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Tiago Paiva: desta vez num date às claras

Tiago Paiva começou a trilhar o seu próprio caminho aos 21 anos quando fez nascer, para si, uma oportunidade de trabalho. Sete anos depois, a RTP materializou o sonho e, passados três anos desde a série que refletiu uma geração, o jornal NiT viu o seu potencial e decidiu dar a Tiago um espaço de liberdade. Optou por mesclar conversa, boa comida, e figuras públicas e culminou em encontros filmados, sem a câmara a atrapalhar.

O gosto pela arte surgiu logo aliado à representação, ou foi aparecendo aos poucos?

Eu sou uma pessoa de ideias fixas e, desde miúdo, queria ser ator. Desde que comecei a ver televisão, ou a ir ao cinema, que dizia “eu quero fazer isto”. Desde miúdo que gosto desta área, e não tenho problema de ter o foco em mim ou de ser o centro das atenções… é a minha praia. Também toquei violino, durante sete anos, pelo país todo e pelo mundo fora. Já toquei para 40.000 pessoas, ou seja, estar em palco, estar a fazer uma performance, ou estar a interagir com pessoais é aquilo que eu mais gosto.

As conversas informais, no “Blind Date”, surgiram como uma uma necessidade de contares histórias de outro modo?

O diretor do NiT convidou-me para uma entrevista na rádio, e depois perguntou-me se não queria ter uma rubrica nesse mesmo espaço . Entretanto tive a ideia do “Blind Date”, mas o projeto só poderia ser concretizado se fosse audiovisual – e assim começou. Fizemos cinco episódios, em modo de experiência, para ver se resultava bem.

“Já estou a negociar uma segunda temporada com 10 episódios e bons convidados também.”

Mas a premissa para este formato surgiu porque tenho muitos amigos que são figuras públicas, e vejo que há sempre uma preocupação exagerada de não serem elas próprias numa série de situações… Mas se forem eles próprios de uma forma habitual, a imprensa vai deixar de ligar, precisamente por ser algo normal. Eu quis criar esse mundo: o mundo em que eu não mudo porque tenho uma câmara à frente.

“Estes encontros mostram as pessoas que são conhecidas a mostrarem-se como elas próprias são e não como a pessoa-que-diz-que-é perante as câmaras.”

O Porto continua a ser uma cidade difícil para um ator fazer carreira, ou as circunstâncias mudaram, e a necessidade de ir para a capital reduziu? 

Nada mudou em relação a isso. Estando um ator no Porto a probabilidade de ser sem-abrigo é muito grande.

Como se iniciou o teu percurso em Lisboa?

Quando tinha 21 anos fui viver para Lisboa para estudar interpretação. Já estava a ganhar bom dinheiro com o violino, então desisti de arquitetura e fui para lá para tentar ter workshops e cursos. Comecei a aperceber-me que afinal não havia assim tantos castings, e os que havia eram muito internos – por isso não tinha conhecimento deles. E, ao descobrir que aquela realidade era muito puxada, pensei em criar a minha própria oportunidade.

Que oportunidade foi essa?

Inspirei-me no filme do Matt Damon e do Ben Affleck “O Bom Rebelde” – porque eles escreveram o argumento, interpretaram as próprias personagens, ganharam Óscares nesse mesmo ano, e nunca mais pararam. Então, escrevi um argumento para uma série, para que eu fosse um dos protagonistas, e criei a minha oportunidade.

“Toda a gente me chamou maluco por estar, com 21 anos, a escrever uma série para a televisão. Mas a série foi feita e não paro de receber mensagens para uma segunda temporada.”

[A série “4play” foi gravada no Porto, com atores maioritariamente da cidade.]

Para ti é mais importante estimular a criatividade e tentar capturar as ideias quando surgem ou ter disciplina para que o processo criativo seja mais mecânico?

Eu estou a andar na rua, vêm-me ideias à cabeça, eu vou ao telemóvel e registo nas notas. Gosto de fazer brain storming mas, normalmente, os meus projetos surgem sem que eu estivesse a pensar neles.

“Não é todos os dias, mas quase de forma diária vêm-me à cabeça mil ideias. O que eu faço é acolhê-las… não tenho nenhum método.”

Isso tenho que agradecer ao meu cérebro, que me dá essas coisas boas mas, no fundo, também me dá coisas más. Sofro de ansiedade e da dor de pensar, de que fala Fernando Pessoa. Mas aprendi a controlar esses pensamentos negativos e focar-me nos pensamentos positivos.

 O que falta no Porto para ser um centro pujante de mais cultura e postos de trabalho neste ramo?

O Porto é uma cidade cultural fantástica mas o que sustenta a maioria dos atores do Porto, a nível económico, são as dobragens. Os trabalhos escasseiam e não são bem pagos, mas há que pagar contas. A questão não é o que falta no Porto, porque nada falta no Porto, o Porto tem tudo o que é necessário. O que falta é haver uma descapitalização na área da cultura e as coisas deixarem de ser todas em Lisboa. As coisas que há neste ramo são em Lisboa, no Porto não há absolutamente nada… e entre nada e alguma coisa, a capital ganha.