Cultura Opinião

Brother: Festival DDD à frente do nariz

Na quarta-feira passada, Dia Mundial da Dança, entre os inúmeros espetáculos que foram transmitidos via online ao longo do dia, “Brother”, de Marco da Silva Ferreira, foi transmitido, em direto, às 21h na página de Facebook do Teatro Municipal do Porto. Mas, na verdade, só para fãs: tanto pode ter sido fenomenal como uma dose de apunhaladas no nosso conforto caseiro.

Em tempos de pandemia, também a dança perde vida com a falta de recursos humanos. Assim, o Dia Mundial da Dança, normalmente celebrado no âmbito do Festival DDD, no Porto, teve de estar confinado às plataformas digitais. Ver um espetáculo online é toda uma experiência muito controversa, quer pela inevitável desconexão com a atmosfera física, quer pelo facto de ser a gravação a decidir os planos visuais e os focos experienciados pelo espectador, ou ainda pela ausência de contacto direto com as opiniões e as considerações (a todo o minuto).

Sem grandes esforços, durante a visualização de “Brother”, ficámos a saber que Tiago Guedes, diretor do Teatro Municipal do Porto, ficou muito agradecido à atividade da instituição, que mais de duzentas pessoas se ligaram ao espetáculo e que a reação geral foi positiva.

Não cessavam de ascender coraçõezinhos pelo ecrã acima.

“Brother” foi estreado em janeiro de 2017, no âmbito do 85º Aniversário do Teatro Rivoli, no Porto e, posteriormente, reintroduzido na terceira edição do Festival DDD, em abril de 2018, no Auditório Municipal de Gaia. Marco da Silva Ferreira é intérprete profissional desde 2008 e realiza trabalhos coreográficos intimamente associados à dança contemporânea. Depois de “HU(R)MANO” (2014), “Brother” segue-se igualmente como criação para um grupo de intérpretes, desta vez para seis.

A composição é delineada por uma dinâmica de repetições e transições de corpos atrás de corpos, ao som de batidas mecanizadas que evocam – tal qual um daqueles jogos de computador antigos, onde só se passava do nível doze, após infinitas tentativas frustrantes.

As seis figuras em palco desenvolveram uma noção de máquina ritualizada, cujas fragilidades se transformam em poderes e as particularidades imergem na construção grupal.

De uma perspetiva mais anatómica, os joelhos e os cotovelos assumiram uma liderança na coreografia, uma vez que estes eram tanto fontes de impulso como pontos de âncora. Ironicamente, a coreografia aparentou materializar uma máquina animal executada por humanos e alimentada por sucessões robotizadas, posições e acessórios animalescos, sons guturais e olhares desafiadores. Também a evolução no vestuário desencadeava mudanças. Os intérpretes passaram de vestimentas descaracterizadas, para inexistentes e culminaram em fatos carnavalescos.

Incontornavelmente confuso e impercetível, “Brother” encarna o limbo entre o desconcerto e a inovação, entre a insanidade e a libertinagem.

Como tal, é um espetáculo que só apela a quem verdadeiramente o aprecia, pois, caso contrário, é meramente perturbador. Mas, muito provavelmente, este tipo de criação não existe para agradar a um público, mas sim para traduzir uma liberdade de ser, expressar e consagrar a irracionalidade.

Se geralmente os espetáculos são uma fonte de inspiração, este é um dos casos onde é necessário haver uma inspiração prévia. Senão, há o risco de ser percecionado como uma conjunção de movimentos sem nexo, perdidos no tempo.