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JUP DESTAQUES: OUTUBRO 2019

O JUP Destaques mensal está de volta. Outubro é sempre um mês culturalmente rico e este ano não foi exceção. Angel Olsen, Joker e Bojack Horseman são algumas das principais recomendações.

Música

Jesus is King, Kanye West

O regresso ao olho público e ao Twitter anunciava-o: estava para chegar um novo projeto de Kanye West. Desde o começo dos Sunday Services que os fãs esperavam um tipo de álbum diferente; após um ano de luto pelo natimorto ‘Yandhi’, finalmente recebemos um novo filho nas mãos.

O auto intitulado “melhor artista humano de todos os tempos” nunca escondeu o seu lado cristão. A agora profética “Jesus Walks” foi a música que o lançou para os holofotes do mundo; o próprio Kanye imbuiu a figura do criador final na sua identidade em ‘Yeezus’; em 2016 deambulou pelo gospel em ‘The Life of Pablo’ e até fechou o colaborativo ‘Kids See Ghosts’, do ano passado, a implorar a Deus para iluminá-lo e salvá-lo com a sua luz.

jesus-is-kingA religião não é, de todo, estranha para Kanye, mas desta vez é diferente; é um renascimento. Apesar de, estritamente estilisticamente falando, ‘Jesus is King’ não ser um álbum de gospel, o seu firme apelo à devoção é a característica que o define. O escopo aqui é estreito, uma destilação que claramente traz a Kanye um certo conforto, mas que não deixa de trazer consigo a simplificação da música em si.

Tal como em todos os seus outros álbuns, ‘Jesus is King’ tem os seus momentos de inegável brilhantismo. Embora esteja a ser considerado uma entrada claramente leve no seu repertório, o LP lembra-nos que mesmo o trabalho mais inferior de West é capaz de um dinamismo extremo. “Follow God” – a faixa mais musicamente reminiscente do old Kanye – é o tipo de murro texturado que, ainda, só o artista sabe dar; o triunfo efervescente do beat da “On God”, o resultado de uma colaboração com o produtor mais falado do momento, Pi’erre Bourne, é um dos prazeres mais imediatos disponíveis no Spotify neste momento; “Shelah” e “Use This Gospel” são os exemplos mais óbvios da paisagem sonora expansiva a que um Kanye de máscara e calças de couro nos habituou em 2013.

No entanto, a força desses momentos é frequentemente prejudicada pela urgência do próprio Ye. Apesar de manter um layout temático e estável (ainda que superficial), a fraca mistura – cuja suposta melhoria foi a causa do atraso de 13 horas na hora de lançamento – e o lirismo extremamente simplista do álbum exacerbados, em especial, na faixa-meme “Closed on Sunday” revelam a maneira como o álbum é relativamente minúsculo no seu cerne.

Se a missão de West era converter os ouvintes ao Cristianismo, ele terá de mergulhar um pouco mais fundo. Para além das referências superficiais a passagens bíblicas e ao consumismo americano, não há nenhuma indicação face ao que significa realmente seguir Jesus, sem contar com as experiências pessoais de Kanye, das quais consta, por exemplo, ter recebido 68 milhões de doláres de IRS como “dádiva de Deus”. Falta a ‘Jesus is King’ a graça, justiça e amor que caracterizam a fé no seu estado mais puro e transformativo. Ao longo das suas onze faixas e 27 minutos, o álbum não incorpora nem um terço da alma de “Ultralight Beam” – a faixa inaugural de ‘The Life of Pablo’, de 2016.

Desde que chegou ao mundo da música que o trabalho de Kanye é responsável por expandir a estrutura imaginária dos ouvintes através da crítica social, cultural, económica, política e até espiritual. Até então, ou principalmente até 2016, os seus projetos eram sempre um ponto de viragem na música, na moda e na cultura, no geral. Cada palavra saída da sua boca ou dos seus dedos era quase imediatamente impressa em t-shirts, postada em todo o lado como palavra de Deus, colocada nas biografias das redes sociais e por aí.

Seria puramente errado negar o seu reinado geracional neste ponto, mas a realidade é que o poder de Kanye para esticar as nossas visões e imaginações já não está lá. Agora limita-se a colorir à volta delas e a borrifá-las com água benta.

