Cultura

O(S) DIA(S) DO JUÍZO

O Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, abriu portas à peça “O Dia do Juízo”. O espetáculo estreou na quinta-feira, com a última apresentação no domingo. Encenada por Cristina Carvalhal, a peça interliga a projeção de vídeo e a interpretação, numa harmonia feroz de sensações.

Um drama que vai desde o momento mais cómico à sobriedade e frieza da morte. A peça de Odon von Horváth conta muito mais do que a história de um acidente ferroviário.

“O Dia do Juízo” é interpretado por Carlos Malvarez, Cucha Carvalheiro, Eduardo Frazão, Ivo Alexandre, Júlia Valente, Manuela Couto, Paulo Pinto, Pedro Lacerda, e conta ainda com a participação em vídeo de Gracinda Nave, Isac Graça e Sara Carinhas.

A peça é uma coprodução Causas Comuns, São Luiz Teatro Municipal e Teatro Nacional São João e estreou no São Luiz, em Lisboa, no dia 10 de outubro do ano anterior.

O escritor e dramaturgo Ödön von Horváth é conhecido pela frase com a qual descreve as suas obras:

“Em todas as minhas peças tentei afrontar impiedosamente a estupidez e a mentira”.

“O Dia do Juízo” não é exceção.

Escrita no período de ascensão do nazismo, a peça retrata uma a época “em que as pessoas começam a ser divididas entre as que devem ficar e as que devem ser eliminadas” – o que, segundo a encenadora, expõe a dificuldade de escolhas perante uma situação de sobrevivência.

A simplicidade dos diálogos permite aproximar o público desta realidade. De tal forma emaranhado, quebra-se a quarta parede quando uma personagem do mundo dos mortos aponta um foco de luz ao público. O desconforto da luz nos olhos de quem assiste, assemelha-se ao desconforto que só a morte consegue trazer.

O acidente ferroviário, causado por uma distração do responsável e atento Chefe de Estação, desenrola um imprevisto triângulo “amoroso”. A narrativa adensa e mergulha-se num clima de tensão e verdades, onde se torna difícil distinguir o culpado do inocente. A presença do mundo fantástico, no final, remete para uma materialização do espaço mental dos atores, com o objetivo de quebrar o realismo. Mas o derradeiro espaço da ação é a mente das personagens, onde se desenrolam conflitos éticos e onde “a verdade e a mentira se confundem”.

Com vídeo de Pedro Filipe Marques, luz de José Álvaro Correia, cenografia e figurinos de Ana Limpinho e Maria João Castelo e música de Sérgio Delgado, todos os elementos contribuíram para a construção de um palco que foge ao comum. Em relação ao recurso ao vídeo, a encenadora sublinha que é “uma forma de espelhar o tempo em que vivemos”, tempo esse onde existe excesso de informação, manipulação da mesma e simultaneidade entre ações e expressão de opiniões radicais.

A relação entre o “real” e o que se passa em vídeo insere didascálias que complementam a dinâmica da peça e acrescentam valor simbólico ao ambiente envolvente. É ainda de destacar que a presença de um narrador via audiovisual promete “dar uma maior visibilidade a esses ecos literários que, por residirem em indicações cénicas, não seriam escutados”. Segundo vinca Cristina Carvalhal, o objetivo é trazer Horváth, enquanto escritor da obra, para palco.

Nenhuma personagem consegue a privacidade que um normal humano merece. Numa “cadeia interminável” do “diz que disse”, esta é uma história que se mantém atual e que deixa o público desconfortável, mesmo que apenas por breves momentos. Mas é este desconforto que transforma ” O Dia do Juízo” num alerta para a necessidade do ser humano ser responsabilizado pelas suas ações.

Recheada de frases e citações que conduzem à reflexão, o espetáculo termina com uma mensagem do Chefe da Estação:

“Não importa se somos culpados ou inocentes”.

Dito isto, fica a ecoar dias sem fim, no palco do Carlos Alberto e nas linhas d’O Dia do Juízo, a evidência que uma viagem interior supera qualquer justiça dos tribunais, popular ou divina.