Cultura Opinião

Canções do Pós-Guerra: a meio da batalha pandémica, Samuel Úria sai da trincheira

Fresco e preparado para a realidade, “Canções do Pós-Guerra” é o novo álbum de Samuel Úria, e está disponível nas lojas e nas plataformas digitais.

Com atraso, devido ao ano de calamidade, mas sempre a tempo, Samuel Úria surge com novo álbum, e parece ter previsto a guerra que vivemos – o Covid-19. Com um título premonitório, o artista de 41 anos, natural de Tondela, vem cutucar a nossa consciência através da sua mais recente obra: “Canções do Pós-Guerra”.

Desde o álbum Carga de Ombro, em 2016, e do EP Marcha Atroz, dois anos depois, que Samuel Úria não nos presenteava com músicas novas. Em novembro do ano passado mostrou que estava vivo – a trabalhara e a criar – quando a deu a conhecer o Single “Fica Aquém”, que integra agora o seu novo álbum, Canções do Pós-Guerra, juntamente com o Single “Muro”, revelado em meados de agosto deste ano, e outras sete faixas.

A data de lançamento estava prevista para abril, mas a pandemia só queria música do “Pós” no “pós”. Infelizmente não foi um pós-pandemia, mas foi um pós-40 anos – visto que a 18 de setembro, dia de estreia do álbum, Úria completou 41 anos.

Apenas com alguns arranjos do produtor, a parte instrumental/musical é da sua autoria, assim como as letras e a voz, exceto na segunda faixa, “Cedo”, em que requisitou uma dupla – Catarina Falcão, de nome artístico Monday.

As nove músicas, que somam 32 minutos de som, estão escritas de forma magistral e, logo que nos surpreendem os ouvidos, murmuram poesias de inquietação, analíticas perante os fracassos, mas esperançosas pelo pós-moderno. É certo, como em todas as composições poéticas, a validade de diversas interpretações. Contudo, parece ser claro o tom pouco otimista desta lírica de Úria.

Ouvimos, recostados nos nossos sofás. E todas as indignações do artista acontecem à nossa volta, sem sequer empenharmos um contributo nosso, mínimo que seja. 

Toda esta apatia parece preocupar o músico – que nos aperta o ego, e nos atira à cara o passar do tempo, finito para nós. Porém, como não há trevas sem luz, nem guerra sem paz, ou mesmo verdade sem mentira, sobra espaço para umas borrifadelas de sol e de crença no futuro, com o compromisso de não sermos o ontem.

Quanto ao género musical, não é rock nem folk, é Samuel Úria, como de resto é hábito. Cadência bem marcada e com mistura de vários tipos de sons, e com guitarras acústica e elétrica. Em “Cedo”, a voz da colaboração soa doce e terna, o que resulta numa fusão que nos leva a viajar.

O sentido da audição não se mostra suficiente para o seu disfrute total, por isso “Canções do Pós-Guerra” teve direito a um vídeo para cada música – um conceito simples, filmado por ruas de Lisboa.

O projeto foi uma produção de Vachier & Associados Lda, com realização e edição de Joana Linda, assistência de realização de Manuel Dordio, e maquilhagem de Sara Marques de Oliveira. Quanto ao álbum: Miguel Ferreira produziu e, com a ajuda de Mário Barreiros, que também masterizou no MB Estúdio, misturou. Foi gravado no Groove Wood Studio (Vila Nova de Gaia) e no Estúdio Valentim de Carvalho (Paço de Arcos) por Nelson Carvalho e João Mendes e no Estúdio Vale de Lobos por Nuno Simões.

Canções do Pós-Guerra é um som, marcadamente, deste ano.

Está disponível nas lojas habituais, e pode ouvir-se nas plataformas de música. Pode ainda assistir-se aos concertos da sua apresentação no Teatro Tivoli BBVA (6 de Outubro, Lisboa), na Casa da Música (7 de Outubro, Porto) ou no Teatro Diogo Bernardes (24 de Outubro, Ponte de Lima).