Cultura

JUSTAPOSIÇÕES POR ARTHUR JAFA – A PELE NEGRA NUM ECRÃ BRANCO

“A negritude é algo paradoxal, todos reconhecem isto, é um emblema da força da vida.” No penúltimo dia do Fórum do Futuro, Arthur Jafa conta a Serralves sobre a expressividade, poder, beleza e alienação na produção cultural negra. Por Giulia Pedrosa

Alteridade, apropriação e extração são palavras-chave nos programas apresentados no Fórum do Futuro deste ano. “Crossings/Travessias” foi o título desta edição que trouxe a Serralves o vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Veneza 2019, o norte-americano Arthur Jafa.

“Poder, beleza e alienação”, na produção cultural negra, foi o tema da conversa realizada nesta sexta-feira no auditório de Serralves, mediada por Phillipe Vergne – um célebre curador francês, que assumiu o cargo no início deste ano como diretor de arte contemporânea do museu.

Energia contagiante e paixão pelo que se faz serão, talvez, algumas das inúmeras características de Jafa. O artista visual, que diz não se identificar com tal definição, expressa que ainda se está a descobrir.

Aos 58 anos é cineasta e diretor de fotografia. Com uma carreira de 30, já trabalhou com e para personalidades como Beyoncé, Jay-Z, Spike Lee e Stanley Kubrick. Porém, a fama chegou apenas nos últimos anos, e o seu nome vai sendo reconhecido por documentar e dar tom ao que é chamado de “blackness” ou, em tradução literal, “negritude” – o “ser negro” no mundo contemporâneo.

Uma contemplação existencial da negritude. Jafa representa visualmente a “Black Visual Intonation”, ou seja, a negritude perdura como uma posição profundamente enérgica, e a partir da qual se comunica.

Por meio de vídeos com suas composições criadas através de “colagens” videográficas – uma mistura de peças de alta e baixa qualidade, históricas e quotidianas, com música e dança, dor e alegria, injustiça e orgulho – Jafa transmite o poder da resiliência que está na essência da cultura negra, examinando suas vidas e manifestações culturais nos Estados Unidos.

Com um ar despojado e bastante relaxado, Jafa caminhou pelo auditório antes da sessão iniciar, com phones nos ouvidos, enquanto confirmava se não havia nenhuma falha nas conexões entre o computador e o grande ecrã.

No momento em que abre o computador é possível ouvir que estava a tocar “Here and Now”, do mítico Luther Vandross, símbolo da música R&B norte-americana. Jafa deixa a música tocar durante um tempo e, de seguida senta-se na plateia, enquanto aguarda o início da sessão. Instala-se o silêncio enquanto os espectadores olham concentrados para o nome do CROSSINGS na tela.

O Fórum do Futuro contou também com a participação do aclamado poeta Fred Moten, com um projeto fílmico a ser exibido em “capítulos”, no início de várias sessões do programa, com excertos das suas obras, recitados pelo mesmo. Com a sessão de Arthur Jafa não foi diferente. Antes de qualquer coisa, foi reproduzido um destes capítulos com Moten a declamar “Aesthetics of Black Radical Tradition”.

De seguida, Phillipe Vergne principia à sessão, introduzindo Jafa como um pensador, escritor, coletor, editor e talentoso arquiteto. Alguém que “copia e cola”, com uma estética tradicional de colagens, poesia e conceitualismo. Alguém que “corta” e faz uma interrupção da homogeneidade, cortando a apatia e ignorância. E “cola”, reduzindo o espaço entre tempo e imagem, e criando uma empatia que re-escreve a narrativa da pele negra num ecrã branco. Desta forma, conta a narrativa norte-americana e suas relações com a negritude e branquitude. Mas Jafa não é um “artivist”, como muitos podem pensar.

Jafa junta-se a Vergne, no palco. O seu telemóvel, que estava conectado com o ecrã, começa a tocar uma música, e Jafa rapidamente mata a curiosidade dos presentes: “Isto é Frank Ocean. Eu sei, incrível!”.

Partindo de perguntas realizadas por Vergne, AJ – como gosta de ser chamado – compartilhou não sentir nada ao ver “Love is a Message, the Message is Death”, o seu projeto criado a partir de suas “colagens” e justaposições – não só de multimédia, mas de ideais e conceitos sutilmente posicionados.

Poderoso mesmo em takes considerados “caseiros”, o projeto emociona, constrange, pertuba, comove e incomoda aqueles que o assistem. Vários vídeos e imagens de diferentes épocas e contextos foram compiladas ao som de “Ultralight Beam”, de Kanye West, e representam e retratam várias experiências vivenciadas por pessoas afro-americanas.

Violência policial e atos racistas são postos lado a lado à alegria e movimento da cultura afro-americana. Passos de dança, música, casamentos e corais celebram a criatividade, talento e resiliência negra, face aos históricos ataques e acontecimentos sofridos até os dias de hoje. Uma mistura de dor com alegria, resiliência e força.

Na estrada há quase mês mês, AJ está a dar palestras no mundo inteiro, e quando Vergne o questiona sobre sentir alguma reação diferente nas plateias europeias, ele responde que “não estou a tentar falar nada, estou simplesmente a falar”

AJ revela ter materiais armazenados no seu portátil há anos e, sem nenhuma pretensão originária, continuava a armazenar coisas que talvez viessem a desaparecer. Mas, de repente, surgiu a vontade de compilar e criar algo com elas.

“Love is a Message” foi criado como uma mixtape, da qual 45% dos vídeos são filmados por ele mesmo, com amigos e familiares presentes. Além disso, a grande massa do trabalho, cerca de 80%, foi colocar tudo junto – e o artista contou realizar essa tarefa em 2 ou 3 horas.

