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To Kill a Mockingbird: um mundo a negro e branco

Maycomb County, Alabama, 1935. Jean Louise é a jovem protagonista de "To Kill a Mockingbird", e acordou numa altura denegrida pelo racismo e repartição preconceituosa. Este é um livro que aborda um tema pesado, mas no qual seguimos docemente atrelados pelas mãos de uma criança.

Das tantas obras que foram deixadas na nossa biblioteca planetária, das tantas que nos marcaram e continuam a marcar, a forma e o porquê de as categorizar em “clássicos” pode gerar perspetivas dúbias. No entanto, tal como muitas outras que já passaram além da Taprobana e ainda continuam a dar que falar, a obra “To Kill a Mockingbird” continua a ser reconhecida por exercer uma forte influência na evolução psicológica dos seus leitores, assim como por ser uma referência cultural utilizada em conversas intelectualóides.

Publicada em 1960 (e consagrada com o prémio Pulitzer em 1961), a obra de Harper Lee funde relevância histórica (por retratar os anos 30 e o auge do preconceito racial para com os negros) com qualidade literária e amadurecimento da psique típico de um bildungsroman.

Scout Finch, a sábia narradora autodiegética, relata-nos as suas andanças em Maycomb County, Alabama, onde viveu dos 6 aos 9 anos. Numa América onde negros e brancos são dois opostos e “quando é a palavra de um homem branco contra a de um homem negro, o homem branco ganha sempre. São feios, mas esses são os factos da vida.”

Enquanto Scout e o seu irmão mais velho, Jem, passam os tempos de escola a ansiar pelo verão e pelas suas traquinices com o compincha Dill, Atticus – o pai deles (que faz parte daqueles que “nasceram para fazer os nossos trabalhos desagradáveis por nós”), que é advogado de profissão, aceita um caso no qual tem de defender um negro acusado de violar uma rapariga branca, entrando numa luta pelos direitos de igualdade num mundo onde é em vão ter esperança.

O desenrolar deste caso (e da história) cativam, no entanto, a perspetiva infantil de Scout esfuma o traço político, suavizando a carga da História.

Audaz e maria-rapaz de natureza, a narradora roda entre um “eu” que, na verdade, se chama Jean Louise, e um outro “eu” de alcunha Scout. E enquanto o segundo está entranhado, o primeiro ela estranha. Jean Louise gosta demasiado de artimanhas e de rebolar no interior de pneus para se imaginar uma lady no futuro – embora, por outro lado, olhe com admiração para a força e desenvoltura das mulheres. Nas suas palavras: “ao observá-la, comecei a pensar que havia alguma habilidade envolvida em ser uma rapariga.”

Por seu turno, a sua figura masculina é Atticus, que é um pai ponderado, sábio, “cheio de peculiaridades” e que toma Jem e Scout por pessoas e não somente por crianças, o que significa que os dois crescem a identificar problemas criticamente e a pensar por si próprios. É por isso que a inocência expedita de Scout é tão crucial no encarar dos problemas, levando a que seja preciso “uma criança de oito anos de idade para os trazer à razão” e para os fazer pensar na possibilidade e necessidade de “uma força policial de crianças”.

A criança, com muitas crianças e adultos dentro de si, é a prova que, por vezes, escalar árvores compensa mais do que escalar o tom de voz.

A casa dos Finch ergue-se através da noção de que as pessoas não são iguais, mas que merecem igualdade. Por outras palavras: “há uma instituição humana que faz o pobre ser igual a um Rockefeller, o estúpido igual a um Einstein, e o ignorante igual a um qualquer presidente universitário. Essa instituição, cavalheiros, é um tribunal.” E mesmo que, ao longo de toda narrativa, seja possível pressentir o rumo do acusado Tom Robinson, o leitor fica na expectativa de uma rutura da mentalidade coletiva. (O leitor fica nessa expectativa, até 2020.) Porque um discurso assertivo, emotivo e calmo decerto que tem boas possibilidades de alcançar cliques em cérebros – inclusive, em 2020.

Mas se um clique não é fácil, é de ressalvar que todos os “baby steps” são cruciais para que um dia se consiga convergir o negro e o branco do mundo numa única tonalidade colorida.

Quando sair de casa se torna algo assustador porque não se quer ver o que está lá fora, é sempre bom ter uma mão para agarrar – ainda mais se esta pertence a uma criança inteligente e desapegada de mesquinhices adultas. Scout é esta criança; e a sua inocência – que, à semelhança de um mockingbird (cotovia), apenas canta para o nosso agrado – leva-a a concluir que a necessidade de superioridade humana é dispensável.

Diz um dos ensinamentos: “eu penso que só há um tipo de gente: gente.” Mas vivemos hoje cem anos depois do tempo narrado por Scout e parece haver ainda mais categorias que nos repartem. Esquecemo-nos que somos todos, hoje e desde sempre, apenas e somente, folks.