Cultura

BONS SONS: QUAL É A COISA QUAL É ELA? (SÃO TANTAS)

Ainda que já se encontre mais perto do fim do que do início, o festival de Cem Soldos mantém a sua dinâmica especial. No terceiro dia viu-se um público que fugiu aos experimentalismos de Pop dell’Arte e que se riu de um JP Simões sempre fiel a si próprio. E muito mais é dizer pouco. Por Nina Muschketat.

Mais um dia a sentir as andanças da aldeia de Cem Soldos. O frio e a chuva sentidos neste terceiro dia não foram muito bem-vindos, no entanto foram aliados dos pedacinhos de cultura que o festival oferece todos os dias. Durante a tarde, soube bem refugiar em sítios mais fechados e saborear as inúmeras partilhas proporcionadas: momentos de poesia e conversas, espetáculos de dança, curtas metragens, assim como trabalhos artísticos com exposições de fotografia e até pinturas murais ao relento.

Pela primeira vez no Bons Sons como duo, José Valente e Manuel Maio tocaram no palco Carlos Paredes, localizado dentro da igreja da aldeia. Recém-chegados de Itália, agora em Cem Soldos e em breve na aldeia de Xisto, o duo tem tido um ano atribulado de concertos, que incluem originais de cada um, de ambos em conjunto, ou arranjos baseados noutros autores. Com a possibilidade de fazer algumas questões aos dois músicos, retirou-se que ambos são duas personalidades criativas distintas com influências da música clássica, portuguesa e do jazz que culminam nesta música de câmara cujo estilo musical não tem uma definição concreta. Ambos ressaltam a “receptividade do público”, “muito caloroso”, perante esta apresentação algo diferente das restantes bandas do festival. Um violino e uma viola d’arco a jogar com as cordas numa interação a brincar com os pios.

O marketing dos Bons Sons obtém resultados: crianças com t-shirts (à frente, “Bons Sons” e, atrás, Mariana, Carmo, Luz, Diogo), jovens com sweatshirts de 2018 indicando “o meu amor de Verão”, vizinhas com lembranças de 2012, primos a ostentar os motes do festival e primas orgulhosas dos chapéus…  “Cuidado, que amanhã já não há mais”, diz quem as produz. Vê-se namorados e namoradas a envergar: “eu vivi a aldeia”. As frases já vêm no passado – os quatro dias do festival já estão na história.

A vez de Pop dell’Arte chegou já a noite ia avançada. “Não sei o que dizer, não sei o que fazer”. Imóvel no palco, sim. Mas não calado – João Peste e a sua banda já de longa data Pop dell’Arte quiseram, mais do que dar um concerto, passar uma mensagem – que apenas foi recebida por quem realmente quis. O que inicialmente quase se podia comparar a um soundcheck evoluiu para um concerto que se revelou a surpresa da noite. O teor experimental das músicas, o evidente não-se-importar-com-a-opinião-dos-outros e a genialidade inerente diferenciaram os artistas do restante cartaz sabatino. O seu afastamento em relação à linha mais convencional do festival afugentou o público, pelo que só mesmo um pequeno grupo de gatos pingados se manteve à frente a aplaudir e a aproveitar o concerto: e se não foi pelas melodias, foi pelas letras de quem ficou conhecido como o “post-romantic lover who wants to buy a new identity” e não sabe “qual é a coisa qual é ela”.

A atuação da banda dividiu o público em opiniões de extremos opostos: ou se ouviu: “foi o melhor concerto que já vi no festival” ou se preferiu trocá-lo pela procura de um bom lugar no concerto do homem da noite predefinido, Tiago Bettencourt.

Tiago Bettencourt. Fotografia: João Norte.
Tiago Bettencourt. Fotografia: João Norte.

Depois de uma hora a ouvir algo fora do comum, a suavidade de Tiago Bettencourt foi um conforto para os que necessitam de um mundo que esteja sempre em ordem. Pela primeira vez a pisar os palcos de Cem Soldos, Bettencourt contou com a participação do público nas suas canções.

Já eram quase duas da manhã quando a combinação improvável Glockenwise, “betos” vestidos de azul, e JP Simões, o “mestre”, segundo o vocalista Nuno Rodrigues, deslocado e despenteado, foram abraçados pelo palco na luta contra o frio, que, com uma mesa de conferência com flores ao centro, dava espaço às pausas. JP Simões foi o que mais deu uso a este adereço: sentava-se, fumava, bebia, e nos entretantos ia arrumando cadeiras, contando histórias da “chicoteca” e tentando acompanhar a ordem das músicas. Todos os músicos e todo o público se riram e tudo acabou com “Bom Rapaz”, boa disposição e boa preparação corporal para DJ Ride, que se prolongou quase até serem as galinhas a fazer barulho.

Glockenwise + JP Simões. Fotografia: João Norte.
Glockenwise + JP Simões. Fotografia: João Norte.

Tudo é simpático neste festival, desde os corajosos que trabalham 24 horas nos primeiros-socorros (não há que ter medo de ter uma quebra de tensão nos Bons Sons, porque tudo é funcional) até às frases reconfortantes que se escondem pelas paredes da aldeia, avistadas se se tirar os olhos do óbvio – “carteiro em bicicleta leva recados de amor”, “vem que eu estou, pede que eu dou, chama que eu vou onde for” ou mesmo: “há sandes de leitão”. Recados de música levados na bicicleta do Hélder com sabor a chouriço com pão, tripas ou caldo verde.

Artigo da autoria de Nina Muschketat.