdeiro e o outro será um príncipe como os outros.

Além disso, queríamos criar um ambiente que tivesse interesse temático para nós e um dos pontos base foi a ausência das figuras paternais, ou seja, as personagens estão largadas sob si próprias. Nesse sentido, a ideia era passar uma imagem de que, antes, no Palácio, se vivia de maneira muito unida e, agora, estão a atravessar uma fase de pensamento individualista, onde estão a surgir novos ideais de liberdade.

A fragilidade dos gémeos é retratada através da sua fisicalidade. A feminidade que emanam contrasta com a figura estereotipada de um rei dessa época. Porquê esta decisão? 

O filme situa-se numa altura em que o palácio não tem mulheres, mas há uma personagem, que cuida dos gémeos, que acredita que um mundo onde não existe uma mão de uma mulher é um mundo caótico e sem ordem. Portanto, ele criou-os com esse lado mais maternal e  incutiu-lhes esses valores que estavam em falta – é por isso que eles têm essa vertente mais feminina.

“A nossa ideia era que os gémeos tivessem uma certa inocência que as outras personagens não têm”

Todas as restantes personagens têm um comportamento muito mais dissimulado, falso, representado. Mas eles sempre se tiveram um ao outro e, entre si, não têm de fingir – porque agem como um só. A inocência vem também daí.

Os gémeos representados na “Corte” são a representação dos gémeos Rapazote?

Não. Muitos aspetos dos gémeos são baseados em nós – principalmente na parte de serem duas pessoas que agem como uma só e que, aos olhos da sociedade, estão sempre lado a lado, e quando pensam num pensam sempre no outro. Mas essa ideia que vai ter que haver uma divisão não é nada que tenha acontecido na nossa vida. Contudo, toda a gente sabe que na vida dos gémeos chega sempre o momento em que têm de se separar.

A opção pelos planos sempre abertos tem o intuito de permitir uma maior imersividade no espaço? 

Uma coisa que para nós e muito importante nas cenas de cinema é que haja uma relação muito direta entre as personagens e o espaço em que elas estão. Quando fazemos um plano aberto, com uma profundidade de campo em que conseguimos enquadrar todos, torna-se todo o drama mais interessante porque estamos a ver os intervenientes no mesmo espaço, e vemos como esses comportamentos estão ligados à ideia dramatúrgica da cena.

“Cada movimento tem a sua razão de ser e é através dessas coisas mais exteriores que conseguimos chegar à interioridade das personagens.”

Para além disso, o plano aberto foi uma opção interessante porque (sendo o filme uma espécie de mistério) se cria o desafio para que o espectador intervenha ativamente naquilo que está a ver – de modo a tirar um sentido próprio. Nos filmes é a montagem que nos dá a direção daquilo que vamos ver e hierarquiza as coisas por importância, enquanto que se tivermos com um plano aberto cabe ao espectador escolher aquilo que é importante ou não para ele ver. 

Na cena em que o médico analisa a causa da morte do príncipe herdeiro, ouve-se o “tic-tac” de um relógio, constantemente, o que aumenta de forma acentuada a tensão. Qual a importância destes estímulos sensoriais em segundo plano? 

O dever de um realizador é focar os detalhes mais pequenos e conseguir invocar num universo qualquer. O som do relógio surgiu para dar a ideia da passagem do tempo – porque o morto já não volta e os gémeos têm pouco tempo para estar juntos, por isso, devem aproveitar. Os detalhes dão uma carga emocional que, para o espectador, embora não seja consciente, vai ter um efeito sobre ele.

“Corte” está a ser distribuído pela Portugal Filme, que é uma agência portuguesa de cinema, e está agora nomeado pela Cinéfondation, que é uma secção competitiva do Festival de Cannes dedicada a filmes académicos de todo o mundo. Os gémeos Rapazote, quando souberam, ficaram “muito contentes” com a nomeação, e garantem continuar a criar. “No fundo era a melhor notícia possível, já que é festival mais acalmado nesta área”, e ainda agora terminaram o curso.