Cultura

Desescritas de abril

Implementada na Constituição de 1933, a censura foi uma das armas que mais trabalhou durante o regime do Estado Novo. Maria Velho da Costa, escritora e pensadora, que, até à revolução dos cravos, tinha vivido sob o jugo do fascismo, foi uma das vozes mais ativas na luta contra o “lápis azul”. Mas, contornando a norma, utilizou o corte, no seu sentido literal, como um ato de desafio.

1973. Ano em que, em Portugal, se realizaram as últimas eleições legislativas durante a vigência da Constituição de 1933. Pelo povo aumentavam as tensões. As pessoas, que já há muito tempo tinham aberto os olhos, começavam agora a abrir, cada vez mais, a boca.

Por mais que o regime do Estado Novo os tentasse abafar, erguiam-se do fumo os atos de denúncia. Estes eram levados tanto internacionalmente (como se verificou, na Eurovisão, com o tema “Touradas”, de Fernando Tordo), como dentro do próprio país (com a criação da oposição de esquerda organizada, com vários partidos comunistas e socialistas).

1973. O ano anterior à data mais significativa da história contemporânea de Portugal. A escritora Maria Velho da Costa abre o texto “Ova Ortografia”, da sua obra Desescrita, com ironia.

“ecidi escrever cortado; poupo assim o rabalho a quem me orta”

Previamente vítima de censura e de um processo jurídico aberto pelo regime – contra a obra “Novas Cartas Portuguesas” (1972), co-escrita com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno – Velho da Costa não cedeu, nunca.

Sentindo na pele o corte da sua mensagem pelo infame “lápis azul”, decide tomar, ela própria, a iniciativa de cortar os grafemas das suas palavras e de se censurar a si própria, numa ação de revolta. Numa ação que se diferenciou de toda a luta feita até ali. O caráter extremamente explícito desta frase e de todo o texto, contrariava o esforço feito frequentemente, implícito em símbolos, até à revolução. E é aí que reside a sua importância.

A simbologia cultural da revolução dos cravos foi concebida, não só através de uma subversão da norma, mas como, e principalmente, pela mensagem ambígua e não incriminatória.

Maria Velho da Costa opera de forma inusual. De forma revolucionária dentro da própria revolução. Exprime, de um modo mais claro, o seu profundo descontentamento. Não se limita a fitar as injustiças. Não semeia símbolos e alegorias. Aponta. E acusa firmemente.

E continua: “A issão do scritor é dar testemunho e efrigério aos omentos raves da istória, ao erviço dos ideais e da sua omunidade; ervir a oz do povo, espeitar a voz dos overnantes egítimos”

No texto “Ova Ortografia”, a autora não denuncia somente a censura na arte. Menciona, também, os que sofreram e os que deram as suas vidas por uma causa abjeta: a guerra colonial. Remete para quem perdeu membros do corpo e da alma, num combate grosseiro e sem propósito.

E continua: “Outros jovens me eguirão o rilho. Odos não eremos emais para ervir na etaguarda, os que em árias frentes, por nós se mputam”.

A mutilação do pensamento e a mutilação dos corpos eram realidades diárias para quem vivia na cúpula vil deste regime. A escritora não tem nunca como intenção dar descrédito a quem lutou (passiva ou ativamente) e que, por consequência, perdeu a vida, por exemplo, pelas mãos da PIDE. Nem, de forma alguma, a alguém partiu sem antes ver os seus objetivos cumpridos. Até porque todos os que se opuseram ao regime, abriram as portas para a revolução. Mas certo é que a coragem de Maria Velho da Costa para, tão explicitamente, fazer sentir o seu descontentamento é, ainda hoje, notável.

Falamos de uma mulher que levantava a voz contra um regime opressivo e discriminatório. Regime esse que, com as constantes tentativas para a silenciar, apenas a fazia falar mais alto e para um público mais amplo: “Esta é a minha enúncia ública”. 

Os acontecimentos do dia 25 de abril de 1974 não foram um ponto isolado, um vulcão que entrou em erupção sem aviso. A história da nossa democracia foi construída, bloco a bloco, por todos os que se opuseram, de todas as frentes, ao regime do Estado Novo. E, ainda hoje, há batalhas por findar. A luta é todos os dias e não apenas em abril.

Neste 25 de abril, não podendo tomar as ruas, mas libertemos o pensamento com toda a criatividade possível. Homenageemos quem, no passado, estava preso. Não nas suas casas, mas nas suas mentes. Quem não podia sonhar ou tentar alcançar mais do que o que lhe era permitido. Homenageemos não só os 46 anos posteriores à revolução dos cravos, mas também os 41 anos de resistência, dentro da vigência do regime e, ainda, os 45 anos de independência dos países africanos que se libertaram das correntes do antigo colonizador.

Neste 25 de abril, e sempre, continuemos a reivindicar e a superar juntos as injustiças comuns.