Cultura Opinião

NIET HEBBEN – [NÃO SE REJEITAM CARTAS DE AMOR]

"Niet Hebben [Carta Rejeitada]" é um espetáculo com vírgulas, pontos, parágrafos, e tudo mais a que uma carta tem direito. Prova que o teatro é uma arte fora do baralho. (Ou diz-se carta?). Por Inês Sincero

“Carissimos todos, vírgula”: nem sabem o que perderam.

Em palco, uma atriz algema-se porque se sente uma criminosa. Não roubou, não matou, não mentiu, não fugiu. Nem sequer consumiu – porque as suas linhas são outras. Vasculhou correspondência alheia, num ato de desespero, por nunca ter obtido resposta a uma declaração feita há trezentos anos. E, agora, sente-se culpada por ter lido o que não era para si.

Se não era para si, também não será para nós, certamente. Ainda assim, ela quer contar-nos sobre o que leu, como se nos escrevesse uma carta enquanto fala.

Crista Alfaite, criadora e intérprete, merece que lhe inundem a caixa do correio de envelopes selados de elogios. A artista transforma-se numa cantora de ópera – figura que, tal como as cartas, está fora de moda – e despe-se (não só literalmente) perante o público risonho do Teatro Carlos Alberto.

Olhos nos olhos, quebra a quarta parede com uma mestria contemporânea e, sem sequer nos convidar a viajar no tempo, já estamos atrelados. Algures entre as cartas de condução, da segurança social, dos direitos humanos e dos baralhos de mágicos, perdemo-nos de amores na história da sua carta de amor, ignorada há séculos atrás. (O raio do amor consegue sempre ser o centro das atenções).

Ela conta-nos e sofre. Nós sentimos, acreditamos, mas rimos. Rimos porque, primeiro, somos todos novos demais. Não sabemos o que é escrever uma carta, nem sabemos o que é esperar por uma carta. Só sabemos demorar dois segundos a perceber se a nossa mensagem foi entregue e visualizada.

E rimos porque Crista Alfaite faz o teatro parecer fácil e leve. Aborda o feminismo, a guerra, o pós-colonialismo, a arte, a censura, a política, a tristeza, a culpa, a dúvida – e mesmo assim faz-nos rir. O teatro de hoje é música, cinema e literatura, e esta Carta Rejeitada rejeita a tradição e oferece-nos uma experiência visual e sonora muito transcendente e dinâmica. O som ecoa à nossa volta, as projeções apelativas entram na milésima de segundo acertada, o figurino é um sonho, e a persona de Crista faz a restante magia, com uma fisicalidade dançada e uma gestualidade minimalista.

A apaixonada nunca terá resposta à única carta que quer ter. Esquece-se que, algemada à adrenalina, nos escreveu também uma carta falada. A essa, nós respondemos um emoji de um coração ou um beijo e cheiro a perfume no papel – para ser adaptável à encruzilhada dos tempos.

Podemos não ser o seu destinatário, mas somos o seu novo admirador secreto.

Artigo da autoria de Inês Sincero