Cultura

NINGUÉM DEIXA MORRER O AMOR POR ORNATOS VIOLETA

Os Ornatos Violeta regressaram aos concertos na cidade do Porto. A banda portuense estreou o reinaugurado Pavilhão Rosa Mota, no dia 31 de outubro. O concerto celebrou os 20 anos de "O Monstro Precisa de Amigos" e toda a carreira do grupo.

1 de novembro 2012 era a data da última atuação de Ornatos Violeta na Invicta. Sete anos depois, a banda regressou aos palcos da sua cidade. O reinaugurado Pavilhão Rosa Mota foi estreado pelo conjunto portuense através de dois concertos: um a 31 de outubro e o segundo no dia a seguir. O JUP presenciou o primeiro de dois dias de celebração dos 20 anos de O Monstro Precisa de Amigos e de toda a carreira de Ornatos.

O palco esteve situado no centro da arena, de modo a produzir um espetáculo em 360 graus. O objetivo era testar e exibir as novas capacidades da sala de espetáculos. Nesse aspeto, o local mostrou-se à altura, com som envolvente, jogo de luzes imersivo e espaço suficiente para o público. Ocasionalmente, houve um pouco de feedback, mas nada que fosse muito incomodativo. O Pavilhão Rosa Mota passou no exame. Tempo agora para o que verdadeiramente interessa: os artistas.

Os Ornatos Violeta entraram em palco, pouco depois das 22h. Apesar do destaque ir para o segundo álbum, foi “Como Afundar” de Inéditos/Raridades a começar o concerto. Uma forma contemplativa de matar saudades e deixar a promessa através da letra: “Eu não vou mudar”. De seguida, entrou-se na celebração d’O Monstro com “Tanque” e Manel Cruz até já tinha tirado a camisola. Voltou-se logo ao terceiro álbum através de “Há-de Encarnar”. Mesmo sendo de discos dispersos, as canções complementam-se e formam um ser próprio que só Ornatos conseguem produzir.

A euforia do público aumentava a cada faixa tocada, como “Pára de Olhar para Mim” e “Para Nunca Mais Mentir”. A energia culminou em “Ouvi Dizer”, o grande hino, onde a voz de Manel Cruz funde-se às dos fãs clamorosos na declamação do poema icónico. Talvez esta seja a maior prova de fé dos seguidores da banda, pois poucos são os artistas que tocam o seu single mais conhecido na primeira metade do espetáculo. Ornatos ainda tinham muito para dar e a audiência também.

“Nuvem”, “Notícias do Fundo” e “O.M.E.M.” foram as próximas. Como é habitual, Manel Cruz saltava pelo círculo que formava o palco, enquanto todos os elementos trocavam olhares de um orgulho cúmplice. A cúpula do Pavilhão Rosa Mota era iluminada por imagens de cada um dos membros da banda, devido a pequenas câmaras instaladas nos suportes de microfone. Uma fã comentava que este “ambiente é mágico”. Os próprios Ornatos tinham essa magia nos olhos ao contemplar a massa humana que os acarinhava.

O alinhamento continuava a queimar faixas do segundo álbum. “Chaga” e “Coisas” colocavam a arena a saltar e dançar e não se podia omitir “Deixa Morrer” – a “canção mais linda que um Peixe alguma vez compôs”, segundo o vocalista, e uma celebração não-intencional do regresso da banda aos palcos.

Depois da festa, era altura de um novo momento de união. Os acordes de “Devagar” começaram na guitarra acústica de Manel Cruz. O Pavilhão Rosa Mota entrou no espaço etéreo dessa canção, a luz diminuiu e o público abraçou a uma só voz os seus ídolos em palco. São apenas três minutos e meio, mas, simultaneamente, é uma eternidade que não queremos que termine.

“Sabem contar até três?”, pergunta Manel. Sabem sim, inclusive sabem cantar toda a “Capitão Romance” que se seguia. Uma faixa muito popular, porém nessa noite serviu de aquecimento para algo melhor. “Pára-me Agora” foi uma autêntica sobrecarga de energia, com todos na arena a gritar, repetidamente, o título da canção antes dos Ornatos chegarem ao seu clímax explosivo. O renovado Pavilhão Rosa Mota não cedeu às tentativas de deitar a casa a baixo.

Antes da banda tocar a última do alinhamento principal, Manel Cruz aproveitou para dizer que era “um prazer estar aqui”. O vocalista agradeceu aos técnicos que trabalharam o dia todo para montar o palco e preparar a atuação. “Esta merda é difícil para caralho”, reforçou. Os Ornatos Violeta tocaram “Dia Mau” e despediram-se do palco.

O regresso demorou alguns minutos, talvez porque se estava a preparar um momento especial. Manel Cruz pergunta “onde está o Pedro?” e, pouco depois, o visado sobe ao palco. O homem utiliza o tempo de antena para pedir Paula, que estava por entre a audiência, em casamento. Manel serviu de sacerdote e oficializou o casamento, apesar de ter trocado o nome da noiva com “Sandra”. A confusão parece não ter afetado a mulher, já que ela chorava de alegria e choque. Pedro voltou para o lado da sua futura esposa e abraçou-a, enquanto o encore começou com “Tempo de Nascer”.

A banda revisitou o álbum Cão! através de “A Dama do Sinal” e depois voltou a O Monstro Precisa de Amigos para assinalar o “Fim da Canção”. Nova despedida do palco e também novo regresso, este menos demorado. “Dias de Fé” fez-se ouvir, seguida por “Punk Moda Funk”, canção que já não era tocada em terras nortenhas há sete anos. A curta, se bem que bela, “Raquel” serviu de desfecho derradeiro para o concerto.

Os fãs abandonaram completamente esgotados, mas satisfeitos pelo espetáculo. O reinaugurado Pavilhão Rosa Mota foi estreado com sucesso, mas o maior êxito não foi o espaço e sim a banda que atuou nele. Há um hábito recorrente de brincar com as letras do grupo e dizer que eles “estão vivos outra vez”. A verdade é que Ornatos Violeta nunca morreram, porque ninguém deixa morrer o amor por eles.