Cultura

BONS SONS: O PRIMEIRO DIA A VIVER A ALDEIA

A décima edição do festival tomarense Bons Sons começou na quinta-feira. A música portuguesa regressou às ruas da aldeia de Cem Soldos. Por Nina Muschketat.

A aldeia de Cem Soldos recebeu, pela décima vez, o evento do ano, que enche as suas ruas. O festival que chama pelos ouvintes da música portuguesa começou na quinta-feira e prolonga-se durante quatro dias.

A aldeia é uma anfitriã de festival muito especial – barracas, palcos, pessoas e cães misturam-se pelas suas ruas num ambiente muito familiar, compondo um recinto diferente do normal. Além da típica constituição, que inclui vários palcos, uma zona de restauração caseira e apetecível, muitos pontos de venda de produtos (de onde ressaltam os de origem biológica), o festival parece incluir e dar vida às casas da vila. Aqui respeita-se o mote “vem viver a aldeia”, o que é uma mais-valia para quem se cansa do constante rodeio de pessoas: basta uma olhada discreta pelas janelas dos aldeantes adentro para respirar a paz das casas.

O festival que celebra a aldeia foi o primeiro em Portugal a dar exclusividade à música portuguesa no cartaz, mas a inovação não ficou por aí. O Bons Sons foi pioneiro, a nível nacional, na introdução das pulseiras eletrónicas “fazem-tudo”: seja para entrar no recinto, no campismo, ou, a parte inovadora, para pagar os “comes e bebes”, despedindo-se das notas e moedas e abraçando as tecnologias como forma de pagamento. Embora de muito boa intenção, a funcionalidade total das “modernices” é muitas vezes discutível: a rapidez e a simplificação resultantes da eliminação do dinheiro físico como meio de troca contrastaram com os erros tecnológicos que facilmente são provocados pelo mundo virtual. Situações provocadas pela inativação das pulseiras culminaram em muitas idas e voltas cansativas à bilheteira.

O passe geral do festival inclui acesso à zona do campismo. Esta zona evoca duas vertentes: por um lado, a calma do espaço e dos campistas recém-chegados permite uma estadia agradável nos recônditos da floresta. Por outro lado, as condições de higiene oferecidas aos festivaleiros são limitadas – apenas uma torneira que serve tanto para lavar os restos alimentares dos dentes como da loiça, e umas casas de banho que emanam um forte odor provocado pelos primeiros dejetos que já ficam a boiar, visíveis.

A dispersão dos festivaleiros pelas ruas labirínticas da aldeia escondia as 35 mil que compraram bilhete. A verdade revelou-se durante os concertos: muitas, muitas cabeças aglomeradas das mais variadas idades.

O primeiro dia do festival foi recheado de música portuguesa dos mais diferentes estilos musicais. A tarde foi preenchida por artistas mais acústicos e instrumentais, passando por ritmos africanos e terminando com a Orquestra Filarmónica Gafanhense, que aliou canções tradicionais e clássicas.

Um dos concertos mais esperados estreou a noite deste primeiro dia – Benjamim e Joana Espadinha avivaram o palco António Variações com as suas músicas. Alternando entre singles de Benjamim como “Terra Firme”, “Dança Com os Tubarões” ou “Madrugada”, e de Joana Espadinha como “Leva-me a Dançar” e “O Material Tem Sempre Razão”, os dois artistas portugueses puseram o público a mexer e a cantarolar. O concerto terminou com “Zero a Zero”, a canção composta por Benjamim e interpretada por Joana Espadinha no Festival da Canção de 2018.

A noite avançou com Fogo Fogo e X-Wife, duas bandas que não deixam espaço para o sono. Diabo na Cruz, uma das bandas que fazem parte da história do festival – actuaram na primeira edição – protagonizou o último concerto antes de se dar por aberto o momento do DJ Melgueira. Mesmo com o céu a chorar pingos e sem Jorge Cruz, o vocalista de longa data que prenunciou a sua saída neste mesmo ano, Diabo na Cruz encheu o palco da praça principal e deu asas à música portuguesa na sua forma mais genuína.

Sons que nem bombons: concertos e atividades para todos os gostos é o que os Bons Sons nos promete para os próximos dias.