Cultura

MDLSX: PAI, “EU NASCI ASSIM”

Ao fundir literatura premiada, livros seminais da teoria queer e experiências pessoais, MDLSX é um grito de liberdade e de naturalidade.

Não há arredondamentos possíveis. A performance caleidoscópica de Silvia Calderoni, encenada por Enrico Casagrande e Daniela Nicolò, da companhia italiana Motus, despertou a atenção da sala do Teatro Carlos Alberto, nos passados dias 14 e 15 de fevereiro e todos falaram, ouviram e entenderam a mesma linguagem.

Ali, em palco, ouviu-se, viu-se e sentiu-se.  Com mais ou menos roupa, mas sempre incrivelmente exposta, MDLSX é a história de um alguém que nasceu mulher mas, como muitas, não se identifica com nenhum corpo concebido pela sociedade.

O que deixa a pairar uma enorme interrogação: até que ponto um corpo é andrógino?

A par da atuação, enquanto a personagem aguarda e procura o seu próprio corpo, iam sendo projetados vídeos caseiros da infância de Silvia. É ainda de sublinhar o soberbo jogo de luzes, em vários momentos feito pela própria intérprete, e ainda a banda sonora, composta por The Smiths, Stromae, Placebo, Arcarde Fire, entre outras sonoridades que seguiam o compasso da alma que deu vida ao corpo.

Corpo esse que quis salvar o mundo – o seu mundo – mas que compreendeu que “as palavras não bastam” num mundo enraizado pela divisão. 

A luta pela compreensão do que é o ser humano, encheu o palco e a plateia do Teatro Carlos Alberto e, durante 80 minutos, procurou-se definições: transexual, eunuco, hermafrodita, monstro.

Há seres humanos que são vistos como monstros. Que sentem os olhos a observa-los como monstros. Que chegam a duvidar se o serão, de facto. Neste momento, ecoa a música dos Talking Heads – “Road to Nowhere”, que assenta que nem uma luva, que em todos os humanos cabem:

Would you like to come along

You can help me sing the song

And it’s all right, baby, it’s all right

They can tell you what to do

But they’ll make a fool of you

And it’s all right, baby, it’s all right

Artigo da autoria de Raquel Batista