Cultura

ABAIXO O AMOR: VIDAS ÍNTIMAS

A obra escrita por Noel Coward, após a depressão económica dos anos 30, esteve em palco no Teatro Nacional São João (TNSJ) até ao passado domingo – dia 1 de dezembro. O encenador Jorge Silva Melo vai apresentá-la pelo país até ao próximo ano, encerrando a viagem no Centro Cultural de Belém. Por Raquel Batista

“Minimal como uma curva de art déco”, criticou assim John Lahr, crítico estadunidense no The New Yorker, aquando da passagem da peça, com o subtítulo Uma Comédia Íntima, pelos lares americanos.

A intriga e a sincronia nos momentos de paixão e romance soam a Desprezo, filme do cineasta francês Jean-Luc Godard. Porém, ao contrário dos filmes de Godard, que se superam pelas vidas encantadas e revoltadas por mudança social e política, em Vidas Íntimas o altruísmo nunca chega a existir.

Ainda nas referências cinematográficas, à semelhança de Closer, do diretor de cinema Mike Nichols, as personagens da peça – nem de longe nem de perto – se conseguem manter serenas quando estão perto. Porém, Elyot, interpretado por Rúben Gomes, afirma que “O amor é sensato… Sem agitações.” Mas a maior agitação estava ainda para chegar, ao lado de quatro cocktails, poisados no luar francês.

Esta peça, que coloca os espetadores a entrar na intimidade alheia – quase como insetos num quarto escuro numa noite quente – revela o comum burguês francês do século passado, perante o abismo. Precipício este tanto volátil quanto revolto.

Por mais que Elyot cantasse ao piano a “Someday I’ll find you” – peça musical também escrita por Noel – nada mudou o reencontro de um amor forçoso que o casal Elyot e Amanda desejavam que fosse. Até porque: quem é que ama alguém que nos ecoa a paradigma do aborrecimento? Ninguém Elyot, ninguém.

Artigo da autoria de Raquel Batista