Cultura JUP Radar

JUP Radar: Tiago Lopes e a lente que transforma as cores do mundo

Tiago tem 23 anos e ouviu, numa fase de emoções caladas, o grito da arte. Rendeu-se pela captação da realidade através da fotografia e, através de registos que retratam vários mundos e gentes, o espectador imerge nos cenários onde há pessoas que falam, lugares sensíveis ao vento, cores incertas pelo sol. Ao JUP, o artista mostra que há vida em movimento.

A arte, por si só, engloba múltiplos ângulos e mensagens, mesmo que o criador não tenha tido essa pretensão. Contudo, pode-se sempre verificar a visão daquele cria e a visão daquele que assiste. Na fotografia, adiciona-se o fator de ter uma câmara intermédia. Sentes a fusão destas três entidades, na criação? 

Sim, pelo menos de duas, certamente: quem cria e quem percepciona. Que a terceira entidade seja o meio… talvez pela influência que terá na forma de comunicação e relação entre as duas entidades anteriores.

A relação entre quem cria e quem percepciona é sem dúvida transversal a qualquer arte. 

Um clique é um gesto fugaz e imediato. Mas a fotografia requer, por vezes, uma procura exaustiva pelo melhor ângulo, pelas melhores condições externas, ou até por um golpe de sorte. Dá-te mais gozo o processo ou o resultado? 

A sorte é uma percentagem quase nula na criação da arte em geral. Mesmo no caso da fotografia de rua, onde os momentos são mais instantâneos, não há sorte sem que o fotógrafo esteja preparado para, primeiro, a percepcionar e, depois, a captar. Sinto que antes valorizava mais o resultado do que o processo e não gostava de ter essa sensação ao voltar para casa. À medida que fui ganhando mais confiança naquilo que faço, fui aproveitando e vivendo melhor o processo.

É costume teres a sensação que a perceção que tiveste não coincide com a visão da fotografia? 

Mais nas fotografias que vejo de outros fotógrafos. Nas minhas nem tanto, porque enquanto pessoa que esteve presente nos momentos e sítios que fotografei, tenho a percepção do todo que não foi enquadrado na fotografia. Sempre que se fotografa, a perspetiva e personalidade do autor está implícita, pelo menos no que ele escolhe enquadrar. Por exemplo, da primeira vez que vi os ghats do Rio Ganges, na Índia, recebi uma quantidade tão grande de informação visual que, quando lá voltei, foi difícil conseguir fotografar de um ponto de vista próprio e não me sentir forçado a fotografar o mesmo que já tinha visto.

Também cantas. A fotografia permitiu-te juntar uma nova voz à que já tens?

Sim, sem dúvida. A fotografia fez-me descobrir outra forma de me expressar para além da música. Fez-me explorar aspetos diferentes da minha personalidade e de ver o mundo. Na música, olho mais para dentro, e na fotografia mais para fora.

Estou a chegar a um ponto em que sinto que, através da fotografia, consigo olhar para dentro também.

De que forma é que uma imagem estanque pode contar uma história em movimento?

Isso é explicar a essência da fotografia. Numa imagem podem caber várias histórias, claro. E podem ser contadas de forma mais literal, ou através de uma abordagem mais subjetiva e poética. A fotografia conta, para além da história do que é retratado – através da maneira como é retratada a pessoa, o objeto ou o lugar – a história de quem o retratou, e do porquê de o ter feito.

Preferes pensar que uma fotografia da tua autoria eterniza um momento irrepetível ou basta ter servido a tua necessidade de comunicar, naquele momento?

Ambas as situações podem ser igualmente reconfortantes. Claro que, se estiver a cobrir um evento histórico e a fotografia mais icónica desse acontecimento calhar de ser minha, é um privilégio gigante ter captado a imagem em que toda a gente vai pensar quando se falar desse acontecimento. No entanto, fotografar um momento que apenas eu tive o privilégio de testemunhar é igualmente recompensador. E é isso que me dá o impulso para fazer uma fotografia.

Quando te apetece fotografar, sentes-te sempre inspirado por aquilo que te rodeia?

À partida, quando vou fotografar é por já estar inspirado.

Quando fotografo, muitas vezes ouço música para acentuar o estado de espírito em que estou. Outras vezes prefiro ouvir os sons à minha volta – por vezes, gravá-los –  e falar com as pessoas, seja ou não para as fotografar.

Se tivesses a liberdade de escolher qualquer lugar e quaisquer protagonistas para fotografar, o que escolherias?

Esta resposta variaria dependendo dos dias… mas, neste momento, tenho uma vontade muito grande de fotografar a América Latina.

O que é a que arte da fotografia te deu, sem pedir nada em troca?

A fotografia fez-me auto-descobrir numa fase da minha vida em que me sentia um pouco perdido. Deu-me a capacidade de interpretar o mundo de uma forma mais poética. E dá-me a garantia de que tenho as minhas memórias bem guardadas.