Cultura

Douro Sessions: silêncio que o Douro também canta

O Douro tornou-se o pano de fundo para uma tarde de domingo soalheira e musical, e o músico portuense, Rui David, veio dar som ao dia mais preguiçoso da semana.

Estamos em pleno Verão, mas os festivais foram cancelados, são poucos os palcos montados e há menos atuações ao vivo. O calor chegou-nos com um travo atípico mas a arte não deixou de fervilhar e, por isso, foi com alegria e entusiasmo que os portuenses receberam a boa nova de que todos os domingos há música ao vivo, vinho e aperitivos num terraço especial.

Rui David dispõe da parte mais arejada da sua casa, com uma lotação máxima de 20 lugares, para que, talentosos músicos ecoem consigo numa sessão intimista e convidativa, num terraço com uma vista privilegiada para o Douro. Nas palavras do artista: “os domingos sempre foram o meu dia de eleição. E esta foi a resposta pós-confinamento a um ritual que já tem 17 ou 18 anos e que foi brutalmente interrompido em março, com o início da pandemia.” 

O artista estava habituado a dar concertos semanais – primeiro no Real Feytoria, depois no Cinema Batalha, mais tarde no Splashback e, por fim, no La Bohème, onde duravam há cerca de 10 anos. Com a pandemia e a paragem forçada, sentiu que a consistência do seu trabalho estava a ser posta à prova, mas aproveitou para maturar ideias: “chegou o Covid, e logo a 15 de março inaugurei o La Bohème Em Casa, em live stremings por Facebook.”

“Para mim era  uma alegria enorme saber que estavam 200 pessoas em simultâneo a ouvir-me. Que escolheram ouvir-me, em vez de estarem a ouvir as notícias do Covid, ou a ver qualquer série na Netflix.”

Com o desconfinamento como palavra do dia, a abrir telejornais e a fechar as portas da solidão, tornou-se claro para o músico que era possível mudar o óculo pelo qual o público o via e ouvia, e as sessões por Facebook terminaram em meados de junho. “Até que chegou o bom tempo e um certo desanuviar da situação pandémica. Embora ainda não fosse possível reunir-nos nos bares e salas de concerto, como antigamente, ocorreu-me que tinha as condições e os meios necessários para fazer [estes] concertos intimistas”

“Assim que se lançou a ideia publicamente, choveram propostas de músicos a querer tocar nas Douro Sessions.”

A vontade dos músicos se apresentarem ao vivo era evidente e, do outro lado da equação, a adesão do público foi positiva, e as sessões têm estado praticamente todas esgotadas: “isto mostra que as pessoas têm saudades dos eventos ao vivo, que são momentos insubstituíveis. As live streamings não substituem isto.”

O público beneficia de uma tarde tão interativa quanto contemplativa e, por momentos, os problemas do mundo são esquecidos. “Temos o apoio da Quinta do Portal – que, desde cedo, se associou à ideia fornecendo o vinho – e preparamos uns petiscos simpáticos. Em contrapartida, pedimos às pessoas uma ‘multa’ para participar do evento, e isso serve para cobrir despesas e pagar aos músicos.”

As Douro Sessions conseguem balançar o informal e o paradisíaco, o caseiro e a intensidade, e vêm dar um novo canto de ritmo à cidade. A contribuição mínima é de 10 € e o valor total recolhido reverte na totalidade para o artista e possíveis músicos acompanhantes. É de referir que todas as semanas há um artista diferente que é anunciado nas redes sociais do evento.

“Uma coisa é certa: têm por companhia a sempre deslumbrante e surpreendente vista do pôr do sol na ribeira.”