Cultura

BONS SONS: CEM SOLDOS CONTAGIA COM SORRISOS

O segundo dia de festival trouxe muitos mais artistas, menos chuviscos e dezenas de peculiaridades que fizeram, e fazem, da aldeia um ninho muito especial. Por Nina Muschketat.

Com treze anos de existência, o Bons Sons traz uma bagagem atrás que cada vez fica mais carregada. Umas breves perguntas a uma vendedora fiel ao festival, que já traz as suas bijuterias a Cem Soldos há cinco anos, permitiram averiguar que as edições do Bons Sons vieram a crescer de forma gradual – a pequena festa na e da aldeia, inicialmente sem custos de entrada, veio transformar-se num festival de grandes dimensões com custos crescentes, mais palcos e mais caras de várias idades. Apesar desta transformação, os preços locais e a familiaridade do espaço ainda indiciam o claro caráter modesto e confortável do festival. “Num concerto de ontem à noite, havia quinze carrinhos de bebés”, diz a mesma vendedora, que se mostrou positivamente surpreendida com a grande adesão infantil que o festival tem vindo a receber.

Bons Sons. Fotografia: João Norte.
Bons Sons. Fotografia: João Norte.

Também a forte preocupação ambientalista dos responsáveis pelo festival é visível. A implementação de várias medidas relacionadas com a defesa do ambiente, tais como o uso de loiças biodegradáveis, luzes LED, reciclagem funcional e casas de banho secas (sem descargas através da água), é um passo admirável em direção à defesa do planeta.

Apesar de a música ser a protagonista do festival, a aldeia presenteia os festivaleiros com inúmeras outras atividades lúdicas e criativas, desde uma sala de jogos, oficinas de diversas temáticas, aulas e jogos em cima de burros, assim como os icónicos “Jogos do Hélder”. Estes jogos, se à primeira vista aparentam ser mais direcionados para crianças, rapidamente se apercebe que é uma falsa aparência: seja para pôr a paciência e perícia à prova, para levar com um balde de água refrescante de cima a baixo, ou simplesmente para dar umas risadas, os Jogos do Hélder fazem parte do festival e são uma oportunidade imperdível para os mais atrevidos.

Afonso Cabral foi o último a atuar nos palcos secundários. Palcos secundários como quem diz: à frente de um vasto público, o artista admitiu que não esperava uma multidão, pelo que afinal sempre precisou de digerir o nervosismo miudinho para apresentar as suas misturas de som inesperadas, criadoras de um estilo único e de difícil decifração.

A acompanhar o pôr do sol, Cem Soldos recebeu Lodo e Peixe, uma banda e um guitarrista exímio que, juntos, fizeram soar o instrumental psicadélico no palco do festival com a vista mais bela. De longa duração e de caráter profundo, as músicas apelaram a uma introspeção perturbante.

O público mergulhou durante uma hora numa espécie de hipnose, onde apenas as crianças e os cães quebravam o gelo com a sua ingenuidade de dar inveja: ao som de melodias onde só apetecia esconder a cabeça debaixo da almofada e dar ouvidos à tristeza, as crianças rolavam pelo chão risonhas e rodavam em torno de si mesmas até não poder mais.

Ao longo da noite, Hélder Moutinho, irmão do fadista Camané, pisou o palco principal e fez cantar o fado. Fazendo uma “homenagem aos poetas do nosso país”, mais precisamente a todos os portugueses – de acordo com a sua premissa de que “somos todos poetas de alguma forma”. Hélder Moutinho pôs os portugueses a cantar as canções do coração de Portugal. “Lisboa Menina e Moça” obteve os vocals mais especiais.

First Breath After Coma e Noiserv foram, sem dúvida, as estrelas da noite. Interagindo de forma natural com o público e entre eles, os artistas fizeram do concerto um fluxo constante de energia positiva. Segundo eles, o concerto consistiu numa exploração das suas músicas em conjunto, “misturando os sons e fazendo coisas diferentes”. O público, animado e embrenhado em receber o máximo possível do momento, até conseguiu que os músicos retornassem no final do concerto para um novo agradecimento – raramente visto devido à estipulação de horários sucessivos para os concertos. Ouviu-se “o concerto foi tão lindo, que me apetecia chorar” por entre o público.

As lágrimas de Maria João, a blusa florida de Sallim, os chapéus de pescador em grande parte das cabeças, ou o prelúdio de Bach tocado no meio de um concerto alternativo, são só pequenos e maravilhosos pormenores numa aldeia inteira cheia deles. 

Um festival que continua tão, ou mais, doce que o chupa-chupa oferecido pela organização à entrada no campismo.

Maria João. Fotografia: João Norte.
Maria João. Fotografia: João Norte.

Artigo da autoria de Nina Muschketat.