Quando seus amigos tiveram acesso ao produto final, realçaram a intensidade. O resultado foi este tocante projeto que, primeiramente, foi divulgado por Kahlil Joseph, amigo de AJ, na Suíça, durante a cerimónia de lançamento do filme “Lemonade”, homónimo do álbum de Beyoncé.

O artista apenas mostrou o trabalho às pessoas mais próximas, antes da curta ser exibido. No entanto, aquém de seu conhecimento, o seu projeto foi reproduzido diante de milhares de pessoas – uma delas o art-dealer novaiorquino Gavin Brown – e, desde então, sua vida e carreira foram transformadas.

AJ também pensou e falou sobre o que as pessoas consideram “universal”, sendo este o conceito usado pelas pessoas brancas. Compartilhou nunca ter tido o desejo de estar no mundo da arte, contudo, ficou surpreendido com a empatia branca após verem a dor negra patente nos seus trabalhos, bem como o sentimento ambivalente em relação a tudo isso.

“‘Love is a Message’ é como o seu ‘Purple Rain’”, mas não crê que seja por acaso: “As melhores coisas que eu já fiz, não estava nem sequer ciente delas até estarem prontas. As coisas têm de se encaixar de um certo modo”.

Compartilhou que, quando era criança, por volta dos 8 anos, organizava a bagagem quando ia viajar e, ali, havia uma certa organização. O artista acredita que isto esteja conectado com a forma como produz os seus trabalhos, mas diz não criar coisas de uma forma semiótica ou semântica, mas sendo sempre, simplesmente, frutos do seu fluxo criativo.

Numa comparação com os jogadores de basquete, LeBron James e Michael Jordan, os atletas não pensam em afundar, nem calculam os passos enquanto jogam, “não se recebe pontos extras por afundar. Na realidade, as chances de errar aumentam. Não é algo eficiente, mas é lindo. É um excesso de expressividade, movimento que exibe a beleza. Isto é imposição negra. E várias pessoas negras emblemáticas fazem isso”.

Num trecho da curta, é possível ver uma garota negra dizer “nós não somos alienígenas”, porém AJ comentou, posteriormente, que “claramente somos”. Grande entusiasta de filmes de ficção científica, é possível verificar que criaturas alienígenas  aparecem em vários dos projetos de Arthur. Acrescenta ainda, sobre a representação do sol, elemento recorrente em seus trabalhos – “As pessoas olham para baixo, mas quando se olha para o sol, olha-se para cima, para o pico, olha-se para ele”.As pessoas negras vieram de África mas a negritude veio não somente de lá. E que as pessoas negras são o assunto mais reduzido no capitalismo.

“Estou a tentar explorar isso. Estou a tentar ser uma coisa. Não me envergonho do que estou a fazer. Não somos sujeitos. Não somos coisas humanas. Ser um ser é problemático.”

AJ falou sobre apropriação ao comentar que o techno era, originalmente, música negra e, atualmente, é considerada a música “do agora” – e a situação repete-se no caso do jazz ou o hip hop – “A música negra é a m**** mais incrível do planeta. Todos nós sabemos disso.”

Enveredou ainda pelo impacto da música e do cinema, sendo a branquitude delimitada e fundada no cinema, em que pessoas brancas e judias estão na frente de Hollywood. A normatividade é ser um homem branco e presumidamente hétero, mas ser uma mulher negra e gay, neste meio, “é a melhor coisa possível”. Muitos mencionam que ele tem muito Queerness em seus projetos, pelo que ele responde que está a mostrar e a criar “the most dope sh*t”.

Foi ainda exibido um outro vídeo de um homem a dançar com botas de salto alto. AJ diverte-se e dança, enquanto a platéia assiste – “a música negra é energia”.

Neste momento, mora em Los Angeles, Califórnia, mas nasceu no Mississipi, estado que serviu de inspiração para o que veio a ser um hino ativista da causa negra – “Mississipi Goddam” de Nina Simone. Durante a sessão, ele cita a canção e explica como foi um lugar complicado para crescer. Até aos seus 17 anos fez de tudo para sair de lá, mas passou os últimos 30 anos de sua vida a tentar entender a complexidade da terra de onde veio.

“A negritude é algo paradoxal, todos reconhecem isto. É um emblema da força da vida. […] Sofrimento é sofrimento. Não estou a tentar por a dor negra acima de nada. Mas nós sobrevivemos e nós sabemos como sobreviver a tempos difíceis. Nós somos seres humanos, não é apenas sobre sobreviver, mas prosperar.”

Para finalizar a conversa, AJ comentou o seu mais recente projeto “The White Album” – que lhe rendeu o prémio de melhor artista na Bienal de Veneza deste ano – que se debruça sobre o racismo e retrata as tensões entre pessoas brancas e a branquitude, que não são a mesma coisa. “Eu sou contra a branquitude. Mas, entenda-se, ser anti-patriarcado não é ser contra homens. Da mesma forma, ser contra a branquitude não é ser contra pessoas brancas. Tem de se separar estas coisas”.

Em conclusão, acrescentou: “Parem de se identificar com os nazis. As pessoas brancas tem medo que as pessoas negras façam com eles o que eles fazem com as pessoas negras.”

No dia seguinte, último dia do Fórum do Futuro, também foi exibido no Cinema Trindade, o seu filme “Dreams are colder than death”, baseado no icónico discurso “I have a dream”, de Martin Luther King.

Artigo da autoria de Giulia Pedrosa