Cultura Opinião

Se a Casa fosse real e não fosse de Papel

Portugal vai passar o feriado revolucionário em casa. Ainda que o cravo (feito de papel) salte na janela e a Grândola ecoe no interior, este vai ser um 25 de abril mais murcho. Felizmente, os Dalís estiveram a preparar-nos para a próxima revolução.

A quarta temporada de “La Casa de Papel” regressou em abril e, pelo menos para os portugueses, não pode ter sido uma mera coincidência. Foi, manifestamente, um piscar de olho – no mês da liberdade.

Agora que já passou o histerismo de antecipação e o período crítico pós-estreia, em que comentar é tabu – porque os mais lentos podem ainda não ter chegado ao fim – é altura de ativar o Plano “Precisamos De Conversar”.

É importante saber distinguir a realidade da ficção.

A série espanhola é um fenómeno mundial. Tanto é que, para além das quatro temporadas, lançou um documentário sobre o seu próprio impacto e sucesso. Mas não como um ato de vaidade, de todo. Apenas de verdade.

“La Casa de Papel” conquistou do mais rebelde ao mais tímido e converteu até aqueles que não estavam acostumados a consumir conteúdos ditos “violentos”. A verdade é que é uma missão difícil e quase ilógica não gostar destes bandidos e não apoiar, ofegantemente, a resistência.

Porque eles, criminosos, explicam o porquê do crime. E nós, não só entendemos, como consentimos.

A série tem tudo o que nos faz gostar de uma série, de forma bem balanceada. Da ação, ao romantismo, da boa música, aos bons atores, e por aí adiante. Mas a pergunta valiosa é: porque é que esta série entrou pela realidade dentro?

Muitas são as séries que são temas de conversa, muitas são as séries que influenciam a nossa maneira de vestir e de falar, muitas são as séries que nos tiram várias noites de sono. Muitas são as séries memoráveis! Mas “La Casa de Papel” não só aglutina todos estes méritos como nos faz agir. (Escrever para um jornal, por exemplo.)

Não deixa de ser ficção, pura e dura. Mas também é um cenário de guerra e um abanão no sistema. Um grito por atenção e igualdade. E isso já não é tão ficção assim. Ou não deveria ser.

Este sábado celebram-se 46 anos desde o fim da ditadura. 46 anos que uma música ditou o término da censura. 46 anos que o poder do povo fez frente ao poder de quem manda. 46 anos que a recusa e a ocupação deram frutos. 46 anos que se matou a tristeza com munições de pétalas vermelhas.

Para quem nasceu e cresceu em democracia, este feriado tende a ser apenas mais um dia. O que é perfeitamente compreensível. É apenas mais um dia em não precisam de estar calados nem aprisionados, tal como nunca precisaram.

Curiosamente, este ano estamos todos censurados. Não de falar, mas de sair.

Mas talvez, este ano, quando estivermos todos a ver os documentários que todos os anos são transmitidos na televisão (e todos os anos são igualmente arrepiantes) consigamos pensar: quando acabarmos de celebrar a revolução passada, podemos começar a planear a nova? Até sábado ainda há muito tempo de listar tudo o que nos faz comichão.

O mundo não vai ser igual depois disto. Pessoas morreram. Empresas pararam. Serviços colapsaram. A cultura que nos tem salvo deste tédio, não tem sequer previsão de voltar ao ativo. O ensino teima em priorizar a avaliação em detrimento da aprendizagem, e nem todos os estudantes aceitam isso. A política caiu em si, pela primeira vez, e percebeu que as batas brancas e os caixa de supermercado têm, esses sim, mãos de poder.

O sistema, todo ele assente em frágil papel, precisa de ser questionado, repensado, modificado. Isso ou, depois de uma crise de saúde caótica, vamos mandatoriamente afundar-nos numa crise séria, a todos os outros níveis, a começar pelo social. Porque não estamos todos no mesmo barco. Perder uma moeda, de forma geral, não é perder a carteira. Mas, para alguns, é – porque é tudo o que lá têm.

Quase parece um plano do Professor, a série sair neste timing.

Há vontade real de sair à rua e de reclamar. Mas é importante vincar que a série não é um documentário, não é real. Aqueles Dalís são personagens e aqueles assaltos não aconteceram – por mais mediaticamente fascinante que isso fosse.

À semelhança da rebelião inevitável que nos trinca no fim de Joker, “La Casa de Papel” eleva o dinheiro ao expoente máximo da loucura. Prova que o papel move mundos, o papel esconde segredos e o papel não pode estar nas mãos de quem não o sabe ter. Mas esse papel, que é o dinheiro, faz tudo menos máscaras de Dalís. Essas feitas de papel normal. E essas valem muito mais. Valem uma revolução sem retorno, como a dos cravos.