All Mirrors, Angel Olsen

all-mirrorsAngel Olsen não foi nada senão transparente quanto ao caminho que a levou a ‘All Mirrors’. A artista tinha inicialmente planeado lançar duas versões do álbum: uma “crua e nua”, a solo, e outra com uma banda. Algures no caminho para esta última versão, uma orquestra de 14 pessoas entrou em cena – e o resultado final é este imponente e tempestuoso álbum, onde quase todas as faixas têm calmas e tempestades que combinam com a voz crescente e melodias complexas da cantora.

Ao longo dos três álbuns anteriores, Olsen estabeleceu-se como uma das cantoras-compositoras mais promissoras da década passada, dotada de uma voz poderosa e versátil que usa estrategicamente conforme os diferentes tons emocionais das suas músicas. Embora ‘All Mirrors’ seja distintamente seu, Olsen conseguiu esmagar o molde de tudo o que veio antes. Onde anteriormente transmitia intensidade através da sua voz e num formato convencional de banda rock, aqui há um novo eco profundo nos seus vocais, címbalos estridentes e uma orquestra avulta que se enfurece como um mar revolto, que range e geme, contrastando com a configuração suave e desmaiada de músicas mais moles, como “Tonight”.

Segundo a cantora, ‘All Mirrors’ é um álbum sobre “perder empatia, confiança e amor por pessoas destrutivas; sobre afastares-te do barulho e entenderes que consegues sentir solidão e paz nos teus próprios pensamentos, sozinho, sem ninguém para saber deles ou validá-los.”

Angel Olsen sempre teve um talento natural para fazer e escrever música para almas cansadas. Com ‘All Mirrors’, a cantora oferece um conjunto de trabalhos para introvertidos doridos da sua tempestade interna, finalmente cientes e prontos para aceitar a luz e a sombra em si e na vida. No final das 11 músicas, Olsen está alta e despida, acompanhada por uma orquestração tão completa que cada música parece ter proporções bíblicas.

Outros a destacar: 2020, Richard Dawson | Over It, Summer Walker | Days B4 III, Lucki | There Existed an Addiction to Blood, clipping. | Cheap Queen, King Princess

Adriana Pinto

Cinema

Joker

Joker é um filme realizado por Todd Philips sobre a origem do famoso antagonista de Batman. Joaquin Phoenix é Arthur Fleck, um aspirante a cómico de stand-up que sofre de riso patológico, um distúrbio que o força a rir-se, mesmo quando não quer.

A vida de palhaço precário, ostracizado da sociedade e cuidador da sua mãe desabilitada fazem Arthur sentir-se miserável e irrelevante. O psíquico frágil do protagonista começa a atingir o limite e uma espiral de momentos negativos levará ao nascimento de um dos maiores supervilões de sempre.

Tudo começa e acaba em Joaquin Phoenix. O ator foi escolhido para o papel por ter já uma carreira aclamada. Mesmo assim, o currículo do ator norte-americano não será o mesmo depois de Joker. A metamorfose poética de Phoenix transmite a inocência incompreendida, a dor reprimida e, eventualmente, o caos libertado de Arthur Fleck.

Todd Philips e Joaquin Phoenix criaram uma obra-prima numa altura em que o Cinema mais precisava. Os colossos de bilheteira parecem pequeninos, em comparação.

Joker é um espelho desconfortável. Isto tanto se pode referir ao filme ou à personagem. Eles são o símbolo da parte obscura da Humanidade que poucos querem admitir que existe em cada um de nós. Talvez seja por isso que alguns não queiram olhar para o seu reflexo e outros que olham só consigam esboçar um sorriso amarelo. Qualquer um pode ser o Joker. O nosso dever é garantir que ninguém o seja.

 

 

Skin

Skin é um drama biográfico escrito e realizado por Guy Nattiv. O filme expande o universo da curta-metragem do mesmo nome que ganhou um Oscar este ano. Jamie Bell interpreta o skinhead Bryon Widner.

O filme conta a história verídica de um jovem indigente criado por skinheads racistas e notório entre os supremacistas brancos. Depois de se apaixonar por uma mulher com três filhas, a lealdade ao movimento skinhead começa a estremecer.

Skin é uma história bonita sobre um homem que consegue escapar ao ódio através do amor e responsabilidade que sente pela sua mulher. Os temas de racismo e exclusão social são lidados com seriedade.

