Cultura

88º ANIVERSÁRIO DO RIVOLI: SHANTALA ESPIRALA A VIDA

Produzida por Aurélien Bory para a dançarina indiana Shantala Shivalingappa, aSH é uma peça que se erige a partir de cinzas, de ventos orientadores e de uma encantadora Shantala que ora os domina ora se deixa ser influenciada, numa dança da vida e da morte representadas através de uma espiral – como tal, de início e fim abertos.

A dar continuidade à celebração do 88º aniversário do Teatro Rivoli, o espetáculo pós-jantar sabatino foi incumbido à dupla Aurélien Bory e Shantala Shivalingappa. Acompanhada pelo percussionista Loïc Schild, Shantala avançou pelo palco durante uma hora e meia apoderada de uma linguagem muito própria, onde o contemporâneo se permeia nas linhagens indianas, tendo sido comunicada através de movimentos lentos e controlados. É sempre admirável como a postura e firmeza encarnadas podem alterar a forma como se perceciona o visível, tornando movimentos que, no íntimo, são ponderados e demorados, extremamente poderosos.

A dança de Shantala incorporou, por assim dizer, um “menu especial” da vida, temperado com muito espiritualismo. Como “café da manhã”, a dançarina desenhou uma introdução ao seu próprio espetáculo: enquanto ela desencantava movimentos fortes e serenos conforme uma “artista marcial”, o pano de fundo (literalmente, um pano de fundo) dançava, também, na retaguarda, impulsionado por ventos invisíveis (ora se aproximava dela, como um demónio que obscurece o ambiente, ora se afastava). Ela: impávida, a crescer.

Para a “refeição do meio do dia”, Shantala moveu-se por cima do pano, que outrora foi de fundo e agora servia como tapete, peneirando cinzas, às voltas, esboçando uma espiral. Espiral feita, a dançarina indiana começou a mutá-la, utilizando as cinzas como tinta e os pés como caneta. Apelando ao simbolismo da vida – uma linha contínua preenchida com os mais variados sabores, desenhou círculos apenas com o balanço do corpo, saltitando de intersecção em intersecção, formando uma espécie de rosácea, só que ainda mais perfeita do que a que é feita de compasso na mão, pelo facto de ser feita imperfeita. Ainda traçou formas menores a rodar o corpo: medindo a rotação com o balanço do braço, o movimento estacava no ângulo exato desejado. O “almoço” soube a rigorosidade no ponto com delicadeza de quem enfeitiça a dançar com a sua sombra.

Como “refeição vespertina”, tivemos a queda dramática a finalizar a vida: o pano subiu, as cinzas escorregaram e o desenho feito com todas as suas experiências vividas foi destruído. Para culminar, o pano desmoronou-se sobre a dançarina.

Porém, tal como depois de um dia vem outro dia, também Shantala acordou novamente, proporcionando-nos um “lanche madrugador”. A dançarina reergueu-se das cinzas e reencarnou a sua personagem – não podemos garantir que não tenha renascido com outra personalidade, mas os movimentos mantiveram-se com o mesmo esplendor e graciosidade.

Em “aSH”, o espiritualismo sobressai perante a representação da vida em conjunção com a morte. No entanto, também as formas precisas que vão assomando (os círculos, os pontos, as simetrias) despertam uma perspetiva cíclica e estrutural patente na evolução da existência. Shantala Shivalingappa encarnou e reencarnou uma figura de fulgor frugal (de evidenciar, também, a firmeza necessária para conseguir aguentar numa segunda posição de ballet durante bastante tempo).

E como temos todos de ser saudáveis, ofereceram-nos, para finalizar este “menu especial”, um copo de espumante para celebrar o aniversário do Rivoli. Parabéns Rivoli, e Shantala.