Cultura

PORTO DESIGN BIENNALE: CULTURA E ECONOMIA A MEXER NA PRIMEIRA EDIÇÃO

Esta semana deu-se o início da primeira Porto Design Biennale, organizada pelo ESAD-IDEA com colaboração das comarcas do Porto e Matosinhos. O evento mais importante na cultura do Design em Portugal decorre até dezembro deste ano. Por Giulia Pedrosa.

O evento, acessível de 19 de setembro até 8 de dezembro, é um espaço de produção e partilha de conhecimento que aborda temáticas do quotidiano no ponto de vista social, tecnológico, político e climático. O tema principal – “Post Millennium Tension” – foca-se no design como ferramenta e agente de mudança face às tensões e transformações que afectam a realidade do nosso quotidiano nos vários níveis. Trata-se da exposição de projectos de “utopia realizáveis”, como inquirições e respostas a problemas emergentes.

Uma bienal é um evento efémero por definição, porém, os organizadores procuraram estratégias que contrariassem essa característica: dividiram o programa em três núcleos – Present Tense, Design and Democracy e Design Forum. A formação dos públicos e a aposta num serviço educativo são duas dessas estratégias. Com o programa, a decorrer nos quase 3 meses desta edição, espera-se deixar um legado não só na cidade do Porto mas também em Portugal e a nível internacional, tornando a bienal num espaço de produção e partilha de conhecimento.

Present tense apresenta as exposições Millennials, Portugal Industrial e Hard Design.

Design and Democracy expõe Que Força é Essa, onde cartazes únicos recolhidos de protestos pacíficos em Portugal revelam a dimensão política da tensão pós-milénio, as inquietações, interrogações e intensidades que os caracterizam e as relações do design com a democracia. Este núcleo conta, também, com  a exposição A Força da Forma, mostrando através de formas as identidades que o design português assumiu ao longo do tempo e a maneira como se relaciona com os poderes democráticos, autoritários, disciplinares, centrais e periféricos. É possível, ainda, observar Design Systems, uma exposição que promove uma plataforma para investigação do pensamento sobre ‘sistemas’ na sua relação com o design, de forma colaborativa e experimental através de workshops.

Design Forum aborda as conferências/debates Monstrous Designs e Black Box – Stories of the future. O núcleo dispõe também do programa Fiction Practice, onde jovens curadores de design podem participar em workshops, num “laboratório experimental” que procura dar espaço à criação de propostas e formar possíveis curadores de edições futuras. Ainda nesta secção, existe o programa Assembleias, paralelo às exposições da Bienal, com talks, workshops e debates para criar extensões críticas e temáticas. Assim, a bienal não só consiste num espaço de exposição mas também num local de participação plural de discussão e exposição de conhecimentos, onde os visitantes podem adquirir conhecimento relevante sobre temas instigantes do design no novo milénio.

A Bienal aposta também em Itália como país convidado e tem o Territorio Italia sob a curadoria de Maria Milano. A diretora do Mestrado em Design de Interiores da ESAD explicou ao JUP o seu contributo na sociedade contemporânea e o papel do Design num Porto multi cultural:

“O Porto é uma cidade que tem sido capaz de acolher a multiculturalidade que é típica da condição contemporânea, é uma cidade multi cultural e tem uma estrutura, um tecido social muito integrador. Esta integração, uma série de fluxos que vem do Brasil, da África… tem sido não problemática, contrariamente ao que acontece em outras nações, em Portugal tem sido muito fluída, muito pacífica e o Porto, especificamente, é uma cidade que se presta a esta multiculturalidade. Não é internacionalidade, é mesmo multiculturalidade, é a capacidade de acolher culturas outras. E acho que um bocado do perfil do Porto é este, a cidade enquanto tal tem tido esta capacidade de integração, sim, de multiculturalidade. Portanto acho que para a sociedade isto é algo importante, eu sinto que os estrangeiros que vêm ao Porto viver, não falamos dos que vêm aqui visitar, sentem-se logo integrados e recebidos, portanto acho que o grande contributo que o Porto dá à sociedade é isto: ser capaz de integrar culturas outras e conviver de uma forma sinérgica e sincrética com as culturas outras.

O Design tem que ser o intérprete da multiculturalidade, portanto os designers têm que se concentrar a desenhar objectos que sejam respostas, necessidades, de uma sociedade em mudança, de uma sociedade que hoje é multi cultural efectivamente, e portanto o design tem que dar resposta e adaptar-se a estas novas exigências, porque a cidade muda, as pessoas que a vivem, habitam, mudam e o design tem que ter essa capacidade de se adaptar, sim”.

