Cultura

JORGE SILVA: “O BONS SONS TINHA TUDO PARA DAR ERRADO”

Uma semana depois da décima edição do Bons Sons, recordamos a conversa com Jorge Silva, diretor-executivo do festival. Por Nina Muschketat.

Após uma espera mútua de cerca de meia hora num espaço de seis metros quadrados, pela simples razão de não ter havido qualquer reconhecimento prévio (apesar do meu vestido azul e da camisa às pintas de Jorge Silva), lá nos sentámos, no último dia da décima edição do Bons Sons, numa mesa no palco Zeca Afonso, com vista para as “oliveiras centenárias” de Cem Soldos. Por entre distrações técnicas iniciais e uma pausa para avaliar a entorse de uma festivaleira na rampa ao nosso lado, Jorge Silva, diretor-executivo do Bons Sons, deu um bocadinho do seu tempo ao JUP e falou sobre um festival que “gosta de desafios”, é “seguro e confortável” e, sobretudo, é “um festival de experiências”.

O público tem-se mostrado satisfeito com o festival? Tem havido reações inesperadas?

Daquilo que eu tenho conversado com as pessoas, o “efeito Bons Sons” mantém-se: seja naqueles que vêm já há alguns anos, seja naqueles que estão a chegar pela primeira vez, as pessoas vão de coração cheio. Nós temos esse cuidado, para os festivaleiros, músicos e público terem a melhor experiência possível – porque o Bons Sons é um festival de experiências. Está a correr muitíssimo bem, ontem [sábado] esgotámos. Já no ano passado esgotámos no sábado e este ano voltámos a repeti-lo. E nos outros dias também tivemos uma excelente afluência.

Este ano, resolveram reduzir a lotação do festival (para 35 mil pessoas ao longo dos quatro dias). Qual foi a razão?

Reduzimos a lotação, porque, mais uma vez, o Bons Sons é um festival de experiências. O ano passado tivemos a melhor edição de sempre em termos de visitas de festivaleiros, mas, apesar de estarmos no limite daquilo que é a capacidade permitida e que está no nosso plano de segurança (poderíamos ir até 10 000 pessoas por dia), sentimos que era excessivo e decidimos abdicar dessas receitas e bilhetes a mais, reduzindo o público neste ano. O Bons Sons não é um festival de massas, mas sim para pessoas. É feito de rostos humanos e queremos que se mantenha dessa maneira: pretendemos que o Bons Sons seja um festival confortável.

Relativamente à implementação das pulseiras eletrónicas, de onde veio a necessidade de se eliminar o dinheiro físico?

O cashless, enquanto diretor-executivo do festival, fez logo todo o sentido. Mal tive conhecimento desta possibilidade, fiquei logo sugestionado a trazê-la para o Bons Sons. Primeiro, porque é uma nova tecnologia; segundo, é segura, prática, confortável e favorece a experiência do visitante, porque, em vez de estarmos com dinheiro e com os multibancos, podemos utilizar uma solução que é integrada e que funciona como se fosse um condomínio privado. Aqui em Cem Soldos, e no Bons Sons, gostamos de desafios. Ao utilizarmos uma tecnologia de ponta sofisticadíssima, que só os principais festivais utilizam, tivemos de motivar e mostrar o funcionamento à equipa interna – que são pessoas de 50, 60, 70 anos -, o que teve alguns desafios logísticos. Não foi fácil, mas na altura, a empresa responsável – uma empresa internacional que faz inúmeros festivais – ficou absolutamente espantada.

Embora o custo adicional das pulseiras seja um peso significativo, achamos que favorece a própria experiência e a recetividade por parte do público, como também dos concessionados, foi totalmente positiva. Daí termos continuado com esta solução para este ano e penso que será para manter. E julgo mesmo que no futuro será aquilo que vai acabar por acontecer, porque nós tendemos a caminhar para uma certa desmaterialização do dinheiro – uma economia virtual.

Com esta medida, o Bons Sons traz a ideia de que de facto estás numa aldeia e o contemporâneo também existe, ou seja, o século XXI também chega cá. Eu não tenho de ir para um lugar urbano e altamente sofisticado para poder ter acesso a uma coisa que me facilita a vida. No fundo, é um equilíbrio entre estarmos aqui, com duas oliveiras centenárias à nossa frente, e se for o caso vamos ali e bebemos uma cerveja com o sistema do século XXI.

No que toca ao cartaz do festival, há algum limite em termos de estilo musical?

Nenhuma. Desde o início que quisemos que o Bons Sons fosse um festival eclético e transversal nos diferentes géneros musicais. Se pensarmos o que é a portugalidade, o que é ser português, é isto, são estas aldeias; mas também é mundo e as fusões com outras culturas. Não podemos renegar as influências com outros contextos e países que fizeram parte do nosso passado e que fazem atualmente parte do nosso presente. Já tivemos aqui a Selma Uamusse, por exemplo, que tem origens moçambicanas, ou o Dino d’Santiago, que vai tocar hoje, que tem, claramente, inspiração cabo-verdiana. Portanto, desde que tenha coerência, não é obrigatório que seja música somente portuguesa. Ao longo dos anos até fomos mesmo alargando os géneros: numa fase inicial não tínhamos fado nem eletrónica, por exemplo. Sempre tivemos música mais etnográfica, de raiz folk, portuguesa, e claro, a pop e o rock. Também incluímos cantautores portugueses, cuja inspiração são o Zeca Afonso, o António Variações, entre outros – os nomes que atribuímos aos palcos.

De entre tantos outros, porquê a escolha desses nomes em específico para os palcos?

