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O Burguês Fidalgo: a primeira Dentada pós-covid

Depois de cinco meses de cortinas fechadas, o teatro (o teatro a sério, com o palco e os aplausos) voltou. "O Burguês Fidalgo" abre a temporada do Teatro Nacional São João e, se não fosse o uso de máscara obrigatório, a gargalhada constante ainda podia dar problemas.

Com todo o cuidado e respeito que o vírus merece, o Teatro Carlos Alberto saciou a sede teatral. O Burguês Fidalgo está em cena até 23 de agosto e, embora os lugares distanciados desnudem a sala, as sessões estão quase todas lotadas. E não menos merecia Ricardo Alves e o seu arrebitado elenco.

A peça foi escrita há quatro séculos, mas dá uma bofetada de mão firme em 2020. E se o sonho deste coletivo (que, até então, se singularizou pelas criações e textos próprios) era fazer Molière, então o sonho de Molière era também, certamente, ser desmontado pelos Palmilha Dentada.

O preconceito para com os textos clássicos é, para muito público, evidente. Mas o dramaturgo e encenador esclarece que “dizer aquilo que Molière queria dizer não é necessariamente dizer aquilo que ele disse”. Por isso – como não podia deixar de ser (porque ser Palminha é ir dando Dentadas) assumem que não apresentam O Burguês Fidalgo (prosadamente codificado desde 1670), mas antes um clássico-contemporâneo, criado e adaptado às distâncias, a partir de O Burguês Fidalgo.

No fim: ficou a crítica e dobrou-se o humor, ficou o principal e inventou-se o necessário.

A história apresenta-nos Jordão, um ingénuo e esforçado homem que, a todo o custo, ambiciona integrar a fidalguia. Algures entre um fio narrativo que mantém o texto seiscentista e suas típicas peripécias de comédia de enganos – com mentiras e paixões, exageros e disparates – há 2020, no seu estado mais puro.

Não há beijos nem abraços (o que dificulta os finais felizes), nem há personagem que não tenha uma bisnaguita de álcool na manga. Todos enclausurados numa arena quase circense – que lembra um parque infantil para adultos, ou seja, no fundo, lembra a vida normal – balançaram o estilo e a cautela e proporcionaram uma abertura de temporada memorável.

E se faz sentido recuperar Molière hoje, séculos mais tarde, e num ano tão atípico? Faz tanto sentido como estar cinco meses sem poder ir ao teatro. Foi preciso. 

Ricardo Alves julga Molière tão louco como se julga a si, e não teve pudor em mudar-lhe palavras, frases, sentidos, cortar-lhe cenas, atos e personagens. Ele sabia que Molière o perdoaria. E, perante tal obra de arte criativa e divertida, realmente não há outra opção. O malabarismo dramaturgico interrompe a história de Molière para pensar e criticar as personagens de Molière, para valorizar o papel das artes e dos artistas, para agredir os machismos, para gritar o papel e singularidade da mulher, e para rir de si próprio e do que a falta de orçamento obriga a fazer. A magia teatral deste Molière de Ricardo Alves era tão precisa que deu espaço a ativismo em cena – com direito a aplausos não só no fim, mas também a meio.

“Seria ótimo que toda a gente fosse tola como eu”, confessa Jordão, num dos seus momentos parvamente sábios. Mas a verdade é que, os dias de hoje, dispensam tolos como Jordão, tolas como Eufrázia, e tolos criados por Molière. Os dias de hoje precisam de tolos adaptados aos dias de hoje. No fundo, os dias de hoje precisam de tolos como os Palmilha Dentada. Tolos que se prendem numa redoma e nos mostram que continuamos tão ou mais tolos que num passado distante.