Cultura Opinião

O Bicho mexe-se, mexendo

Dois meses depois do primeiro "Como É Que O Bicho Mexe?", 170 mil pessoas despediram-se do universo feliz e seguro que Bruno Nogueira criou, em plena pandemia. Resta saber, então, o que se faz agora, depois das 23h.

Hoje seria dia de Bruno. Hoje, amanhã, e todos os dias até sexta, até ser segunda, outra vez. Se hoje não é dia de Bruno, então é porque o bicho começou a mexer-se daqui para fora, e a normalidade espreita. Então, seguindo uma lógica básica, deveríamos ficar felizes por já não haver Bruno. Mas não ficamos. Não ficamos, porque foi bom demais, e queremos mais.

“Como É Que O Bicho Mexe?” começou por ser “apenas” um copo de vinho, de final de dia, e culminou numa bebedeira de grupo descomunal – das boas. Independentemente de como correra o dia do espectador anónimo do outro lado, Bruno Nogueira quase fazia crer que estava tudo bem. Mesmo depois de uma generalizada rotina de tele-caos, o humorista conseguia parar-nos e fazer-nos rir.

E rir, em pleno fim do mundo, conta como gargalhar.

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As coisas simples passam a ter um eco diferente nestes tempos confusos. Comecei há uns dias a fazer emissões em directo no meu Instagram. Para manter a minha própria sanidade mental, para exercitar o improviso, para não me acomodar, e para alimentar a vontade de estar com outros. Para não ser bicho da conta. Depois de tudo feito e arrumado, com a casa exausta de ver acontecer mais um dia, bebo um copo de vinho com amigos, à (difícil de suportar) distância possível neste momento. As mensagens que recebo no fim já me comoveram e já me fizeram rir. O raio do bicho faz isto: torna-nos mais iguais que nunca e fica tudo em carne viva. Enfermeiros e médicos que estão na linha da frente, pessoas com problemas de ansiedade que se multiplicam nos dias que correm, outros que perderam familiares, e outros tantos com doenças que ganham novo peso agora. Quase todos com saudades de abraçar. Então, enganamos a sorte e juntamo-nos ali, e por momentos tudo fica menos difuso e até parece que está tudo mais perto. E está mesmo. Não sei quanto tempo mais irei aguentar o ritmo diário (é possível que passe a ser menos vezes por semana, e às 22h) mas quero que saibam que também a mim me faz bem estar convosco. Vai correr tudo bem, um dia de cada vez. Aguentem firmes, não cedam. Estamos todos juntos nisto de estarmos longe. Obrigado a todos os que vão passando pelo directo, mas em especial (e que me perdoem os outros) ao Markl e ao Filipe Melo, pela nossa bonita amizade que se multiplica em coisas boas. E já sabem: enquanto der, às 23h, vamos fazendo as pazes com o mundo. E damos de beber ao que está por vir.

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Em conjunto com Nuno Markl, Filipe Melo, João Manzarra, Salvador Martinha, Beatriz Gosta, Nuno Lopes, João Quadros, Bumba na Fofinha, Albano Jerónimo, entre várias outras personalidades, Bruno Nogueira montou todo um universo paralelo, com uma história tão estupidamente cativante como uma novela, mas com a qualidade e credibilidade da realidade.

Do desporto à cozinha, da juventude à idade que já devia estar a dormir à uma da madrugada, o artista juntou uma série de caras conhecidas, discutiu o presente, lembrou o passado, repensou o futuro, tal qual uma comum conversa de amigos, e aparvalhou muito. Os dias ganharam uma sequência e uma consequência, mas a surpresa e o inesperado permaneceram como a cicatriz identitária do Bicho.

O Bicho foi, inegavelmente, o bom, desta época em que o bicho mau parecia vencer.

Nuno Markl fez arrebitar uma rádio do Pólo Norte, Nuno Lopes apresentou a magia dos brinquedos sexuais, João Manzarra pregou uma partida que, por um triz, não virou moda. Albano Jerónimo pôs os géneros de lado e Vhils cravou – no dia dos cravos – o eterno Zeca numa parede. No fim da noite, o piano de Pipão fechava a madrugada. Mas e hoje? Que bicho nos vai morder antes de ir dormir?

Bruno Nogueira não fez apenas arte, nem se limitou a dar continuidade à cultura. Ele fez ativismo, fez política e fez uma revolução. E se o artista quis celebrar o Natal a 15 de maio, restava ao país ir, em peso, à garagem, buscar luzes, bolas e até presépios personalizados com a sua cara. E a verdade é que o país foi.

Como é que se agradece a alguém que evitou que ficássemos malucos?

O Bicho mordeu 170 mil pessoas. O Bicho conseguiu ser maior do que qualquer evento artístico ou cultural, seja de que área for, sem perder a efemeridade e a intensidade que os caracteriza. O Bicho entrou pelos pequenos ecrãs do telemóvel e, de repente, estava a arranjar-se forma de o projetar na maior e mais lisa parede de casa.

“Foi o melhor Natal de sempre”, “és a prova que o sucesso ainda não foi contado”, “há coisas que transcendem as obras primas” – estes são alguns dos comentários emotivos, na live final. “Vão para dentro. Vai ficar tudo bem.”, repetiu Bruno, uma série de dias, como se de um beijinho de boa noite se tratasse. Agora que podemos começar a ir lá fora, ainda não se sabe se vai ficar tudo bem. Mas uma coisa é certa: coisas muito boas podem ser feitas lá dentro. E vai ficar tudo bem enquanto tivermos Brunos.