Cultura

UM SOPRO AO OUVIDO DA VIDA

Sopro é uma ode ao teatro, à vida e à profissão de ponto, em vias de extinção. Por Maria Pinto.

Há 40 anos que Cristina Vidal sussurra frases de peças teatrais a atores em palco. É uma ponto, profissão quase em vias de extinção. Como muitas das profissões ligadas à arte teatral, o ponto não é visto no espaço de tempo em que a peça é mostrada ao público. Cristina faz um bom trabalho quando o público não repara nela. O seu maior elogio é não receber aplausos. Em 2010, Cristina é convidada por Tiago Rodrigues para ser protagonista de uma peça onde o seu papel não será nada mais do que o que ela já faz: “pontar” o texto a atores. A única diferença: estará à vista de todos os espectadores.

Daqui nasce Sopro, uma carta de amor (trágica, ou não serão as cartas de amor sempre trágicas?) à profissão, ao teatro, à vida. Uma carta de amor à memória, pois as histórias de um passado e a recordação de vivências de um presente serão isso mesmo: a memória.

Memória de histórias, memórias da História, das peças que já se fizeram, dos clássicos que serão sempre clássicos, que retratam situações que parece que estarão sempre coladas a nós, memórias de Cristina, memórias de Tiago, memórias dos atores. O mecanismo da memória no dia-a dia-de um ator, a famosa “branca”, e aquilo de que nos esquecemos ou não queremos dizer, mas que fica na memória. Ser ponto é viver isto tudo: dizer, soprar de forma neutra uns sons ouvidos por atores que se transformam em palavras e em sentido. Cria-se uma camada de memórias da mesma forma que se cria uma camada de pontos: Cristina comanda os atores, sopra-lhes as indicações, para eles poderem fazer de ponto, fazer dela.

O tempo da peça é incerto, a deambular, como a vida e como a própria ponto: um ponto está sempre um pouco à frente do que está a ser construído, apenas para voltar automaticamente e bruscamente para um presente marcado por um silêncio demorado. Uma diretora do passado junta-se a uma história onde um diretor do presente é participante. Um teatro em ruínas mostrado num teatro real. Colocam-se fragmentos de clássicos em cena para falar de um presente.

Faz-se uma pequena viagem pelo teatro. Racine, Molière, António Patrício… tramas, de diferentes géneros, que se misturam com as vidas dos próprios atores e que são mostradas em cena tendo sempre algo em comum: a despedida. Ser ponto torna-se assim ingrato, tem o poder de estar à frente, de saber um futuro que é secreto mas não o conseguir mudar. Tal como a memória, é algo que já passou, está escrito, é intocável. “Uma ponto que todas as noites ponta a morte da Ifigénia. ‘Mas nunca tiveste vontade de salvar a Ifigénia no final?’”. Uma ponto que tenta mudar o curso da história, que tenta convencer a personagem de que o que diz naquela cena é realmente o que ela quer dizer, o subtexto. “Tu não tens o direito de mudar o que está escrito”, diz-lhe a personagem da ficção da memória, corrigindo a própria memória, a vontade que temos de mudar na nossa cabeça a memória que lá está.

Uma carta de amor à memória, onde somos relembrados da urgência de saborear a vida, principalmente quando ela é difícil. À simplicidade de um momento, seja ele qual for, um processo de uma peça onde realmente o mais importante é criar as condições para aquelas pessoas dialogarem umas com as outras.

Sopro torna-se assim algo essencial, um remédio para quem estará prestes a desistir do momento. “Sobretudo, não morrer”. Saímos da sala com vontade de viver, sentir o vento, o sopro despercebido que passa por nós.