A narrativa do filme é interessante e faz justiça às pessoas verdadeiras que a inspiraram. Mesmo assim, o filme arrasta-se a certo ponto e existem coisas que podiam ter sido exploradas de uma forma mais profunda. A falta de consistência não arruína a experiência, apenas impede-a de ser especial.

Skin poderá não ser recordado daqui a uns tempos, mas a sua mensagem tocante de redenção vale a pena ser vista.

João Malheiro

Séries

The Good Place, T4

Há 500 anos que ninguém ganhava pontos suficientes para entrar no céu, o verdadeiro Good Place. Ao encontrarem uma falha no sistema de contagem, o grupo que se uniu na tortura pós-morte – Eleanor (Kristen Bell), Chidi (William Jackson Harper), Tahani (Jameela Jamil), and Jason (Manny Jacinto) – conseguiu um acordo com a juíza da zona neutra, Gen (Maya Rudolph) que pode salvar o futuro do além da humanidade.

A ultima temporada de The Good Place começa exatamente onde acabou a terceira: com Eleonor a assumir o papel de arquiteta do bairro. Voltamos ao cenário tão familiar, mas desta vez com uma função diferente e com novas personagens. O Good Place servirá agora como um centro de reabilitação para comuns mortais de forma a provar que, dada a oportunidade, os humanos conseguem melhorar e tornar-se boas pessoas. O problema é que os humanos postos à prova foram escolhidos pelos demónios do Bad Place e são a materialização dos nemésis do grupo.

The Good Place continua o seu trabalho fantástico enquanto comédia, com Tahani a não passar um único episódio sem um pequeno e subtil roast a uma celebridade mortal. Desde Timothée Chalamet a Kevin Spacey, ninguém escapa. Também se mantém todos os trocadilhos característicos com palavrões. E ética e filosofia continuam a ser discutidos de forma interessante. O que nem sempre é fácil. E se tudo isso aborrecer, as reviravoltas na história cativam a atenção do espectador. Convenções de demónios, clones e planos maquiavélicos sem fim.

Faltam apenas três episódios para acabar, mas a história ainda não desvendou o final. Será que os humanos conseguem mesmo ser bons?

Bojack Horseman, T6 (parte 1)

Após 5 temporadas de más decisões, depressão e dependência, Bojack finalmente procurou ajuda no sítio certo- o centro de reabilitação Pastiches. Assim começa o seu processo de recuperação. E desta vez Bojack está realmente a tentar melhorar.  Ao início nem tentava, mas depois de ver uma foto de Sarah Lynn , que morreu de overdose de heroína enquanto consumia com Bojack, ele realmente focou-se no processo. Passou de não caminhar a ser o que lidera as caminhadas de grupo, a partilhar nas conversas, a desabafar na terapia, onde a sua relação com o álcool desde criança é exposta através de throwbacks que ajudam a explicar o motivo do seu vício.

Esta primeira parte da última temporada não é apenas sobre vícios, mas também sobre perdão e mudanças pessoais. Todas as personagens estão a passar por mudanças. A Princess Carolyn  procura, com grandes dificuldades, conciliar a sua vida de nova mãe com a sua carreira. Diane enfrenta novos desafios criativos e encontra antigas inseguranças.

É nesta temporada que finalmente acontece o crossover que Mr. Peanutbutter, agora a cara nacional da depressão, tanto desejava. Desta vez, a mudança em Bojack parece diferente e com possibilidade de ser duradoura. Ele faz o melhor que pode para ajudar os que o rodeiam e para se desculpar pelas ações do passado. Foi preciso aguentar ver todas as más decisões das últimas 5 temporadas para chegar a este momento agradável de assistir.

Ao longo dos 8 episódios, a série continua a marcar pelo seu humor sarcástico e as criticas sociais subtis e bem conseguidas.  A primeira parte termina num Cliffhanger: Bojack pode ter mudado mas ainda tem de assumir as consequências das suas ações passadas. A mudança pode parecer real, mas face às adversidades Bojack pode cair de novo na espiral negativa das últimas temporadas. A resposta chega em janeiro do próximo ano.

Outros a destacar: Mr. Robot | Big Mouth

Cristiana Rodrigues