Cultura JUP Retrospetiva

JUP RETROSPECTIVA 2019: MÚSICA

Os anos passam e os genéros fundem-se mas há sonoridades cada vez mais particulares. Uns recuam à simplicidade e outros apostam nas misturas mais complexas. Há nomes novos e intemporais, álbuns para todos os gostos e, diz-se, o melhor ainda está para vir.

Vida Nova, Manel Cruz

Vida Nova, o primeiro álbum de Manel Cruz a solo, chegou em 2019 para apresentar uma nova faceta do vocalista de projetos tão icónicos como Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido e SuperNada.

Manel Cruz e o seu ukulele levam-nos numa viagem cósmica, passando por baladas suaves, como “O Céu Aqui” e “Onde Estou Eu”, e hinos revigorantes e cheios de energia, como “Ainda Não Acabei” e “O Navio Dela”. Uma “viagem” é mesmo o termo ideal para definir este álbum, cujas canções causam em qualquer um a vontade de fechar os olhos e deixar-se levar pelas letras profundas e pelos leves e gentis (ou não) acordes de ukulele.

Um agradável regresso de Manel Cruz às gravações, num formato inovador para o artista, que mostra ainda ter em si o poder de encantar os portugueses com a sua arte.

 

IGOR, Tyler, the Creator

Um álbum para abanar o esqueleto, sem dúvida. O flow e sonoridade única de Tyler, the Creator não ficou esquecido em IGOR, o quinto álbum de estúdio do norte-americano.

IGOR fala de amor, de raiva, de discussões internas. Tyler, the Creator lança-nos em 2019 num conto que nos envolve com os seus sintetizadores e vocais espaciais, que nos enfeitiça, deixando-nos vulneráveis à vontade de saltar da cadeira e dançar. Sem dúvida, um álbum que não dá para ouvir sem cantar, pouco recomendável para sessões de estudo.

 

JESUS IS KING, Kayne West

Hold the selfies, put the ’Gram away; Get your family, y’all hold hands and pray”. JESUS IS KING é o nono álbum de estúdio de Kanye West, e mostra ao mundo a faceta cristã do artista, que dá nova vida ao Gospel com este álbum. Uma salada de Hip Hop recheado de sintetizadores e gospel, uma lição de moral e um dedo apontado à sociedade das redes sociais e do consumismo.

Uma prece constante, do primeiro ao último segundo, Kayne West leva a temática religiosa já presente em temas como “Jesus Walks” (2009) e “Ultralight Beam” (2016) a um novo patamar, gravando um álbum inteiro digno da missa de domingo.

Este álbum foi sucedido por Jesus is Born, o primeiro álbum do grupo Sunday Service Choir, lançado no dia de Natal deste ano. O álbum foi produzido por Kanye West, que lidera também o grupo.

 

A Invenção do Dia Claro, Capitão Fausto

Tomás, Domingos, Salvador, Francisco e Manuel estão longe de passar despercebidos pelo público Português. Com o seu mais recente álbum “A Invenção do Dia Claro”, lançado em Março deste ano, os Capitão Fausto asseguram pela quarta vez o seu lugar de destaque na música portuguesa. O álbum marca o processo de evolução da banda, esconde o desalento em versos alegres que, música após música, construem uma relação amorosa cantada por Wallenstein.

 

Immunity, Clairo

“Immunity” é o álbum de estreia da artista Claire Cottrill, que se tornou num fenómeno viral com o tema “Pretty Girl”. Abandonando a ideia de ser apenas uma estrela dentro do seu quarto (“bedroom pop”), Clairo afirma a sua posição na indústria da música quando em Agosto de 2019 lança 11 novos temas e expande a amplitude do seu público. O soft rock de Clairo conquista-nos com as suas baladas íntimas e vulneráveis, com composições minimalistas que nos seduzem a render a um sonho de amor adolescente.

 

Norman Fucking Rockwell, Lana Del Rey

Talvez o álbum mais esperado do ano pelos seus fãs, “Norman Fucking Rockwell” é uma carta de amor ao glamour e à fantasia de Hollywood. O seu sexto álbum denota a evolução de uma artista que se iniciou pintada e associada ao preto, e cresce agora nos tons de azul. Conjugando o rock e o pop de uma forma misteriosa, evidencia algo que na artista é um processo: a felicidade. “Doin’ Time” e “Venice Bitch” são algumas das músicas que melhor exemplificam este fluxo. Mas há também uma presença mais sóbria e madura por parte de Lana, que entra agora numa fase de mudança e estabilidade, evidenciando um dos seus maiores medos com “The Greastest”: envelhecer.

1000 gecs, 100 gecs

Longe vão os tempos em que música “estranha” ou “inaudível” era sequer um conceito; a emergência da PC music por volta de 2014 e a sua constante ascensão até ao momento certificaram-se disso. Apesar do público alvo do duo constituído por Laura Les e Dylan Brady ser, na prática, fãs de PC Music, dadas as inegáveis similaridades e a clara inspiração no microgénero, os 100gecs conseguiram, realmente, ir mais além.

