Cultura

BONS SONS: TUDO TEM UM FIM

O quarto e último dia do festival correu a passos largos. Mas não se deixou de se reter os últimos frutos desta décima edição do Bons Sons, igualmente saborosos. Um dia de festival em Cem Soldos tão bom quanto os anteriores, mas com a particularidade infeliz de já não haver o amanhã. Por Nina Muschketat.

Quando um domingo não sabe a domingo, só pode significar que foi um domingo nosso amigo. Há quem diga que uma boa manhã (cada qual com a sua definição de manhã) seja o segredo; outros adiam-no para o final da tarde. Seja qual for a perspetiva, este domingo cumpriu todos os requisitos.

Depois de um café e torrada no Café da Tonita, no centro – o único – da aldeia, uma vista de olhos nas histórias encenadas caiu bem. Os resquícios do “modo zombie” matinal proporcionaram a altura certa para se comprar um vestido de “modelo e tamanho único”, segundo o vendedor, na feira das ruas da aldeia.

A hora pós-almoço foi passada – uma (e pela última) vez mais dentro da igreja – com Ricardo Leitão Pedro e os seus instrumentos de corda dedilhada. Ele, a sua voz e as cordas do alaúde e da teorba ocuparam todo o pequeno palco. Muito particular no seu estilo musical, Ricardo procura explorar a música antiga com a sua “própria música” e surge como um dos poucos cantores-instrumentistas da Antiguidade em Portugal. Juntamente com um forte agradecimento ao Bons Sons por “apostar nos músicos portugueses nas aldeias portuguesas”, o músico deixou o repto para o caso de uma editora querer um contrato com um alaudista – que não haja acanhamentos: como já outro dizia “o gajo é bom, pá”.

Ricardo Toscano e João Paulo Esteves da Silva, dois dos representantes do jazz no festival, foram os sortudos responsáveis por inspirar o público durante o pôr do sol. Iniciando com um “tema acabado de ser escrito, tocado, improvisado, interpretado, ensaiado”, o duo composto por um saxofone e um piano manteve-se numa linha musical com tendência para o atonal. Sempre que terminava um solo, as palmas e os sons vocais entusiasmados do público sobrepunham-se ao início do outro solo, ou simplesmente ao resto da “malha”. As pequenas palmas intermédias culminaram num muito maior e prolongado aplauso final, sinal de que os dois músicos foram recebidos com todo o gosto.

Em horas vespertinas, Luísa Sobral e os seus companheiros tomaram posse do Palco Zeca Afonso, e as primeiras palavras que se ouviram foram elogios, tanto ao festival como ao público: “é um festival que deste lado também fica muito na cabeça”, adocicado com “toda a gente ouve cada coisa que nós estamos a fazer”. Apesar da melancolia vigente no seu repertório, Luísa Sobral conseguiu facilmente manter os ânimos do seu público. As inúmeras histórias pessoais partilhadas, as pequenas piadas contadas (por vezes com uma qualidade vacilante), bem como as diversas menções e dedicações de canções aos seus dois filhos, revelaram uma artista, e uma mãe, muito atenciosa e com uma facilidade extrema para criar um ambiente de familiaridade. Os longos e sentidos ohhhhhhhhhs por parte do público comprovaram uma adoração carinhosa para com a cantora (mas também o gostinho de ficar a par das pequenas coisas que acontecem na vida dos artistas…). Claro que não é apenas o seu grande à vontade que é admirado pelos ouvintes. Também a ternura e o sentimento presentes na sua voz, que cantou baladas como “Dois Namorados” e “Benjamim”, do seu disco mais recente Rosa, rapidamente os comoveu e motivou a acompanhar a cantora com as suas próprias cordas vocais. Para escapar um pouco aos tons melancólicos, Luísa Sobral lá meteu “uma canção feliz, para variar”, e com uma assim alegre, “Xico”, também pôs fim ao concerto.

A passagem das 23h00 foi mais uma das inumeráveis provas da diversidade do festival: dos dedos de Júlio Pereira a dançarem no seu pequeno cavaquinho avançou-se para o pop-rock dos Tape Junk. As letras de João Correia, um Nuno Lucas a vibrar aos saltos, as teclas e batuques ritmados de Benjamim (que, em conversa informal, revelou ter começado a carreira musical com violino e só depois ter agarrado o piano), as mãos habilmente descoordenadas de António Dias e um Frankie Chavez insubstituível – tudo isto foram componentes essenciais no concerto. Contando com o facto de que mais de metade dos membros da banda já tinham estado em palco nesta edição do festival, com outras bandas, a energia que depositaram no concerto foi sensacional. Estes saltos dos músicos entre as bandas implicam ou uma grande flexibilidade dos artistas, ou talvez uma forte inter-amizade, ou… outra coisa qualquer. Num concerto como este, uma corda de guitarra partida nem é obstáculo a considerar: é apenas um elemento através do qual se faz o público sorrir ainda mais.

Para os apreciadores de misturas de, sobretudo, funaná e hip hop, o concerto de Dino d’Santiago – o cantor com ascendência cabo-verdiana e raízes em Quarteira provavelmente no auge da carreira – foi uma festa. Para meros observadores, foram centenas de mãos no ar e lábios a desenhar letras, embrenhados nas melodias mexidas e sensuais. “Sodade”, de Cesária Évora, encerrou o capítulo e fez a multidão encaminhar-se para o Palco António Variações. Sensible Soccers e Tiago Sami Pereira prosseguiram com a noite, feita de timbres sem fronteiras que resultaram em abanares de cabeça frenéticos. Um instrumental repleto de complexidades e de grande valor, sem dúvida.

 “O Bons Sons tinha tudo para dar errado”, contou Jorge Silva, o diretor-executivo do festival, em conversa, a observar as oliveiras do palco Zeca Afonso. “É o primeiro festival de música portuguesa em Portugal, (…) é realizado numa aldeia, a fugir dos circuitos urbanos onde habitualmente estas coisas acontecem, e com nomes que as pessoas ainda não conhecem”. Mas confirma-se que a evolução do festival não alimentou o receio inicial.

“Queremos que as pessoas venham viver a aldeia do século XXI, (…) e que seja um festival confortável e seguro”.

Tão confortável, tão seguro e tão familiar, que até propicia conversas informais com os artistas às duas da manhã.

“O Bons Sons é um festival de experiências”, conclui Jorge Silva. Tanto no interior como no exterior: é um festival que evolui e que é melhorado de edição para edição através das experiências; é um must-see para os que prezam todo um conjunto de fatores que faz deste festival o que ele é – a calma, a portugalidade e a contemporaneidade a ascender numa aldeia. Que a aldeia de Cem Soldos continue a viver e a ser vivida durante muitos mais anos.

Artigo da autoria de Nina Muschketat.