Cultura Opinião

OS NOSSOS DIAS POUCOS, DESALMADOS E SÓ NOSSOS

“Os Nossos Dias Poucos e Desalmados” é imersivo e capaz de nos penetrar durante os dias – os muitos dias e cheios de alma – que ainda temos pela frente. Por Inês Sincero

Dediciram pegar em Mark O’Rowe para atacar em todas as frentes. Para quem se queixa das histórias clássicas, passadistas e desajustadas, tomem lá um dramatugo contemporâneo, cabecilha na renovação do teatro irlandes, nos anos 90.

O Teatro Nacional São João estreou o ciclo de homenagem ao autor no Mosteiro de São Bento da Vitória, no dia 18 de Novembro, com Francisco Luís Parreira a dirigir uma leitura de excertos de Terminus (2007) e de Ossário (2003). A rematar este programa de leituras, lançaram o 31.º volume da sua coleção com a editora Húmus, que reúne três peças do dramaturgo: Os Nossos Dias Poucos e Desalmados, Made In China e Ossário.

Para os que não se contentam com leituras e imaginações, Made In China esteve em cena no Mosteiro nos dias 25 e 26 de novembro, e agora dará o mesmo palco a Sarna de 2 a 4 de dezembro. Os Nossos Dias Poucos e Desalmados morou no Teatro Carlos Alberto de 21 a 30 de novembro, e estes dias foram, efetivamente, poucos. Mas suficientes para, diariamente, nos arrancar a alma à dentada e levar às lágrimas.

Como estamos no Porto, o ciclo denomina-se “Mark O’Rowe, carago!”. Mas não é pelo nome ser bem nortenho e apelativo que as salas estão lotadas. É mesmo por ser bom. Tanto o autor, como a encenação, a passar pelos atores e restante equipa, e a terminar no todo que é a experiência de poder ir ao teatro.

Ao contrário do que O’Rowe nos habitou, esta não é uma peça monologada. De facto, é um diálogo frenético, sobreposto e truncado, pontuado por olhares, pormenores, silêncios, sussurros inaudíveis e revelações berrantes.

Os Nossos Dias Poucos e Desalmados tem a mestria das novelas da noite de suspender a cena no momento crucial, e a qualidade cinematográfica – muito difícil de atingir no teatro – de todos os planos serem estupidamente bonitos. O cenário caseiro é simultaneamente acolhedor e sinistro e os recortes de luz sempre sombrios embrenham-nos na tristeza complexa e no luto palpável que vamos aprendendo a sentir pelos protagonistas.

Neste thriller psicológico sobre família, culpa, sacrifício, amor, violência, memórias do passado e encruzilhadas eternas, mergulhamos num universo impensável e claustrofóbico. Nele vive Margaret e Michael, um casal que esconde um segredo que a faz dormir no sofá; Adele, a filha arrebitada, desconfiada e amada; Dennis, o namorado – apaixonado pela pessoa errada – que é “o passado” em forma de gente, e Gary, o mero conhecido que é uma besta.

Jonathan e Belinda também lá vivem, imaginados, ausentes mas nunca esquecidos. E nós também já entramos dentro desse mundo e dos seus dias, sem nunca sermos convidados. Embora queiramos sair, porque aquilo é horrível e feito com um realismo tão atroz que o torna absurdo.

Sentados nas cadeiras, há quem não se consiga encostar. E, embora concentrados e sem pestanejar, pedem-se lenços ao desconhecido que está no lugar vizinho. Isso ou simplesmente se chora, desenvergonhadamente. Ao som do piano final, cientes do fim, pensamos que a sala inteira vai reparar nos nossos olhos inchados, mas andamos iludidos. Não há outro foco para além dos intérpretes – soberbos, que merecem cada aplauso e sessão lotada.

Por que é que não me amas? Por que é que és infeliz? Por que é que és triste até quando te ris? Por que é que garantes, abraçado a mim, que isto vai tudo passar? São tudo perguntas que, de agora até sempre, nos vão incomodar desalmadamente. Mas que ninguém se atreva a responder. Porque só cada um sabe de si, dos seus segredos e fragilidades, e “se eu falo nisso, as coisas entre nós mudam para sempre.”

Artigo da autoria de Inês Sincero