São os que queremos celebrar. Os nomes que temos no palco são os nomes que achamos que são marcos absolutamente estruturantes daquilo que é a nossa identidade musical, bem como da nossa própria identidade. Portanto, é uma forma de os homenagearmos.

Há algum critério específico na seleção dos artistas?

Não há nenhuma restrição. O que costuma acontecer é que os convites que fazemos são ajustados aos diferentes palcos, já que estes traduzem, em certa medida, uma ideia e uma linguagem musical específicas. Todos os anos temos uma nuvem gigante de gente que adoraríamos ter cá. Infelizmente, com todos os novos que vão aparecendo, não nos é possível trazer todos. Há muita gente que nós gostamos sempre de trazer cá, aqueles nomes que são traves-mestras do nosso cancioneiro e que influenciam múltiplas gerações de músicos, e que temos todo o gosto em homenagear. Assim como já tivemos o Sérgio Godinho, o Jorge Palma e o Fausto Bordalo Dias. Este ano, por exemplo, é o Júlio Pereira.

De acordo com o que se observa, bem como com palavras de festivaleiros, há cada vez uma maior adesão do público infantil. Existe a preocupação em misturar idades no Bons Sons?

O festival sempre foi um festival intergeracional. Foi uma coisa que quisemos fazer. O que fomos verificando foi que cada vez mais, dado o Bons Sons ser um festival confortável e seguro, os pais trazem os seus filhos. Então começámos a ter propostas e atividades de manhã também para os pais e para as suas crianças. A seguir, pensámos em encontrar um espaço para elas, uma espécie de babysitting, e então criámos o Espaço Criança. Há crianças que já vêm cá há pelo menos três anos consecutivos e a primeira coisa que elas fazem é ir diretamente para lá.

É um festival para todas as pessoas e todo o tipo de público: temos aquele que quer ver os DJs, que fica no parque de campismo e que vai “procurar a Elsa”, e também o outro público que traz os seus filhos. Por isso, tentamos oferecer uma programação direcionada para os dois públicos, tanto para o mais jovem como para o público mais adulto: não basta estarmos apenas disponíveis para receber. Para o público mais jovem, temos música para crianças, os percursos das caminhadas e os Jogos do Hélder – que são absolutamente extraordinários.  E assim, de repente, ao planearmos este contexto diferente, os miúdos, que costumam estar sempre ligados ao telemóvel, libertam-se e têm de utilizar a motricidade fina e o cálculo mental.

Um outro exemplo são as histórias para crianças que temos tido. No ano passado tivemos as Histórias do Bestiário, uma compilação das histórias dos monstros imaginários que existem em Portugal. Este ano, para não repetir a mesma programação, temos as Histórias das Princesas, que são histórias de duas mulheres portuguesas extraordinárias que não são tão conhecidas e que se devem evidenciar (as mulheres muitas vezes na sociedade não têm tido a visibilidade que deveriam ter) – e com esta programação quisemos, de alguma forma, mostrar esta pedagogia de que Portugal também tem mulheres extraordinárias.

Os primeiros-socorros aparentam ser muito presentes e funcionais no festival. Houve alterações ao longo das dez edições?

Este ano, pela primeira vez, temos um posto móvel avançado com médicos e enfermeiros 24 horas por dia. Até agora tínhamos tido uma parceria que envolvia bombeiros e alguns enfermeiros. Num esforço de darmos e assegurarmos as melhores condições nas possíveis situações que possam acontecer, num festival que raramente tem solicitações. Ao longo dos anos, tivemos cerca de 88 solicitações, todas elas à volta de insolações, ou de pequenas entorses… Portanto, isto é tudo muito pacífico. Mas mesmo assim, temos cá médicos e enfermeiros, e uma ambulância permanentemente. Esta foi também uma melhoria que quisemos acrescentar. Temos vindo a melhorar cada vez mais a experiência, a dar mais conforto, porque, no fundo, o que queremos é que as pessoas venham viver a aldeia do século XXI – e que esta não seja apenas só mais uma coisa bucólica passada.

No final do festival, costumam fazer inquéritos para avaliar o feedback dos festivaleiros?

Sim, realizamos todos os anos um estudo público, juntamente com a Daniela Craveiro. Não queremos ficar parados, tentamos sempre fazer esforços adicionais. E isto faz com que quem já conhece, queira vir saber quais são as novidades e quem vem pela primeira vez, fique encantada com a nossa proposta e aquilo que nós programamos e preparamos. Eu posso ser suspeito [risos], mas penso que todo o público adora vir aos Bons Sons. Nós não temos, em termos de orçamento de comunicação, aquilo que têm outros festivais com outra maturidade, que nos esmagam em termos de visibilidade mediática. Na verdade, o Bons Sons tinha tudo para dar errado.

Primeiro, ninguém valorizava a música portuguesa (havia uma maior comercialização de referências anglo-saxónicas, por exemplo, aquilo que a maioria dos festivais são); segundo, é numa aldeia, a fugir dos circuitos urbanos, onde habitualmente estas coisas acontecem; e tem nomes que as pessoas ainda não conhecem. Muitas vezes, uma forma de mobilização das pessoas nos festivais é terem os cabeças de cartaz. Mas, apesar disto, não me lembro de ver uma crítica de jornalista negativa sobre o Bons Sons. Haverá, claro, coisas a melhorar.

Por exemplo, este ano, pela primeira vez, acrescentámos uma nova área no parque de campismo – um parque de sossego, digamos – onde há um buffetzinho que possibilita um maior descanso. Isto para dizer que, podendo haver coisas a melhorar – que há, sem dúvida, o festival não é perfeito -, acima de tudo, o que nós procuramos fazer é dar a maior experiência possível e que seja uma coisa verdadeiramente genuína.

Artigo da autoria de Nina Muschketat.