Fonte: Porto Design Biennale
Fonte: Porto Design Biennale

A secção Territorio Italia conta com a conferência Territorio Italia, reflectindo sobre a cultura do Design num país que é referência na área. Estão presentes, ainda, as exposições Frontiere, Riccardo Dalisi – Imperfeição Perfeita e Abitare Italia – ícones do Design Italiano.

Luísa Salgueiro, presidente da câmara de Matosinhos, pronunciou-se sobre o desejo de tornar o Design algo central nas estratégias das cidades desta região. Falou à imprensa sobre a importância de ter um país convidado, como Itália, nesta Bienal, por ser uma forma de projectar a nossa região e competir com as grandes metrópoles, para afirmar o Design português a nível internacional. A presidente espera que o evento seja coerente com o trabalho que vem a ser feito e, não sendo uma iniciativa isolada, uma boa consequência de um trabalho consolidado, regular e programado. No seu discurso, mencionou ainda os profissionais do setor e as dificuldades da inclusão do Design na economia nacional. Não deve ser tirado a esta arte o seu peso no poder político, principalmente quando as indústrias portuguesas utilizam o design para se afirmar internacionalmente, correlacionando “a cultura acontecer e a economia a mexer”. Luísa Salgueiro comentou ainda a necessidade de união das duas autarquias metropolitanas para dividir projetos e orçamentos – principalmente de algo tão importante, mas ainda “tão oculto e disfarçado no nosso dia a dia como o Design”. Por fim, eleva o Porto a uma grande referência urbana, em termos internacionais e, naturalmente o evento leva cicatrizado o nome da cidade. Porém, a arte da arquitetura e o do design são marcas de afirmação de Matosinhos, nomeadamente devido à ESAD –  Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos e à Casa do Design.

Nesta edição, a PDB abriu a sua programação a designers que gostariam de expor seus projetos na Bienal, através de uma Open Call for Projects. O júri selecionou dez, dos 82 projetos submetidos, para serem exibidos, e procurou apoiar aqueles que encaram o design como uma disciplina mediadora face aos desafios emergentes e mostram alternativas e utopias concretas, que contenham potencial para ser realizadas.

Também está incluído no programa da PDB o Projeto Escolas, comissionado por Francisco Providência, que parte da convicção que as escolas são laboratórios e observatórios da existência numa dimensão social, tecnológica e intelectual. De facto, o cerne da Bienal nasceu, precisamente, numa escola – curiosamente os sítios que onde se sente mais intensamente as tensões do novo milênio e onde mais se produz a reflexão do Design e sobre o Design. Haverá, no decorrer do projeto escolas, uma exposição inaugural no mês de novembro, seguida de debates sobre o ensino do design num tempo de grande heterogeneidade cultural e disparidade de oferta artística. Para este programa, foram convidadas as 35 escolas que ensinam design em Portugal – públicas e privadas – dos três níveis académicos: licenciatura, mestrado e doutoramento.

A Porto Design Biennale tem um investimento de 1 milhão e 400 mil euros, sendo 860 mil euros pela Câmara Municipal do Porto e 540 mil euros pela Câmara Municipal de Matosinhos – sendo, portanto, um projeto de grande relevância para os dois municípios.

Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, falou à imprensa sobre a importância da prática do Design, convicto que este é um dos aspectos mais significativos da cultura contemporânea da cidade e região do Porto, bem como como uma disciplina com enorme valor artístico e económico, que nos destaca a nível nacional e internacional. Citou ainda a exposição “Design by Porto, Porto by Design: 4 anos de Design da Câmara do Porto”, que esteve em exibição em 2017, relembrando a maneira como a Câmara do Porto se relacionou, ao longo de quatro anos, com a prática do design gráfico na cidade, e trouxe esta arte para o centro da sua estratégia cultural e de comunicação, reconhecendo-se o seu inegável valor. O presidente da Câmara do Porto justifica ainda a escolha da Itália como país convidado da Bienal, dada a sua importância e relevância na matéria, bem como a ligação e proximidade do país a Portugal.

José Bártolo, curador-geral da Porto Design Biennale, afirmou que um evento desta dimensão só é possível através de uma estratégia pública para o Design que as duas cidades partilham. É ainda de referir a favorável conjuntura de elementos, fatores, programadores, curadores e designers, com alguns elementos identitários e diferenciadores, além do ensino empresarial e industrial que se une à PDB porque crê na notabilidade do programa.

A entrada é livre em todos os eventos, com exceção das exposições Riccardo Dalisi – Imperfeição Perfeita e Abitare Italia – ícones do Design Italiano. As conferências têm lugares condicionados à disponibilidade do espaço e obrigam ao levantamento de bilhetes. Cerca de 100 mil visitantes são esperados nos mais variados eventos. A semana inaugural vai até o dia 28 de Setembro e a programação completa encontra-se no website oficial da PDB (portodesignbiennale.pt).

Artigo da autoria de Giulia Pedrosa.