Em 1000gecs, o primeiro álbum de estúdio, não falta nada. De uma forma simplista não-ofensiva, o projeto assemelha-se ao possível resultado de um álbum dos Death Grips produzido por SOPHIE – ainda assim com um rótulo extra de experimentalismo por cima. Os vocais alterados e os típicos ritmos do bubblegum bass são um bom ponto de referência; os sintetizadores do trance também, mas o projeto torna-se praticamente indefinível – apesar de facilmente identificável – quando o dubstep, o heavy metal, o emo rap, o noise pop e até o ska entram em jogo.

Com apenas 23 minutos e em 10 músicas, 1000gecs é equivalente a uma passagem por uma montanha russa. Para os não-fluentes na forma esotérica de humor absurdo da Geração Z, o projeto pode parecer só uma bagunça caótica de sons sem sentido e letras propositadamente meme-y, mas por baixo da superfície assenta uma base incrivelmente técnica e experimental, que irá certamente marcar o futuro dos vários géneros envolvidos.

 

MAGDALENE, Fka twigs

A linha que tem vindo a ligar todos os projetos de twigs, já desde os EPs 1 e 2, de 2012 e 2013, é a meta-desconstrução sustentada da dismorfia; das maneiras como conceitos como o amor, a tecnologia e o trauma podem convergir no corpo e fundamentalmente alterá-lo para um estado dissociativo.

MAGDALENE leva esta formulação ao seu ponto de rutura. Mal ouvíamos falar de twigs desde o lançamento do estrondoso EP M3LL155X em 2015, com justificação. O total processo de fragmentação ilustrado em MAGDALENE foi uma necessidade – o resultado de uma sequência de eventos saída de um pesadelo, que arrancou com a separação publicamente escrutinada de Robert Pattinson, seguida de uma operação de emergência ao útero, para remoção de miomas.

Nesta total desolação, twigs encontrou paz na pureza da sua vulnerabilidade, dando origem à melhor e mais poderosa escrita da sua carreira. Aliada a um poderio vocal, nunca tão trabalhado, e a uma produção meticulosa e extensa de Nicolas Jaar, a singularidade de twigs é notoriamente clara no lead single cellophane – uma balada avassaladora de tão suave que é.

MAGDALENE é um projeto tanto de profunda subtileza, como de intensa emoção; um conto acerca do abraço à desolação e o sacrífico necessário para a ultrapassar. O facto da dor ter dado origem a um álbum desta perfeição e a um crescimento artístico deste tamanho diz-nos que, apesar de se relacionar com a história de Maria Madalena, a FKA twigs tem o poder de se distanciar da figura bíblica; de apagar a linha entre o clássico e o avant-garde. O seu tempo é agora e quem dita a sua história é ela mesma – mais ninguém conseguiria.

 

You Are Forgiven, Slow J

Pode ser “puto lento”, mas Slow J conquistou rapidamente os corações do público português. Desde The Free Food Tape, em 2015, que o seu papel de vanguardista da nova cena musical portuguesa se tem vindo a afirmar a cada projeto e You Are Forgiven não foi exceção.

A sua posição no panorama dos fãs de música portugueses poderia ser comparada à de um Kendrick Lamar, sendo que é amado por todos, até aqueles que não ligam muito a outros projetos ou artistas do género. João Coelho é mágico, em vários sentidos da palavra. Ele canta, escreve, produz, rima, toca e sabe transpor o seu talento nos palcos – o pacote completo. E fá-lo com uma mestria e sentimento conhecidos a poucos.

É esse sentimento que cativa tantos para a sua arte. You Are Forgiven é um álbum sobre a paternidade e tudo o que a envolve – algo com que muitos fãs de Slow ainda não se relacionam, mas, mesmo assim, chegámos ao fim do álbum mais abatidos do que nunca, como se fossemos pais de seis ou sete, e prontos para carregar no repeat.

Uma pessoa bastante privada, é, realmente, através da música que nos deixa entrar no seu mundo. Deste lado, resta esperar pela sua próxima obra de arte. Estás perdoado pelos dois anos e meio de espera, Slow.

 

Figura do Ano

Lana Del Rey

O ano 2019 foi bom para Lana Del Rey e Lana Del Rey foi boa para 2019.

A artista manteve e reforçou o seu estilo muito próprio, banhado em videoclips analógicos e nostálgicos, tudo ao som dum ligeiro e leve piano e letras profundas que nos embalam em memórias com as quais, dalguma forma, nos parecemos identificar. O lançamento de Norman Fucking Rockwell!, o seu sexto álbum de estúdio vem sedimentar e definir sem sombra de dúvida a sua personalidade e qualidade como artista. Estando nomeado para “Album of the year” nos 62º Annual Grammy Awards e atingindo uns fantásticos 87 pontos em 100 no Metacritic, pode-se afirmar com certeza que este é um dos álbuns mais marcantes do ano e, em especial, da carreira da artista.

A norte-americana causou ainda também furor em conjunto com Ariana Grande e Miley Cyrus na produção de “Don’t Call Me Angel”, um single associado ao universo das Charlie’s Angels e que, dalguma forma, vem também reforçar a imagem de “girl power” tão associada a Lana del Rey.