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TRISTEZA E ALEGRIA NA VIDA DAS GIRAFAS: VIAGEM ATÉ AO FIM DA INOCÊNCIA

"Tristeza e Alegria Na Vida Das Girafas" teve direito a uma sessão especial de estreia no Cinema Trindade, esta quinta-feira. O JUP traz a análise ao filme do realizador Tiago Guedes.

Baseado na peça de teatro do mesmo nome, Tristeza e Alegria Na Vida Das Girafas é o segundo filme de Tiago Guedes a estrear este ano. Depois de A Herdade, o realizador portuense apresenta um projeto que demorou dez anos a ver a luz do dia. É uma reflexão com elementos pessoais, mas mensagens universais.

Girafa é uma menina de dez anos que, sofre pela ausência da mãe, que morreu há algum tempo. Filha única, vive com o pai e com Judy Garland, o seu urso de peluche que fala e tem cara de homem de meia-idade. Um dia, a menina pega em Judy e sai de casa, decidida a angariar dinheiro para poder ver o Discovery Channel.

A aventura de Girafa é uma espécie de Alice no País das Maravilhas em território lisboeta. A protagonista e o seu urso de peluche dão de caras com uma série de personagens, cada uma proporcionando uma lição diferente ao par. Mais do que os traços surreais, o grande sentimento desta viagem é a melancolia. O percurso, que pode ser tão real como imaginário, está cheio de pequenas deceções para Girafa. São os passos em direção ao fim da Inocência.

O argumento do filme é a estrela maior. Todas as palavras são da peça original, escrita brilhantemente por Tiago Gomes Rodrigues. O texto faz um excelente trabalho de equilibrismo entre a comédia e o drama, sem nunca perder o tom único da sua narrativa. Por um lado, a forma de falar singular de Girafa, os palavrões de Judy Garland e as one-liners que servem como remate de piadas absurdas. Do outro, as reflexões realistas, as perguntas que não podem ter resposta, a dor da perda e da saudade.

No entanto, é no argumento que reside o aspeto negativo mais nítido. Por ser baseado numa peça de teatro, o ritmo do filme é prejudicado, nomeadamente nas transições entre encontros de Girafa com as personagens caricatas da aventura. O primeiro terço do filme também demora um pouco a arrancar, contudo a qualidade da escrita colmata bem essa lacuna.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas
Imagem: Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

 

O grande trabalho dos atores também merece destaque. Maria Abreu, filha do realizador Tiago Guedes, tem a proeza de transmitir a montanha russa emocional de Girafa a partir de uma leitura intencionalmente fria do diálogo. Tónan Quito no papel de Judy Garland consegue transformar a frase “puta, cona, foda-se” em poesia e ser um urso de peluche capaz de reduzir muitos adultos a lágrimas. Miguel Borges aproveita o todos os momentos em que aparece no ecrã para deslumbrar como pai de Girafa (e não só). Os vários convidados que aparecem na aventura da protagonista são todos memoráveis à sua maneira, mas é Miguel Guilherme que tira melhor proveito do seu cameo, renovando a credencial de um dos melhores atores portugueses.

A realização de Tiago Guedes faz uma boa tradução da linguagem do Teatro para o Cinema, mesmo com os já referidos problemas de ritmo. O uso ocasional da câmara de smartphone é inteligente e adequado. Já a banda sonora, composta por Manel Cruz num misto de Foge Foge Bandido com novos temas, encaixa-se no mundo estranho do filme e contém algumas faixas particularmente bonitas.

Tristeza e Alegria Na Vida Das Girafas culmina em beleza um excelente ano para o Cinema português. Depois de VariaçõesA Herdade, o mais recente filme de Tiago Guedes traz ao grande ecrã uma história bizarra, honesta e comovente. O mérito de um projeto destes não só chegar a grandes salas de Cinema, como também ser de elevada qualidade é de louvar.

Portugal é um país difícil para a criação cinematográfica, porém são filmes como Tristeza e Alegria Na Vida Das Girafas que nos fazem acreditar num futuro melhor para a Sétima Arte do nosso país.

🦒🦒🦒🦒  4/5 Girafas