Cultura

A.N.T.Í.G.O.N.A.: uma mulher antiga nos dias de hoje

Os clássicos são clássicos precisamente porque permanecem sempre atuais. Prova disso é "Antígona", de Sófocles, que foi (valentemente) resgatada por Gonçalo Amorim, que confrontou a personagem clássica com as Antígonas dos dias de hoje.

A.N.T.Í.G.O.N.A. esteve em cena no Teatro Carlos Alberto, de 16 a 19 de setembro. A peça, dirigida por Gonçalo Amorim, segue um grupo de ativistas, composto maioritariamente por mulheres, que planeiam acabar com as desigualdades sociais do mundo.

Antígona é uma personagem de Sófocles, e tornou-se um símbolo de resistência contra o poder, uma vez que, na sua narrativa, se recusa a cumprir o édito que a proíbe de enterrar o seu irmão.  Ela fá-lo à mesma – e como o poder da literatura fala alto e origina vida, assumiu-se Antígona, eternamente, como uma heroína da causa feminista. No entanto, o seu nome também é o acrónimo de uma organização de rebeldes e o nome escolhido pelo grupo para assinar as obras de artes que cada membro cria.

O Teatro Experimental do Porto resgatou um clássico e moldou-o à fôrma que a atualidade pede. A.N.T.Í.G.O.N.A. coloca os membros do grupo a partilhar não apenas um nome sonante e memorável, como as histórias e os sentimentos de uma mulher, na nossa sociedade, enquanto ser político, artístico, e criativo.

Sem esquecer que tão importante como “ser mulher”, é tudo aquilo que já foi e pode vir a ser “ser mulher” 

Até as memórias são compartilhadas, e nunca verdadeiramente individuais. Sejam memórias familiares ou de experiências amorosas, o grupo de ativistas não guarda nada para si, e reflete-se num só, o que reforça tanto a intimidade entre os membros, como a similaridade da vivência feminina.

A.N.T.Í.G.O.N.A é uma revolução em palco, num mundo em constantes revoluções.

A peça é uma comédia surreal, que combina vários elementos do quotidiano, transformados pelo fantástico, através de uma perspetiva futurista e anárquica da nossa contemporaneidade, sempre marcada por um tom satírico. Todavia, o resultado final é sobretudo uma obra de arte. Como diria Duchamp, é: “um murro no estômago”. No fundo, A.N.T.Í.G.O.N.A., para além de ser uma grande mulher, que representa grandes mulheres e um grande e ativo grupo, é um valente murro no estômago.