Cultura

LAGO DOS CISNES: O AMOR BRANCO VENCEU O MAL NEGRO

O Lago dos Cisnes voltou, uma vez mais, ao Coliseu do Porto, no passado sábado. Já uma constante na programação do Coliseu nas alturas pré-natalícias, o bailado exibiu a nova produção da companhia de ballet de Moscovo (Russian Classical Ballett), dirigida pela famosa bailarina Evgeniya Bespalova. Para ser ainda mais transcendente, só faltou os cisnes dançarinos voarem. Por Nina Muschketat

O Lago dos Cisnes é considerado um dos bailados mais espetaculares de todo o repertório de dança clássica, sobretudo devido à coreografia desafiadora que requer uma capacidade técnica de fazer suster a respiração. Por mor da sua graciosidade, é um espetáculo que agrada sempre a miúdos e graúdos – e esta vinda ao Porto bem o confirmou.

A peça divide as suas duas horas em dois atos e quatro cenas. A história contada pelos bailarinos não é complexa – mas a sua natureza faz-nos ativar perceções distintas, já que a história é somente dançada  e apenas o corpo fala.

O pano de fundo do bailado são dois cenários que se intercalam nos quatro momentos. O primeiro corresponde ao castelo, mais precisamente à corte da Rainha – onde o príncipe tem que realizar a difícil escolha que é tomar a posse de uma mulher para desposar. O alternativo exibe a floresta negra envenenada pelo mago Rothbart. Além dos cenários, são as luzes e as cores das vestimentas qu

e tecem a rede por onde os bailarinos se movimentam.

Como se pode esperar de um espetáculo de ballett, o que mais estonteia o público são os movimentos que enchem o palco. Movimentos esses que vão desde várias piruetas em sequência, suaves pinotes, saltos encarpados voadores, trocas de pés que ocorrem num abrir e fechar de olhos… e tudo sempre com um sorriso na cara. Os corpos ou – sejamos mais adequados ao caso – as ferramentas de trabalho, surgem de tal modo esmiuçados que não se descobrem nem joelhos nem dedos dos pés (nas bailarinas). Parecem ter sid

o poisados pela Mãe Delicadeza naquele palco para nos deslumbrarem com a sua suavidade hipnotizante.

Todo o corpo ajuda na construção da linguagem, pelo que se descobrem sempre novas miudezas: os pés a obedecerem à maior habilidade requerida como se fossem de gelatina, os inclinares da cabeça, os braços que se prolongam até à pontinha dos dedos das mãos, os olhares para o horizonte.

Neste bailado em especial, o facto das bailarinas estarem transformadas em cisnes permite observar as infinitas possibilidades de exploração de um corpo, evidenciando as suas diferentes moldagens. De destacar o papel da bailarina principal que, induzida pela forma como a peça está realizada, interpretou tanto o cisne branco principal (a princesa Odette) como o cisne negro (Odile, filha do mago). A dualidade de caráter foi atingida com tal sublimidade que, para o público, até aparentaram ser duas dançarinas diferentes.

Claro que não haveria cisnes sem lago: o tema de Piotr Tchaikovsky é o elemento base do bailado, surgindo como o guia da história. A linguagem corporal adequa-se à musicalidade e os níveis de romantismo e dramatismo na peça são espoletados pelas dinâmicas e intensidades da obra prima do compositor russo. A título de exemplo, nos compassos mais conhecidos do tema, os momentos de maior suavidade competem aos cisnes brancos, enquanto que sempre que a música ribomba e adquire uma tonalidade mais obscura, o foco é direcionado para a atuação da figura do mago.

Será que as prima ballerinas e “primo ballerinos” (sim, porque pela sua habilidade extraordinária, todos aparentam ser primos e primas) ainda se podem tomar por humanos? A pergunta coloca-se porque tanta suavidade e tanta delicadeza dificilmente podem ser atribuídas a um ser humano “comum”. Somente os bateres dos pés no solo é que indiciaram que tinham, de facto, peso humano e as mínimas falhas (praticamente nulas) marcaram a condição humana à qual todos estamos sujeitos. Caso contrário, bem poderiam ser anjos que poderiam levantar voo a qualquer momento.

Ainda que hipnotizados pela virtuosidade, não deixamos de pensar no que está por trás da perfeição que nos apresentam: o trabalho árduo e o esforço para alcançar toda a minuciosidade e esplendor requeridos àquele nível. Uma panóplia de circunstâncias a terem de ser ultrapassadas e de imperfeições a desejarem ser vencidas… nada obstante ao facto de ser realmente admirável haver uma adoração por algo e, consequentemente, a vontade de dedicar a vida a essa mesma atividade. Mas, quando se faz uma pequena relação ao filme Black Swan (2010), de Darren Aronofsky, onde as ideias obsessivas da protagonista levaram à sua queda, é difícil desprezar o quanto este (e outros) ambiente de tão alto nível pode propiciar tais pensamentos menos saudáveis.

De uma perspetiva exterior, nada há que sobressaia mais do que a sincronização excecional do grupo e a energia mágica que eleva os dançarinos a outro patamar. Mais do que vinte piruetas de seguida sem cair para o lado nem todos fazem – provavelmente até foi o próprio público que ficou mais desnorteado do que a bailarina.

Artigo da autoria de Nina Muschketat